A queda do turismo de negócios e o nomadismo digital

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“Sobrevivi a mais uma reunião que poderia ter sido um e-mail.” A famosa expressão que virou meme e até estampa de camisetas em e-commerces conhecidos já caiu em desuso, virando coisa do passado. Ponte aérea, bate e volta, trânsito por conta de reuniões presenciais parecem estar por um fio. São 13 meses trabalhando em casa e o fim do isolamento social possivelmente não significará o total fim do home office para várias empresas estrangeiras e nacionais. E, se nem o trabalho presencial voltará a ser como antes, o que será então dos congressos, feiras e eventos corporativos?

De acordo com o Ministério do Turismo, a receita gerada em 2019 (pré-pandemia) por visitantes estrangeiros que vêm ao Brasil a negócios é 33,4% maior que para viagens a lazer. Foram mais de R$ 11,3 bilhões arrecadados com a venda de produtos e serviços a turistas do ramo. Um tremendo desfalque para o setor. Imaginem que hoje 93% da população mundial vive em países que adotaram algum tipo de medida de restrição de viagem e três bilhões de pessoas ao redor do mundo vivem em países que fecharam totalmente suas fronteiras para estrangeiros. A pandemia causada pelo coronavírus obrigou milhões de pessoas a fazer à distância, o que sempre fizeram face a face.

Ficam-se os e-mails, calls, vídeo-conferências e vão-se os voos (que aliás, representavam a maior parcela de venda sob bilhetes mais caros), as hospedagens e todo um setor que sobrevivia e movimentava o mundo das viagens corporativas. O impacto no turismo de negócios, dizimado desde o aparecimento da Covid-19, é de difícil reversão. Até porque, grandes empresas do mundo inteiro como o Twitter, a XP, a Ambev, Petrobrás, Johnson & Johnson e LafargeHolcim já se convenceram de que essa migração na rotina de trabalho realmente funciona, cada uma com sua própria estratégia. Algumas inclusive já estenderam o trabalho remoto até o fim do ano e outras já decidiram migrar de vez para o formato a distância e há aquelas que planejam voltar à medida que a crise sanitária melhorar, mas com flexibilização, possibilitando ao trabalhador ficar ou não em casa. É claro que ainda existem esperanças e uma grande expectativa em relação a congressos e convenções.

Segundo Priscila Dommit, diretora comercial do Grupo Royal Palm Hotels & Resorts, que recebeu cerca de 1500 eventos só no ano de 2019, a tendência para os eventos corporativos mudou: “Os eventos darão preferência por hospedagens individuais. A questão da higiene e saúde na operação, principalmente na área de A&B, é um ponto de atenção a partir de agora e irá além dos protocolos de álcool em gel, uso de máscaras e distanciamento social, como por exemplo embalagens individuais de itens de coffee break ou de uso único de cada participante. Acreditamos que os eventos passarão a criar mais relação, mais conexão e mais vínculo entre quem promove e quem participa. Para as empresas que adotaram o home office, por exemplo, os eventos passarão a ter uma importância maior como plataforma de integração.” diz Priscila, que calculou uma queda de 68% desde o início da pandemia. “Estamos atravessando um momento difícil e encontrando novas alternativas de negócio, priorizando ações ao ar livre, implantando ações específicas com os nossos restaurantes e eventos sociais de pequeno porte como reuniões de família. Para o segundo semestre, vamos continuar investindo nestas frentes, e acreditamos que os eventos corporativos voltarão aos poucos, porém com público estimado em mais de 2.000 participantes como eram antes, apenas em 2022.”

Por outro lado, a plataforma de locação de casas de temporada Airbnb nunca faturou tanto no aluguel de cabanas e casas escondidas em meio a natureza como em 2020. Em sua página principal, por exemplo, criaram listas de casas ao estilo rústico (mas com um belo sinal de wi-fi, claro) com preços altos e longos períodos. Cidades como Gonçalves, Santo Antônio do Pinhal, São Bento do Sapucaí e São Francisco Xavier na Serra da Mantiqueira dificilmente possuem casas disponíveis para locação, e assim seguem com os demais cantos isolados do país.

O Nomadismo digital e o perfil do novo turismo

O nomadismo digital une turismo, trabalho remoto e conectividade e não é uma tendência que surgiu com a pandemia. Inclusive uma estatística de 2019 que foi divulgada pela FlexJobs (uma grande plataforma online de vagas de emprego para freelancer) mostrou que entre os anos de 2005 e 2017 houve um aumento de 159% no número de trabalhadores remotos nos Estados Unidos. Como dizem os Millennials: “Meu destino é o onde o wi-fi está”. O perfil do novo viajante com certeza mudará. Considerando a tendência do ser “nômade digital” e a possibilidade do home office se tornar uma realidade próxima, é possível que aquele modelo de turista que segue a jornada sonhar – planejar – comprar e experimentar muda e pula um degrau.

Talvez eles se tornem mais imediatistas, com a necessidade de se sentirem emocionalmente ligados ao destino e neste caso, o valor para turismo de paisagem e natureza continuará a aumentar. Revitalizar o setor do turismo através de uma adaptação a uma possível tendência mundial, parece ser o desafio do setor, unido a uma questão maior ainda: Como fazer isso de uma forma sustentável?


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