A safadeza fisiológica

Crédito: Marcos Corrêa/PR

(Crédito: Marcos Corrêa/PR)

E o Congresso ganhou cara e jeito do governo Bolsonaro. Também pudera: na mais desavergonhada farra de distribuição de cargos e emendas à luz do dia, subserviente ao modelo fisiológico, comprando, na cara dura, votos para seus candidatos preferidos (R$ 3 bilhões em emendas “extras”, R$ 20 bilhões no total), o capitão gastou o quanto pôde e costurou nas Casas do Senado e da Câmara o apoio a figuras que lhe prestassem vassalagem, atendessem a seus interesses, acobertassem seus desmandos e, principalmente, garantissem o abafa a qualquer das mais de seis dezenas de pedidos de abertura de processos de impeachment catalogados para tirá-lo da cadeira que nunca mereceu e na qual vem praticando as mais inomináveis barbaridades. Bolsonaro levou tudo, “all in” pela jogada do pôquer. Na despudorada tentativa de vergar o Legislativo ao servilismo, deixou claro o estelionato eleitoral que pratica. Jamais lhe passou pela cabeça — e agora está mais uma vez evidente — combater a corrupção, o toma lá, dá cá que, em campanha, tanto criticava. Enganou aos trouxas e, despido das vestes de paladino, mostrou o verdadeiro pendor de atração e familiaridade pela arraia-miúda da política. No altar das negociatas, não foram discutidas plataformas de governo, princípios, projetos. Nada disso. Qual o preço? Quanto custa trazê-lo para nosso lado? Era esse o tom das conversas, molhando a mão de ao menos 250 deputados e 35 senadores. O presidente da República nem disfarçou (seus interlocutores também não). Indecoroso não apenas nos anseios e nas palavras, fez a sólida opção pelo que há de mais venal nas relações institucionais. Às favas com a harmonia dos poderes. O objetivo era a submissão, colocar de joelhos congressistas, como se vassalos fossem do soberano — e alguns até adoram o papel, desde que regiamente remunerados. Com a anuência de bom grado da tropa do escambo de mandatos democráticos, Messias conseguiu. Desmontou os últimos alicerces de alguma dignidade parlamentar. É bem verdade que por pouco tempo. A suposta vitória tem prazo de validade curto e fatura alta a pagar. Além das “traições”, que pairam no horizonte. Afinal, é do Centrão que estamos falando. O bloco disforme de oportunistas do Legislativo quer muito e quer mais. O choque entre as demandas e a penúria de caixa do Estado vai se dar, mais cedo ou mais tarde.

Espere o primeiro descumprimento de uma promessa ou a contrariedade de anseios e metas do bloco. Fato indiscutível, não há como contratar com essa turma um seguro vitalício, sem renovação de agrados e concessões quase diárias. Eles viram casaca como trocam de roupa. Por enquanto, a geleia geral lambuzou a “Casa do povo” para acomodar interesses da maioria, em especial do baixo clero parlamentar, no qual o “mito” Bolsonaro é conhecido desde tempos imemoriáveis de deputado medíocre que, por 27 anos de legislatura, registrou meros dois projetos no currículo. Ele, em pessoa, festeja por esses dias a vitória acachapante do aliado e expoente da ala centrista, Arthur Lira, cujo mandato foi garantido por liminar judicial após condenações em processos por improbidade administrativa e corrupção ativa. Quem te viu, quem te vê, capitão? O novo todo poderoso da Câmara, “chapa” do inquilino do Planalto, ainda responde a uma penca de acusações, inclusive por violência doméstica contra a mulher. E é com ele, fundamentalmente, que o capitão genocida e belicista resolveu lotear o poder. A favor dele e do estafeta do Senado, Rodrigo Pacheco, Bolsonaro montou o balcão para regatear preços e arrendou o próprio exercício da Presidência, que agora passa a ser pautada, diariamente, pelas vontades e orientações do Centrão. O mesmo Centrão contra o qual o ministro preferido, Augusto Heleno, fazia bazófias, cantarolando em público: “se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão!”. Hoje os “ladrões”, descritos na música, estão aboletados do lado direito e esquerdo do Messias do cerrado, em uma aliança espúria que visa fundamentalmente e tão somente garantir as eleições de 2022.

Manter o cargo, o poder e a direção do País — e assim proteger filhos e apaniguados enquanto safa-se de responder pelos desmandos praticados — é o projeto de vida do mandatário, fartamente exposto desde que assumiu e passou a desmantelar tudo que via pela frente — da Educação à Saúde — com uma maestria incomparável. A bordo do posto, ele tomou gosto pela ideia de emplacar não apenas a abjeta pauta de costumes, armar a população e promover a impunidade por infrações de trânsito e quetais. Messias tenta mais, dentro de um desenho de gestão totalitária. Fará o que for possível. Entregará os ministérios, criará outros, arrendará a máquina, enquanto o povo que se vire. Em tempo: lembra aquela promessa de diminuir ministérios? Aquela fala indignada de campanha, reclamando que os cargos no poder eram criados e entregues para aparelhar o sistema? Pois é. Ele agora faz tudo isso e muito mais. De uma Esplanada com meras 15 pastas — “vou criar uma estrutura enxuta” —, logo se multiplicaram para 22. Depois 23. E podem surgir, como regateio de ocasião, mais três ministérios, além, claro, de milhares de postos extras para azeitar o funcionamento das repartições que brotam como capim. Está faltando dinheiro para o Auxílio Emergencial, para o Bolsa Família, para a Educação e até para a compra de oxigênio na pasta da Saúde. Mas os R$ 3 bilhões de emendas “extras” para agradar os bolsos já recheados dos senhores parlamentares, esses são investimentos essenciais e intocáveis. Em que País estamos vivendo? Como aceitar um governo desses, na sua ignóbil sanha por humilhar, fazer pouco caso e desprezar as necessidades reais dos brasileiros? Quem ainda pode dar sustentação e apoio a um personagem com tamanha desfaçatez, sem virar cúmplice dos malfeitos por omissão ou incentivo? O governo Bolsonaro é a peste pandêmica que se alastra como um vírus, contaminando ideias, estragando princípios e cegando a verdade de uma Nação já tão castigada. Precisamos urgentemente encontrar uma vacina para os sintomas e efeitos dessa praga. Os adoradores fanáticos da patifaria, como falanges do mal, servem a seu senhor numa maquinação diabólica. Aplaudem e incentivam qualquer atitude, mentira ou mesmo evidente estelionato de promessas do capitão. São eles coniventes com o caos, a ideologia oportunista e ajudam a arrebanhar e a catequizar cordeiros para a seita que destrói o próprio rebanho de hospedeiros e aos demais. O Brasil não merece seguir assim, nessa alienação em massa que agora também toma conta do Congresso, manipula setores da Justiça, e trabalha para apagar as investigações da Polícia e de fiscais da Receita, em prol de manter a lama de esquemas e desvios dos preferidos do Messias. O antigoverno, com o Congresso cooptado, almeja impor não uma agenda construtiva, de reformas estruturais e ajustes econômicos, mas, sim, sequestrar direitos e jogar para debaixo do tapete deveres que precisava assumir e despreza, no sobranceiro atrevimento de quem se imagina impune.


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