Cultura

A rainha sádica do cangaço

Biografia de Maria Bonita revela como primeira-dama de Lampião ajudou a capturar, torturar e decapitar mulheres

Crédito: Divulgação

EXOTISMO Maria, cães e Lampião com uma “Noite Ilustrada”. Retrato de 1936 faria parte de um filme patrocinado pela alemã Bayer, com espaço para um comercial de comprimidos por Lampião, mas material foi apreendido pela censura (Crédito: Divulgação)

Imprensa, rádio, cinema e poemas de cordel espalharam o mito romântico de Maria Bonita como a Joana d’Arc da Caatinga, heroína destemida que cavalgou ao lado do cangaceiro Lampião para combater o despotismo dos coronéis e do governo. Intelectuais de esquerda e feministas viram nela precursora da liberdade sexual e símbolo da redenção do povo oprimido. Houve ainda os que denunciaram nas práticas do casal o que de pior o banditismo rural já perpetrou. Estes últimos parecem ter sido mais fiéis à condição de Maria Bonita e outras mulheres que seguiram as falanges de cangaceiros e aterrorizaram o Nordeste entre 1930 e 1940. Se muitas eram estupradas quando crianças e forçadas a entrar no crime, Maria virou cangaceira por convicção. É o que demonstra a jornalista Adriana Negreiros no livro “Maria Bonita — Sexo, violência e mulheres no cangaço” (Companhia das Letras). Ela sustenta que a primeira-dama de Lampião foi produto da selvageria e das superstições reinantes no sertão. A novidade é assestar o cangaço do ponto de vista das mulheres. A autora queria saber por que as narrativas das cangaceiras foram desacreditadas pelos historiadores. “Concluí que se trata da mesma lógica que, até hoje, insiste em transformar vítimas em culpadas”, diz à ISTOÉ.

CANGACEIRAS Integrantes do bando de Lampião: Nenê, Maria Jovina e Durvinha. (Crédito:Divulgação)

Maria foi chamada de Maria Bonita depois de morta. Os jornais consagraram o codinome, ou por analogia ao romance “Maria Bonita” (1914), de Afrânio Peixoto, ou porque os soldados que a mataram a apelidaram assim, espantados com sua beleza. Em vida, era Maria de Déa, filha de Déa e nascida em 17 de janeiro de 1910 em Malhada da Caiçara, norte da Bahia. Com 15 anos, a menina de 1,56 metro, pálida, faladora e dona de uma gargalhada que irritava sua rival Dadá, mulher de Corisco. Descasou-se aos 18 anos e espalhou que sonhava seguir Lampião.

Adília e Sila, integrantes do bando de Lampião (Crédito:Divulgação)

Execuções

Maria Filismina, marcada em brasa pelo ferrador de mulher Zé Baiano com as iniciais “JB” (Crédito:Divulgação)

“Maria foi uma transgressora”, afirma Adriana. “Em pleno sertão do Nordeste dos anos 30, largou o marido, com quem era infeliz, para acompanhar o fora-da-lei mais procurado do Brasil. O esperado de uma mulher insatisfeita com o esposo mulherengo era que se conformasse com a situação. Nesse aspecto, foi uma mulher ‘empoderada’.”

Com o poder adquirido em janeiro de 1930, quando se tornou a primeira-dama do “Rei do Cangaço”, mostrou-se logo conivente com os estupros coletivos, rituais de sangramento, marcação a brasa e assassinatos praticados pelo bando. Costumava arrancar as joias das mulheres capturadas para ferir lóbulos e pescoços. Aprovava que as comparsas adúlteras fossem torturadas e decapitadas. Às vezes os ajudava. “Não se opunha às execuções de mulheres por traição”, diz Adriana. “Chegava até a incentivá-las, como se deu quando Cristina foi morta por suspeita de trair Português.”

“Maria era dona de si, não dava bola para o que diziam dela, mas não era uma feminista” Adriana Negreiros, jornalista
Mas sabia ser clemente. Em 1936, Lampião condenara à morte vinte escoteiros venezuelanos liderados pelo chefe Andrés Zambranos. Maria vistoriava os condenados, amarrados a árvores, quando se deparou com o corpo totalmente nu de Zambranos. “Menino, você é bem bonitinho!”, disse-lhe com um sorriso. Foi ter com o marido e o convenceu a libertar os garotos. Maria declarava que queria virar uma celebridade excêntrica. Tinha 28 anos em 28 de julho de 1938, quando foi capturada e morta com o bando na grota do Angico, em Sergipe. Seu martírio se revelou diferente do de Joana d’Arc na fogueira. Diz a lenda que foi decapitada enquanto tentava convencer o “macaco” (soldado) de que merecia viver. Com a cabeça separada do corpo, continuou a tagarelar por um milésimo de segundo.