A raiva de Bolsonaro

Crédito: Pedro Ladeira

(Crédito: Pedro Ladeira)

Bolsonaro está com raiva! De todo mundo. Da Anvisa por liberar vacinas às crianças, em mais um esforço de proteger a população — algo inaceitável no abecedário de resistência surreal do capitão. Está com raiva do Iphan, que incomodou um de seus amigos diletos, o empresário Luciano Hang, do Grupo Havan, com restrições a obras capazes de destruir cerâmicas históricas, autêntico patrimônio nacional. Está com raiva do INPE, do Coaf, dos indígenas, da Amazônia, dos chineses, do Supremo, da comunidade LGBT, da esquerda, que ganha terreno, da direita, que não o defende como ele deseja, do centro, que atrapalha seus planos; do povo em geral. E destila seu ódio para todo o lado, embrenhando-se em uma insana contraofensiva de retaliações. Para ameaçar à Anvisa, anunciou tornar público o nome dos técnicos que tiveram a “insolência” de autorizar a imunização infantil. A máquina bolsonarista, atendendo ao chamado do chefe, logo entrou em ação e passou a intimidar os funcionários da Agência, reeditando movimentos sombrios dos regimes de exceção. PF e PGR tiveram de intervir para garantir a segurança física dos perseguidos. Em resposta à petulância do Iphan, Bolsonaro jactou-se de mandar embora os responsáveis da autarquia que embargaram o projeto de Hang. A represália do mandatário gerou consequências na Justiça Federal, que determinou a saída imediata do cargo da diretora-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por inépcia na gestão. O Messias dos trópicos ainda pensa que pode tudo e não aceita ser contrariado. Deve estar convencido de que virou soberano absoluto ou procura impor essa realidade sem cabimento à democracia brasileira. Bolsonaro, na verdade, alimenta muita raiva, sobretudo devido à surra monumental que vem sofrendo nas pesquisas diante do arquirrival dos grotões, o demiurgo de Garanhuns e ex-presidiário, Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje o derruba com um só golpe certeiro (do dobro de votos) e o coloca no chão, fora do cargo, talvez ainda no primeiro turno. Bolsonaro quer descontar em todo mundo o medo de uma iminente e fragorosa derrota eleitoral — algo cada dia mais palpável e dramático para um mandatário considerado, por quase 50% dos entrevistados, como o pior presidente da história. No momento, Bolsonaro perde de qualquer um que dispute com ele em um eventual segundo turno. Tem a maior rejeição (mais de 65%) dentre os postulantes e, enquanto ainda goza das benesses do poder, vai procurando arrotar valentia a torto e a direito. Não aceita, não tolera, a ideia da avalanche de revezes nos seus desmandos totalitários. Sobrou até para a Suprema Corte, novamente na mira do capitão por analisar a não aceitação do marco temporal. Revoltado, com ódio mesmo, de levar nova rasteira, disse que tomará “providências sérias” e que entrará em campo, botando para quebrar, caso os magistrados barrem a medida. Não detalhou exatamente como fará isso, mas deixou no ar o tom de coação. Bolsonaro está disposto a ir às últimas consequências para alterar a todo custo o marco temporal em terras indígenas, permitindo, dessa maneira, o avanço da garimpagem, dos ruralistas e da grilagem. Ao estabelecer uma espécie de linha de corte nas demarcações, freia direitos indígenas seculares. Ele não tolera a possibilidade do STF atrapalhar a sua estratégia, mesmo com base em fundamentos constitucionais. Quer impor suas vontades à revelia do previsto em lei. Parece mesmo não ter limites a ignorância crônica do inquilino do Planalto. Espécie de fanfarrão do mal, com a popularidade derretendo dia a dia, ele resolveu despir a fantasia e a máscara de bom moço para revelar a faceta mais tenebrosa de seus pendores arbitrários. Não tem alcançado melhores pontos com isso. Também pudera. Até a vacina ele considera “porcaria”, como classificou um “zé mané” no esgoto das redes digitais, e o mandatário (por incrível que pareça) achou por bem repassar adiante, compartilhando a “abalizada” desinformação no seu universo de canais online. E aí reside a insustentável dúvida: como pode um chefe de Estado, nos dias de hoje, ser capaz de endossar e respaldar tamanha estultice? O sujeito alegou até chances de morte pelo imunizante. E Bolsonaro achou ok, avalizou. O mandatário também enxerga fantasmas de perseguição por onde passa. Mesmo a Polícia Federal, que ele tentou controlar trocando quadros, mandando embora quem o contrariava, teve a pachorra – imagine só! – de acusá-lo de atuar de forma “direta e relevante” para desinformar sobre o sistema eleitoral.

Como é possível? O Messias quase não acreditou quando viu. Reclamou a interlocutores sobre a “traição”. Logo a PF, onde acreditava mandar e desmandar, lhe aplicou mais essa manobra. É para ficar com muita raiva mesmo. Gradativamente o cerco se fecha. Não há quem tolere tanta demência. A não ser os colaboradores mais próximos que, por indulgência, idolatria ou cegueira irreversível corroboram suas insanidades. A interferência do presidente na Anvisa, por exemplo, não é apenas ilegal como criminosa. Ele fez confissão de público do ato e, por mais surpreendente que possa parecer, parte expressiva da elite nacional resolveu aplaudí-lo em cerimônia na Fiesp quando ele contou o episódio. Suas investidas sorrateiras e antidemocráticas contra instituições são ainda toleradas, sem represálias, consagrando uma era de infâmia. Há quase três anos Bolsonaro vai promovendo a destruição generalizada de fundamentos basilares da civilidade. E alguns ainda acham pouco. O sumidouro de vidas e o avanço da miséria, do desemprego e da inflação não aparecem como meros detalhes da cruzada em curso rumo à terra arrasada. Representam obras de um atraso sem precedentes. Nesses dias de retrocesso, até o ministro Paulo Guedes decidiu exercer outro diminuto papel de arrivista e mandou às favas o FMI. Pediu para que a entidade batesse em retirada do Brasil. E foi prontamente atendido. Escritório fechado e especialistas arrumando a mala para sumir de vez daqui. Na vizinha Venezuela, muitos assistiram ao então caudilho Hugo Chávez fazendo o mesmo, expulsando uma a uma instituições internacionais. Deu no que deu. O Brasil de Bolsonaro constrói o mesmo caminho, de maneira calculada e milimétrica, não há dúvida. Ele e suas falanges estão com raiva da realidade, das derrotas em série, do próprio fracasso. Raiva daqueles que apontam as falhas e desvios de um desgoverno sem reparo. Queriam montar a baderna autoritária por essas bandas sob a complacência do capital. Mas, com fábricas fechando, o mercado encolhendo, os consumidores na miséria e o lucro se esvaindo, o projeto foi para o beleléu. E Bolsonaro não gostou. O delírio rudimentar das igrejinhas ideológicas e setoriais, levadas por esses salvadores da pátria e por seus gabinetes do ódio, está com os dias contados. Para desespero do “mito”, que apenas sobrevive em meio ao binarismo idiota e à guerra tribal e banal de extremistas — de lado a lado condenados à extinção e ao esquecimento. Pode anotar. Afinal, o Brasil merece mais que a muvuca dos loucos.


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