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A quadrilha desmascarada

Flávio Bolsonaro era o chefe de uma organização criminosa que praticou lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita, segundo denúncia do MP-RJ. O esquema desviou R$ 6 milhões. O uso suspeito de dinheiro vivo é frequente na família do presidente desde os anos 1990. Para proteger o clã, o mandatário interfere em órgãos de Estado e tenta desarmar o combate à corrupção.

Crédito: Hermes de Paula

EPICENTRO Fachada da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: gabinete de Flávio Bolsonaro tinha 12 funcionários fantasmas (Crédito: Hermes de Paula)

DE PAI PARA FILHO MP diz que Flávio usou funcionários fantasmas. Presidente também teria usado quando deputado (Crédito:Divulgação)

No maior golpe sofrido pelo clã Bolsonaro até o momento, o Ministério Público do Rio de Janeiro destrinchou em detalhes acachapantes a organização criminosa chefiada pelo senador Flávio Bolsonaro que desviou recursos públicos na Assembleia Legislativa fluminense. Na prática, colocou a nu um esquema construído ao longo dos anos, com táticas que foram passadas de pai para filho. Segundo o MP, Flávio Bolsonaro usou parte do salário de seus ex-funcionários da Alerj em benefício próprio. A “rachadinha” era praticada em seu antigo gabinete no legislativo fluminense, onde exerceu o mandato entre 2003 e 2019. Composta por mais de 300 páginas, a denúncia apresentada à Justiça no dia 3 aponta que o casal Flávio e Fernanda Bolsonaro adquiriu dois apartamentos pagando em espécie R$ 638 mil. Os promotores ressaltam a predileção pela operação com imóveis e o uso sistemático de dinheiro vivo — na esfera criminal, um indício de lavagem de dinheiro. Demonstram ainda a desproporção entre a evolução patrimonial do senador e suas fontes de renda, sinal de enriquecimento ilícito. Além deles, outras 15 pessoas foram denunciadas à Justiça. O atual chefe de gabinete de Flávio no Senado, Miguel Ângelo Braga Grillo, teve papel determinante. As investigações se arrastaram por dois anos e ganharam peso quando a ex-assessora Luiza Sousa Paes, passou a colaborar com a Justiça e contou que era obrigada a devolver mais de 90% do salário que recebia na Alerj para Fabrício Queiroz, operador do esquema — também denunciado. Foram desviados R$ 6 milhões por meio de 12 funcionários fantasmas.

EQUIPE Flávio Bolsonaro com cabos eleitorais na campanha de 2018, antes de Fabrício Queiroz (à dir.) submergir (Crédito:Divulgação)

Queiroz é “Homem de Jair”

Queiroz, mais uma vez, se prova um personagem central. É o homem-bomba, talvez o único capaz de implodir a família Bolsonaro como um todo. Foi “importado” por Flávio para a falcatrua da Alerj, mas sua ligação primordial é com presidente. Queiroz e Bolsonaro são amigos há mais de 40 anos, quando se conheceram no Exército. Pescam juntos, compartilham churrascadas e agem unidos na defesa do grupo. Por essa razão, fala-se nos bastidores em Brasília que Queiroz é um “homem do Jair”. O MP-RJ não pode investigar o mandatário, mas há indícios que o envolvem. É o caso da filha de Queiroz, a personal trainer Nathália Queiroz. A quebra do seu sigilo bancário, autorizada pela Justiça, mostrou que ela transferiu mais de R$ 150 mil para a conta do pai enquanto estava empregada no gabinete de Bolsonaro na Câmara, durante o último mandato que ele exerceu antes de assumir a Presidência. A dinâmica de repasses entre Queiroz e a filha no gabinete de Bolsonaro, portanto, foi a mesma que abasteceu as contas pessoais do filho do presidente.

Quando era funcionária de Flávio, Nathália repassou ao menos 82% de seus vencimentos para Queiroz, segundo o MP-RJ. O ex-PM instaurou no gabinete da Alerj uma mistura explosiva que envolve família, milícias e desvio de recursos. Ela explicaria fatos revelados nos últimos dois anos e que demandam uma manifestação plausível do presidente, ainda que não façam parte da denúncia apresentada pelo MP. Como, por exemplo, o motivo pelo qual Queiroz e sua mulher teriam depositado R$ 89 mil nas contas da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Também no círculo familiar, Rogéria Nantes Nunes Braga, ex-mulher do presidente e mãe de Carlos, Flávio e Eduardo, comprou em 1996, com dinheiro vivo, um apartamento no Rio por um valor equivalente hoje a R$ 621,5 mil. A segunda ex-mulher, Ana Cristina Valle, comprou 14 imóveis, parte deles em dinheiro vivo, enquanto foi casada com ele. Nove parentes dela tiveram seus sigilos quebrados no caso de Flávio, e as apurações mostraram que sacaram, em média, 84% dos seus salários. Para os promotores, devolviam parte dos seus proventos para Flávio.

NO STF Indicado por Flávio Bolsonaro para o STF, o ministro Kassio Nunes Marques julgará ação que questiona o foro privilegiado do senador no caso da rachadinha (Crédito:GABRIELA BILO)

As quebras de sigilo de quatro funcionários de Flávio ainda apontam para um possível esquema ligado a Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio (os dois irmãos trocavam assessores ao longo de seus mandatos). Eles também sacavam integralmente seus salários em espécie quando trabalharam com o “filho 02”, revelando o mesmo modus operandi. Outro componente que deixa a história dos Bolsonaros ainda mais digna de uma rocambulesca novela policial é o envolvimento do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, chefe da mais antiga milícia do Rio, o Escritório do Crime, responsável por dezenas de homicídios. Fugitivo, ele foi morto em fevereiro último em Esplanada (BA), ao ser alvo de operação das PMs baiana e fluminense. A investigação apontou que foi morto ao resistir à prisão, mas o caso despertou a suspeita de execução. A mãe e a ex-mulher do miliciano também foram denunciadas no esquema, e o MP aponta que ele também participava do esquema. Era outro nome ligado a Queiroz, mas também aos Bolsonaros. Em 2005, enquanto estava preso por um homicídio, Adriano foi condecorado pelo filho do presidente na Alerj. E o presidente já disse que foi o mentor dessa homenagem. Além de Nóbrega, Flávio também esteve ligado a dois milicianos no Rio: os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira. Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, a Val Meliga, que era lotada no seu gabinete da Alerj. Ela era tão merecedora da confiança do então deputado estadual que ele entregou a ela a responsabilidade pelas contas da sua campanha ao Senado. Val Meliga assinou cheques em seu nome, como mostrou a ISTOÉ em fevereiro de 2019. É uma das pontas de um intrincado novelo que uniu fragilidades que fustigaram o filho do presidente e seu partido na época, o PSL: além do envolvimento com milícias, o uso de laranjas e expedientes na campanha para fazer retornar aos integrantes do partido o dinheiro do fundo partidário.

Desde 2018, as investigações só aumentam a gravidade do esquema. Na reta final das eleições presidenciais, antes do escândalo estourar, um delegado da PF teria alertado Flávio sobre as investigações. Foi então que Queiroz foi demitido e submergiu, até ser encontrado pela polícia escondido numa casa de Frederick Wassef (SP), ex-advogado de Flávio e do pai. Queiroz é peça-chave para explicar o esquema de rachadinha e como esse dinheiro teria sido lavado pela família Bolsonaro, além de ser a pessoa capaz de ligar o presidente ao caso. Isso explicaria o fato de ele ter sido protegido por um defensor da família. Aí a trama revelou esse novo personagem. Wassef era frequentador do Palácio do Planalto. Entre abril do ano passado e junho deste ano, esteve em 11 oportunidades no Planalto fora da agenda oficial. Sua ex-mulher, Cristina Boner, com quem ainda tem ligação, é dona da Globalweb Outsorcing. Em setembro, o TCU abriu um processo para apurar se a companhia foi beneficiada no governo de Bolsonaro. Só esse ano, ela recebeu R$ 218 milhões. A empresa faz repasses constantes ao advogado.

LIGAÇÕES Ex-funcionária de confiança e irmã de milicianos, Val Meliga assinava cheques em nome de Flávio Bolsonaro (Crédito:Divulgação)

PGR investiga interferência

Tudo isso não configura apenas um escabroso enredo policial. Há perigosas repercussões institucionais em jogo. Desde que se elegeu, Bolsonaro age para impedir que essa teia de malfeitos seja apurada. Logo nos primeiros meses de governo, ele entrou em atrito com o então ministro Sergio Moro porque desejava interferir na PF fluminense — há uma investigação contra o presidente por causa disso. Depois da saída de Moro, o presidente fez mudanças importantes em cargos da PF na tentativa de mitigar as investigações que cercam a família. As investigações do Coaf foram paralisadas por cinco meses em 2019 pelo ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, a pedido de Flávio. O plenário da corte reverteu a decisão, mas o órgão foi novamente atingido. Bolsonaro trocou seu presidente e o transferiu para o BC por meio de uma medida provisória, mudando seu nome. Flávio também tentou usar outros órgãos do governo para barrar as investigações. Por causa disso, a PGR abriu uma ação na quinta-feira, 19, para apurar uma reunião do senador com o ministro do GSI, general Augusto Heleno, e o diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, que teria o objetivo de produzir provas em favor do filho do presidente. A ideia era encontrar falhas no procedimento da Receita Federal que detectou a rachadinha.

Nomes de confiança do presidente também estão sendo acomodados em órgãos de controle e no Judiciário. Ainda que essas indicações sejam legais, mostram uma perturbadora ação envolvendo instituições que deveriam zelar pelo combate ao crime. O senador Major Olímpio revelou que foi pressionado pelo mandatário e pelo próprio Flávio para retirar o endosso à CPI da Lava Toga, que investigaria malfeitos no Judiciário. Jorge Oliveira, amigo da família Bolsonaro, vai assumir como ministro do TCU. Seu pai, o militar Jorge Francisco, foi chefe de gabinete na Câmara e amigo de Bolsonaro por décadas. O ministro recém-empossado do STF Kassio Nunes Marques foi indicado à corte pelo próprio Flávio. Caberá a ele decidir sobre o benefício que o atual senador conseguiu ao tirar da primeira instância o caso da rachadinha, alegando ter direito ao foro privilegiado.

DEFENSOR Frederick Wassef frequentou o Planalto e escondeu Fabrício Queiroz (Crédito:Bruno Santos)

Não é só na ocupação de cargos estratégicos que o presidente age. Cada vez que as investigações avançam, ele lança cortinas de fumaça e provoca crises. A prioridade de sua gestão é blindar o clã. Mesmo com sua interferência, a marcha das investigações não deve ser interrompida. Má notícia para o filho 01. Se a denúncia for aceita pela Justiça, todos os denunciados vão se tornar réus e as penas podem chegar a 12 anos de prisão. Flávio pode perder o cargo de senador. Há ainda apurações em andamento: sobre mais envolvidos na rachadinha, sobre a lavagem de dinheiro na sua loja de chocolates e sobre sua evolução patrimonial. Tudo isso representa um pesadelo para o presidente. Com o agravamento da pandemia, o fim do auxílio emergencial e a crise fiscal explodindo, terá ainda de lidar com o escândalo que promete implodir sua imagem que foi ligada acidentalmente no passado à Lava Jato.

Vem cá, Luiza
Testemunha-chave do escândalo da rachadinha, a auxiliar Luiza Sousa Paes deu o caminho das pedras do esquemão de Flávio Bolsonaro

Funcionária fantasma de Flávio Bolsonaro, Luiza  Sousa Paes narrou ao MP como repassou a maior parte do seu salário para Fabrício Queiroz: foramR$ 155 mil em cinco anos. Ela ficava com menos de 20% dos seus vencimentos. Também transferia a maior parte da remuneração enquanto foi realocada na TV Alerj e em departamento ligado à presidência da Alerj. Ao ser investigada pelo MP-RJ, teve diálogos com o pai gravados:

“Caraca! Tu viu alguma parte do Jornal Hoje? Bateu direto naquele negócio do Queiroz. Direto isso, a foto dele estampada no Jornal Hoje. Agora deu ruim”.

Durante as diligências, ela foi chamada por Frederick Wassef e orientada a não prestar depoimento:

“Oi, pai. Parece que faltou algum ponto que não está assinado. Só que eu não lembro de ter assinado algum ponto, entendeu?

Eles querem pegar 1 ‘bucha’ que é para ver se desentoca alguma coisa”Seu pai demonstrou preocupação:

“Contanto que te tire disso e esqueça isso de uma vez e a gente possa viver nossa vida normalmente. Ele que invente as estórias dele lá”

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