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A presença do Exército nas eleições brasileiras

Crédito: AFP/Arquivos

Um capitão da reserva lidera as pesquisas, um comandante do Exército que emite opiniões políticas: os militares raramente têm estado muito presentes no debate político brasileiro a menos de um mês de eleições particularmente incertas.

A quantidade de candidatos com origem nas Forças Armadas à presidência e aos governos estaduais quase duplicou em relação ao pleito anterior, passando de 13 para 25, segundo o jornal Estado de São Paulo.

Esta nova situação desafia um país que ainda carrega o estigma da ditadura militar (1965-1984).

“Após a ditadura, os militares permaneceram muito tempo na defensiva, mas agora estão mais visíveis”, afirma Nelson Düring, diretor do site especializado Defesanet.

Jair Bolsonaro, favorito nas pesquisas para o primeiro turno, no dia 7 de outubro, com frequência manifesta sua simpatia pelos chamados “anos de chumbo” no Brasil.

Não é uma coincidência que tenha eleito como companheiro de chapa um general da reserva, Hamilton Mourão, outra figura polêmica, e que prometa designar seis generais para o futuro gabinete.

Há um ano, o general Mourão ocupou as manchetes dos jornais ao afirmar que se a situação política continuasse se degradando, o Exército seria obrigado a “impor uma solução”.

Mourão está na linha de frente da campanha após Bolsonaro ser esfaqueado em um ato em Juiz de Fora, o que o deixará afastado das ruas ao menos até o final do primeiro turno.

– “Imprudência fardada” –

O ataque a Bolsonaro levou o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, a entrar no debate eleitoral.

Em entrevista ao Estado de São Paulo, Villas Boas avaliou que o clima de “intolerância generalizada” poderia, inclusive, “questionar a legitimidade do próximo governo”.

O general qualificou ainda de “tentativa de intromissão” o fato de a ONU solicitar a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições, apesar de estar impedido pela lei.

Em um editorial intitulado “Imprudência fardada”, a Folha de São Paulo advertiu na terça-feira que as “declarações confusas não contribuem para apaziguar” a situação.

Ciro Gomes, que ocupa a segunda posição nas pesquisas, declarou ao O Globo que se estivesse na presidência colocaria Villas Boas “em cana”.

– “Via democrática” –

Para David Fleischer, professor de ciências políticas da Universidade de Brasília, o comentário só ocorreu “porque o comandante em chefe, que é o presidente (Michel) Temer, agora é um ‘pato manco’, está no final de mandato e não tem governabilidade”.

Sergio Praça, professor da Fundação Getúlio Vargas, “existe um desgaste imenso do setor politico”. “Nos últimos 30 ou 40 anos, não lembro de uma crise de legitimidade de um sistema político tão imensa. Então é natural que alguns olhem para fora do sistema partidário normal em busca de novos representantes e existe o discurso de que os militares são menos corruptos e que é preciso trazer ordem, paz e segurança…”.

Parte da população se mostra favorável a uma “intervenção militar”, mas Praça não acredita na possibilidade de um novo golpe de Estado.

“Estamos muito distantes da situação de 1964. Hoje, os militares se envolvem na política por meios democráticos”.