A resposta que Bolsonaro merece

Crédito: Pedro Ladeira

(Crédito: Pedro Ladeira)

A carta-resposta do almirante da reserva, Antônio Barra Torres, reagindo em nome da Anvisa às afrontas do presidente Bolsonaro – que insinuou, levianamente, interesses escusos da entidade na defesa da vacinação infantil -, lavou a alma de um Brasil inteiro. O mandatário não se emenda. É absolutamente deplorável que um chefe de nação, desde o início, em meio a maior crise sanitária que o mundo já enfrentou, trabalhe abertamente contra a imunização, de todas as formas e em qualquer ocasião. Já no começo da pandemia, ao protagonizar uma campanha de descaso falando em “gripezinha”, Bolsonaro deu o tom da aversão que acalentava contra os desígnios da ciência. Ele não aceitar se vacinar e propagar os falsos trunfos de uma droga fajuta, a cloroquina que em nada ajudava no combate à doença, foram os menores dos males. Bolsonaro, diretamente, tratou de sabotar o programa de imunização. Postergou o quanto pôde as negociações para a compra das vacinas. Fez propaganda negativa de seus efeitos. Da ridícula alegação de que todos virariam jacaré até a ilação, criminosa e mentirosa, de supostos efeitos para o aumento de casos de Aids e mortes súbitas, ele não parou de se exceder no teatro de absurdos. Bolsonaro foi o próprio arauto do apocalipse profanando os resultados da única alternativa capaz de livrar a população do drama da Covid-19. Ainda há poucos dias ele criticava o que chamou de “tara” dos brasileiros por vacina. Reclamou mais uma vez da “pressa” sobre o assunto. Exultou – isso mesmo – a chegada da variante “Ômicron”, dizendo que ela era muito “bem-vinda” ao Brasil. No atacado e no varejo tripudiou sobre a quantidade de mortes infantis, tratando os mais de 300 casos como insignificantes. E foi capaz até de desafiar: “eu não tenho conhecimento de uma morte de criança por Covid, a mim não chegou nenhuma notícia”. O presidente mente, como sempre. Emula conclusões sem qualquer embasamento. Sem qualquer lógica, vai trabalhando assim contra o próprio projeto de reeleição. Afinal, pesquisas mostram que ao menos 70% dos entrevistados discordam do discurso antivacina. Mais de oito em cada dez brasileiros querem e vão imunizar seus filhos. A postura negacionista de Messias não o ajuda. Ao contrário, lhe atrapalha – salvo em algumas restritas patotas de adoradores convictos. No momento em que uma retomada virulenta de casos é verificada, ele repisa a cantilena do caos. Diz que haverá uma rebelião se o “lockdown” for novamente decretado. É o mesmo que falou ainda nos primórdios de 2020, quando o País experimentava a escalada da Covid-19. Bolsonaro não sabe o que diz, nem é mais levado a sério nas bobagens trombeteadas. Quando impelido a se justificar, como exigiu o militar Barra Torres, fica calado ou reclama da dureza no tratamento. Logo ele, que recorre ao tom autoritário a cada situação em que é contrariado. Por equívocos e abusos que tiraram a paciência da maioria, Bolsonaro passou a receber seguidos alertas e enquadramentos da caserna. A condescendência dos militares teve um basta. Não apenas o almirante Barra Torres vem respondendo à altura aos destemperos do presidente. O general Joaquim Silva e Luna, no comando da estatal Petrobras, faz o mesmo e o desautoriza a cada declaração atravessada contra a política de preços dos combustíveis. O movimento fardado em resistência ao presidente está tomando vulto. Quando ele reclamou da deliberação do Exército sobre exigir vacinação dos soldados recebeu um recado para conter o devaneio e recuou. Desde o Sete de Setembro, quando imaginou ser capaz de executar um golpe, malfadado, para moderar as instituições democráticas, percebeu que não conta, como esperava, com a adesão incondicional das Forças Armadas aos seus anseios. Bolsonaro está pequeno. Cada vez mais diminuído na projeção e representatividade. Domesticado por militares que não desejam servir de esteio a suas loucuras, ele radicalizou nos últimos tempos para garantir ao menos o apoio dos seguidores habituais. Não logrará êxito maior por esse caminho. Pregar contra a vacinação, por exemplo, além de distanciá-lo da realidade, o isola na redoma dos irresponsáveis. Faltam ao Messias compostura, prumo e capacidade para seguir no cargo que ocupa. Passou tempo demais comandando sem condições. Talvez por isso vadiou tanto, seja no jet ski, dançando funk ou passeando em parques de diversões — porque apenas dessa maneira pode chamar alguma atenção para a sua figura patética, de resto tão abominável.


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