PANDEMIA * 2020

A República triunfou

Luiz Henrique Mandetta tornou-se o pivô da maior crise já enfrentada pelo governo Bolsonaro. O presidente tentou demiti-lo na segunda-feira, 6. Mas, ao invés de sair, ele recebeu o apoio do Congresso, do Judiciário, do núcleo militar do Planalto e dos principais ministros. Num cordão de isolamento histórico que redesenhou o quadro político em Brasília, saiu fortalecido e o presidente perdeu ainda mais a sustentabilidade.

Crédito:  Pedro Ladeira

EU FICO Mandetta é recebido com aplausos pelos funcionários do Ministério da Saúde depois de reafirmar para Jair Bolsonaro sua orientação pró-isolamento (Crédito: Pedro Ladeira)

APOIO Servidores do Ministério da Saúde promoveram na segunda-feira, 6, ato de apoio a Mandetta, que tinha limpado as gavetas (Crédito:Jorge William/AgÍncia O Globo)

Jair Bolsonaro sofreu uma derrota histórica na semana em que decidiu demitir Mandetta, que vinha sendo atacado pelo gabinete do ódio e por militantes como Olavo de Carvalho. Para ele, os auxiliares não devem ser escolhidos por “por critérios técnicos”, mas sim ideológicos. Chamou-o de “Punhetta”. Além das desavenças sobre a importância do isolamento e do uso de medicamentos sem eficácia comprovada, um motivo miúdo atiçou o presidente. Ele estava incomodado com o protagonismo crescente do subordinado. No sábado, ficou irritado com um vídeo gravado do ministro, transmitido em um show virtual de artistas sertanejos, que teve mais de 3 milhões de espectadores. Os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, haviam recusado um convite para se encontrar com ele, e preferiram se reunir com Mandetta para lhe prestar solidariedade. No domingo, na saída do Palácio do Alvorada, Bolsonaro conversou com apoiadores religiosos. Disse que integrantes do seu governo “viraram estrelas” e que a hora deles “vai chegar”. Afirmou que não tinha medo de “usar a caneta”. No dia seguinte, anunciou a aliados que iria demitir o ministro. Sem a presença de Mandetta, reuniu-se com o deputado Osmar Terra, que deseja o posto do ministro, Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e os generais Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

“Todos estamos seguindo a orientação do Mandetta. É melhor respeitar a ciência do que fritar o ministro da Saúde” Rodrigo Maia, presidente da Câmara (Crédito:Divulgação)

Participou desse encontro a imunologista Nise Yamaguchi, também cotada para assumir o Ministério. Ela era defendida pelos militares, que tentavam encontrar um nome viável para se contrapor à popularidade de Mandetta. Com mais de 40 anos de experiência, Nise é médica do Hospital Albert Einstein e atuou em várias áreas da saúde. Mais importante, é entusiasta do uso da cloroquina, apesar de não ser reconhecida pelos pares como uma autoridade capaz de estabelecer um novo protocolo. Ao longo do dia, Bolsonaro comunicou a interlocutores a sua intenção, o que vazou e causou reações imediatas. As redes sociais dispararam e o País prendeu a respiração, em apoio ao titular da Saúde e contra o gesto intempestivo de Jair Bolsonaro. Políticos e empresários se mobilizaram e os panelaços começaram no meio da tarde.

Alcolumbre e Maia deixaram claro que o Congresso não aceitaria a exoneração nem uma mudança na orientação do Ministério da Saúde. Alcolumbre ligou para os ministros Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Onyx Lorenzoni (Cidadania) e avisou que a relação com o Parlamento se complicaria. Não se limitou aos recados. Anunciou que “o Congresso defenderá até o fim a permanência de Mandetta na Saúde, pelo bem do país”. Maia afirmou que a Câmara não aceitaria nenhuma medida contra as normas da OMS. “Todos nós estamos seguindo a orientação do ministro da Saúde”, disse. Além de uma advertência contra a mexida no Ministério, já antecipou que os parlamentares derrubariam o decreto cogitado pelo presidente para flexibilizar a quarentena. O ministro Gilmar Mendes, do STF, foi incisivo. “Tenho dúvida se algum tribunal vai validar decisão do governo federal que contrarie orientações da OMS. Acho que nenhum juiz do STF vai validar esse entendimento”, disse. Afirmou ainda que Mandetta tem desempenhado um trabalho importante de coordenação com estados e municípios. O presidente do STF, Dias Toffoli, também entrou em campo. Avisou ao Planalto que a demissão seria mal recebida pela Corte. Ele já tinha defendido as medidas de isolamento e apoiado a ação do Ministério da Saúde.

“O Congresso defenderá até o fim a permanência de Mandetta, pelo bem do País. Não é possível o governo cogitar tirá-lo” Davi Alcolumbre, presidente do Senado (Crédito:Divulgação)

Reunião tensa

Enquanto os outros Poderes se moviam pela sua permanência, Mandetta se preparava para deixar o cargo. Devia participar de uma reunião agendada pelo presidente para tratar da pandemia com ministros, o vice Hamilton Mourão e os presidentes de bancos públicos. Pouco antes, os funcionários do Ministério já tinham recebido a orientação de limpar as gavetas do ministro, que ainda improvisou um discurso de despedida — disse ter a consciência tranquila pelo trabalho que realizou. Em solidariedade, os principais auxiliares haviam decidido se demitir. Quando o ministro chegou ao Planalto, o seu destino era incerto. Ao mesmo tempo, no Ministério, os servidores desceram do prédio para um ato de apoio. A reunião no Planalto foi tensa, e Mandetta reafirmou sua posição. “O senhor quer tocar de outro jeito, pode tocar. Pois vamos passar num desfiladeiro. Como o senhor quer passar: acelerado ou devagar?”, disse Mandetta ao presidente. Também afirmou: “A questão não é se vou ficar. É quando você vai ter condições para me tirar. E quando vou ter condições para sair”. Ao final, foi encaminhado a um encontro no próprio Planalto com Nilse e o anestesiologista Luciano Dias Azevedo, ligado ao grupo bolsonarista Docentes pela Liberdade. O objetivo era convencê-lo a assinar um decreto referendado a cloroquina — ele recusou. Nesse momento, o presidente já tinha sido convencido a recuar. A batalha tinha terminado, Mandetta tinha vencido. O ministro voltou para o Ministério e foi recebido pelos funcionários com aplausos. No final do dia que balançou a República, fez um pronunciamento à imprensa reafirmando sua posição. Foi uma resposta dura a Bolsonaro, ainda que não o citasse. Disse que a população deveria continuar a seguir a orientação dos governadores (desafetos do presidente), que as críticas (de bolsonaristas, obviamente) traziam dificuldades para o seu trabalho e que o País ainda não estava preparado para uma escalada no número de pacientes (o principal argumento para o isolamento). Terminou citando uma alegoria filosófica de Platão, o Mito da Caverna, que trata da ignorância e do conhecimento — um óbvio recado ao mandatário.

Ministro com novo status

SEPARADOS Mandetta (à dir.) disse para Bolsonaro: “Vamos passar num desfiladeiro. Como o senhor quer passar? Acelerado ou devagar?” (Crédito:Ueslei Marcelino)
Ueslei Marcelino

Mandetta saiu do episódio fortalecido. Conquistou em 24 horas quase 100 mil seguidores nas redes sociais. Com a popularidade em alta e comandando a maior batalha que o País enfrenta em muitos anos, ele pode ambicionar um novo curso para a carreira política se não ceder à ação irresponsável de Bolsonaro — até sonhar com a Presidência. Será algo bem maior do que a prefeitura de Campo Grande (MS), que ambicionava, ou a Secretaria da Saúde de Goiás, oferecida pelo seu colega do DEM, o governador Ronaldo Caiado. Mandetta protagonizou uma reviravolta. Médico ortopedista de perfil discreto, teve uma atuação apagada em seu primeiro ano no Ministério, depois de dois mandatos como deputado federal.

Para o Planalto, as implicações são grandes. O desfecho da disputa não foi marcado pela atuação dos bombeiros palacianos, que conseguiram demover Bolsonaro da demissão. O mais significativo foi o apequenamento do presidente, que passou a se dobrar a mais um ministro “indemissível” — categoria em que já estavam Sergio Moro, da Justiça, e Paulo Guedes, da Economia. “Falta tinta” na caneta do presidente, para usar sua metáfora. Os militares já haviam advertido Bolsonaro que tirar Mandetta agravaria a crise sanitária e econômica e poderia ter consequências imprevisíveis. A mais óbvia é abrir espaço para um processo de impeachment. O risco para Bolsonaro é enorme, pois conta com um apoio mínimo no Congresso. Por essa razão, tem se dedicado nos últimos dias a refazer pontes com o Parlamento. Procurou nomes do Centrão, o que sempre havia rechaçado. Reuniu-se com o presidente do PP, o senador Ciro Nogueira, e o presidente do Republicanos, Marcos Pereira.

EM AÇÃO O presidente do STF, Dias Toffoli, avisou ao Planalto que a demissão seria mal recebida pela Corte (Crédito:Divulgação)

Onyx e terra contra Mandetta

Bolsonaro não deve conseguir retomar a iniciativa política na crise. Por um cálculo político, luta praticamente solitário contra o isolamento. Sabe que a economia em seu mandato não deve se recuperar. Os governadores, ao contrário, estão ganhando apoio popular com medidas enérgicas. Pelo menos 20 decidiram prorrogar a quarentena recomendada pelo Ministério da Saúde. Em mais uma derrota para o presidente, o ministro do STF Alexandre de Morais determinou na quarta-feira, 8, que eles têm autonomia para isso independentemente do governo federal. Os que chegaram a prometer flexibilização das medidas voltaram atrás. Bolsonaro ainda quer demitir Mandetta. A conspiração para removê-lo ainda acontecia na quinta-feira, 9, quando Onyx Lorenzoni e Osmar Terra foram flagrados pela CNN em um diálogo articulando a sua demissão. A conversa durou 14 minutos. O ministro Onyx defende a demissão de Mandetta. “Se eu estivesse na cadeira (de Bolsonaro)… eu não teria segurado, eu teria cortado a cabeça dele…” Terra, que deseja o lugar do ministro da Saúde, responde: “ele se acha”. E propõe ajudar Onyx a derrubar Mandetta. “Eu ajudo Onyx. E não precisa ser eu o ministro. Tem muita gente que pode ser”. Mas o mandatário sabe que não tem força para isso sem arriscar sua permanência no Planalto. Numa situação inédita na história republicana, seu governo passou a ser tutelado por militares e quadros técnicos mais preparados do que ele. Bolsonaro precisará se resignar ao novo papel. “Não se esqueçam de que eu sou o presidente”, já disse em referência à firmeza do ministro. Se precisa reafirmar seu poder, é porque lhe falta autoridade.

O novo homem forte do Planalto

A crise fez surgir um novo homem forte no governo: o general Walter Souza Braga Netto. O ministro-chefe da Casa Civil assumiu a coordenação das ações oficiais sobre o coronavírus em meio à confusão instaurada pelas ações intempestivas do presidente. Foi escalado para conduzir as coletivas diárias no Planalto, onde intervém e orienta as falas dos entrevistados. Com isso, lidera na prática os outros membros do governo e diminui a visibilidade de Luiz Henrique Mandetta. Braga Netto adquiriu esse papel por sua ação decisiva. Foi uma voz fundamental para convencer o presidente a recuar na demissão do ministro da Saúde e a diminuir o tom beligerante em seus pronunciamentos. Moderou o confronto com os governadores. Como resultado, evitou a derrocada do chefe, pelo menos no momento. Passou a ter ascendência sobre os colegas, articulando as diversas áreas do governo — algo que o antigo titular da Pasta, Onyx Lorenzoni, nunca conseguiu fazer.

GOVERNANÇA Braga Netto teve papel crucial para segurar Mandetta e atenuar os ataques do presidente (Crédito:Ricardo Moraes)

A função de gerente do governo é apropriada para o militar mineiro, que em 40 anos na Exército e já exibiu habilidade em situações adversas. Foi interventor na área de segurança pública no Rio de Janeiro em 2018, indicado pelo ex-presidente Michel Temer. Durão e discreto, ele foge dos holofotes, mas está se sentido à vontade no novo papel. É atualmente o militar mais próximo de Bolsonaro, posto que no início do governo era do general Augusto Heleno. Ascendeu depois que o general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) passou a ser criticado pelo presidente no acordo frustrado com o Congresso para o Orçamento Participativo. Desde a sua atuação no Rio, Braga Netto também passou a ter bom trânsito com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, algo conveniente com o isolamento do mandatário.

O novo papel já trouxe desgastes. Alguns militares da reserva e sites passaram a exaltá-lo como o novo “interventor”, “presidente operacional do Brasil” e “chefe do Estado-Maior do Planalto”. Correram rumores de que ele seria o nome escolhido por uma Junta Militar para assumir o comando do País. A enciclopédia virtual Wikipédia chegou a ser adulterada para apontá-lo como o 39º presidente — uma informação depois corrigida. Alimentadas por teorias conspiratórias, as milícias digitais lideradas pelo filho do presidente, Carlos, passaram a atacá-lo. O vice-presidente, Hamilton Mourão, também virou alvo — e foi ao Twitter defender a lealdade e a atuação dos militares usando a imagem da união dos paraquedistas, que “andam unidos sempre no mesmo passo”. Mourão nega que o colega esteja tutelando o presidente. Diz que Braga Netto está realizando a verdadeira governança do governo. “É o homem certo, no lugar certo, na hora certa.” De fato, o novo homem forte no Planalto assumiu sua função por ação do próprio Bolsonaro: pela sua debilidade no cargo.

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