PANDEMIA * 2020

A reação da sociedade

Independentemente do governo, empresas, associações e clubes de futebol se organizam para tentar bloquear o avanço do coronavirus em todo o País, criando uma grande teia de proteção social

Crédito: Marcelo D. Sants

Hospital de Campanha do Pacaembu (Crédito: Marcelo D. Sants)

Marcelo Chello/CJPress/

Enquanto o governo brasileiro se recusa a admitir a seriedade da crise de saúde mundial sem precedentes que vivemos, uma grande reação começa a surgir em toda a sociedade para evitar um possível colapso, tanto do sistema de saúde como da economia. Fabricantes de várias áreas se unem para produzir o tão essencial álcool gel, doações surgem de todas as partes e até estádios de futebol já começam a receber estruturas metálicas e lona para hospedar casos de menor complexidade, tornando-se um grande hospital de campanha. Neste momento, condutas individuais podem ser até mais importantes para conter a peste do que ações do governo.

“Cada vez mais estamos percebendo que temos de nos posicionar e ir além do futebol, como agora no caso do avanço do coronavírus” Guilherme Bellintani, do Bahia (Crédito:Tiago Caldas)

“Cada vez mais estamos percebendo que temos de nos posicionar e ir além do futebol, como agora no caso do avanço do coronavírus”, afirma o presidente do Esporte Clube Bahia, Guilherme Bellintani. Segundo ele, desde que o time se mudou para um novo Centro de Treinamento, em janeiro deste ano, o antigo CT estava fechado. Mas como estava em perfeito estado o local foi aprovado para receber um hospital provisório montado pelo governo para receber doentes menos graves. Além do Bahia, outros clubes do futebol brasileiro colocaram suas estruturas à disposição das autoridades para ajudar as vítimas do novo coronavírus. No Estado de São Paulo, Santos, São Paulo e Corinthians também disponibilizaram seus centros de treinamentos, estádios e clubes sociais.

Na capital paulista, nos próximos dias a rede de saúde da cidade ganhará um reforço de 2 mil leitos para o atendimento de casos diagnosticados com o vírus. No Pacaembu, serão montados 200 leitos e no Pavilhão de Exposições do Anhembi outros 1.800 leitos. Os hospitais emergenciais montados pela prefeitura têm previsão de começar a funcionar gradativamente a partir da próxima quarta-feira, dia 1º de abril.

As estruturas custaram R$ 35 milhões e terão o trabalho de aproximadamente 2,5 mil profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais. Cerca de 2 mil deles serão direcionados ao Anhembi e outros 550 ao Pacaembu, segundo a prefeitura. Isso ajudará a liberar os hospitais para atendimento dos casos mais graves. Outra iniciativa, que conta com o patrocínio da Ambev, da Gerdau e do Hospital Albert Einstein, é a instalação de 100 novos leitos em um anexo ao Hospital M’Boi Mirim, na zona sul da cidade, para o atendimento exclusivo de pacientes da Covid-19. A meta é entregar 40 leitos em 20 dias e os outros 60, em 40 dias.

“Estamos usando as nossas redes sociais para divulgar vídeos com jogadores e artistas, todos com forte apelo popular, falando sobre a prevenção da doença e incentivando a população a ficar em casa”, explica Bellintani. O clube baiano ainda mantém um carro de som que passa por locais mais pobres, alertando sobre os riscos da Covid-19 aos mais pobres. “A população tem de colaborar e o futebol tem um apelo popular grande entre vários grupos. Vamos continuar programando novas ações de comunicação nas próximas semanas”, acrescenta o dirigente.

A situação crítica também levou a incorporadora e construtora Mitre Realty a agir. Com o fechamento dos showrooms imobiliários, a empresa viu seus corretores limitados e as vendas ameaçadas. Mas a empresa decidiu oferecer uma verba fixa de R$ 400 para que os corretores, que só ganham por comissão sobre as vendas efetivadas, pudessem pelo menos fazer compras de alimentos. “Além disso, desde 2019 estamos investindo em soluções virtuais para elevar vendas que estão sendo muito úteis agora, com o uso de aplicativos, como o WhatsApp, para contato com clientes e até uma ferramenta de visita virtual aos imóveis à venda. Com isso, conseguimos, de alguma maneira, manter os corretores ativos enquanto o isolamento durar”, explica, o diretor comercial da Mitre, Henrique Moreno.

Outra empresa que decidiu ir além do home office com seus empregados durante a quarentena é a Dotz. A empresa resolveu estender a validade dos pontos dos usuários de seus programas de fidelidade, que não vão expirar enquanto durar este período. Segundo o CEO e Co-Fundador da Dotz, Roberto Chade, foi criada até uma nova categoria de produtos para troca de pontos chamada de “fique em casa”, onde o usuário tem sugestões de brinquedos, aparelhos de ginástica e outros produtos para utilizar no tempo mais livre. “Ainda na quarta-feira 25, lançamos uma campanha para ajudar hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde), onde as pessoas poderão doar seus pontos para ajudar a evitar o colapso do sistema de saúde. A campanha já está sendo feita junto a todos os canais dos 40 milhões de usuários no Brasil, em parceria com os clientes do Banco do Brasil e Caixa”, explica o executivo.

M’BOI MIRIM Ambev, Gerdau e Albert Einstein se uniram para erguer um centro médico com 100 leitos na periferia de São Paulo (Crédito:Divulgação)

Trabalho participativo

Segundo Chade, a empresa inteira está em home office e toda a rotina foi adaptada pelo pessoal de recursos humanos para que a gestão à distância fosse tão eficiente quanto a presencial. “Para nossa surpresa a produtividade está sendo maior e há um sentimento forte em todos de que estamos fazendo um trabalho mais participativo”, acrescenta. Uma série de outros exemplos de ajuda solidária se acumulam por todo o País desde a última semana. Uma das primeiras a anunciar ajuda foi a cervejaria Ambev, que está produzindo álcool em gel para distribuir aos hospitais públicos municipais de Brasília, e dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Inicialmente, a produção será de 500 mil garrafas para doar às unidades de saúde do SUS.

“Para nossa surpresa, a produtividade está sendo maior e há um sentimento forte em todos de que estamos fazendo um trabalho mais participativo” Roberto Chade, CEO da Dotz (Crédito:Regis Filho/Valor )

As usinas associadas à União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) irão doar um milhão de litros de álcool para a produção de álcool gel e álcool 70%. Também a fabricante de cosméticos Boticário doará 1,7 toneladas do produto em Curitiba, no Paraná. Já a produtora de detergentes Ypê anunciou a doação de 21 toneladas de sabão em barra para moradores da favela de Paraisópolis, em São Paulo. O volume, equivalente a 100 mil barras do produto, é suficiente para atender todas as famílias da comunidade por dois meses. A população de Paraisópolis é de cerca de 100 mil pessoas. O plano da companhia é fazer o mesmo em outras comunidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na comunidade do Alemão, serão entregues 25 toneladas do produto, o equivalente a mais de 125 mil unidades. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) vai distribuir 1.200 caixas d’água para moradores de Paraisópolis que ainda não tenham o reservatório no seu imóvel.

No Ceará, a Diageo, dona de marcas como Johnnie Walker e Tanqueray, anunciou que irá doar 100 mil frascos de álcool 70% — o equivalente a 50 mil litros — para a rede pública de saúde do estado. A produção será feita na fábrica da marca de cachaça Ypióca, em Fortaleza. Já no sul do País, a fabricante de artigos escolares Mercur decidiu paralisar totalmente suas operações, mas manteve a remuneração e auxílios de 600 colaboradores, enquanto muitas indústrias no Rio Grande do Sul já pensam em demissões.

ANHEMBI Hospital de campanha no maior centro de convenções de São Paulo terá 1,8 mil leitos para pacientes do coronavírus

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