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A política da morte

O governo dá seguidas mostras de falta de compaixão e de responsabilidade. As mortes se acumulam e já chegam perto de 210 mil no País, mas o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, continuam brincando com a vida das pessoas e boicotando a vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan. Todos os passos do governo são para trás e as manobras de Pazuello visam, até agora, retardar o processo e tentam dinamitar a promissora iniciativa do estado de São Paulo. Essa política destrutiva já inibiu várias medidas que poderiam minimizar o sofrimento da população e agora ganha um novo ingrediente: a conversão da campanha de vacinação nacional em uma jogada de marketing. Desesperado e confuso, Pazuello montou uma encenação para importar a vacina da AstraZeneca/Oxford da Índia e começar um atabalhoado plano de vacinação ainda nesta semana. Em vez de salvar vidas, Pazuello esteve em Manaus na última terça-feira, para obrigar os médicos locais a receitarem a cloroquina. O principal disparate que o ministro disse, em tom militar, é que a vacinação será iniciada no “Dia D, na hora H”.

Crédito: Divulgação

Pazuello tenta convencer médicos de Manaus a usar cloroquina no tratamento preventivo da Covid-19 (Crédito: Divulgação)

LUTO Mortes disparam em Manaus depois das festas de fim de ano: falta de ação do Ministério da Saúde tem um efeito genocida (Crédito:EDMAR BARROS)

Com pelo menos um mês de atraso no lançamento de uma campanha nacional – mundo afora mais de 30 milhões de pessoas foram vacinadas, segundo levantamento feito pelo portal Our World In Data, da Universidade de Oxford, o governo Bolsonaro ainda patina para colocar um plano em prática, demora para comprar seringas e agulhas (Pazuello não tem ideia do estoque de insumos para a campanha e mandou informações erradas ao STF) e se dedica insistentemente a boicotar a Coronavac, que nesta semana teve a taxa de eficácia divulgada: 50,38%, considerada boa, com potência suficiente para tirar o Brasil da pandemia, e dentro dos padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Imunizantes usados amplamente e com sucesso, como o do rotavírus e da gripe têm taxa semelhante. Além disso, a Coronavac é um produto disponível. O Instituto Butantan, que divide o desenvolvimento do imunizante com o laboratório chinês Sinovac, já tem um estoque de 12 milhões de doses, suficiente para sustentar a aplicação de 600 mil doses diárias durante 18 dias. Mas Bolsonaro prefere ficar no fim da fila mundial das vacinas, despreza essa iniciativa e põe o seu ministro para promover a cloroquina. Pazuello, que obedece o presidente caninamente, sempre tem alguma ressalva contra a Coronavac nas raras ideias que balbucia. Bolsonaro informou seus apoiadores na frente do Palácio do Planalto que pediu para que o ministro fosse para Manaus. “Mandamos ontem o nosso ministro para lá. Estava um caos. Não faziam o tratamento precoce”, disse. E acrescentou que Pazuello “interferiu” para resolver a situação.

POLITIZAÇÃO O presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, atua para atender os interesses do presidente: perseguição à Coronavac (Crédito: Pedro Ladeira)

Em um País desgovernado, onde o presidente e seus ministros são negacionistas, o início da campanha federal de vacinação virou um foco de incerteza e ansiedade. A principal esperança ainda vem de São Paulo, onde o governo João Doria estabeleceu o próximo dia 25, aniversário da cidade, para disparar a imunização. Já o governo Bolsonaro, numa reação marota para tirar o pioneirismo da Coronavac e de Doria, seu adversário político, passou a divulgar que iniciará a campanha na próxima semana para colher os louros da glória sanitária. Na quarta-feira 13, o Ministério da Saúde enviou um avião da companhia Azul para Mumbai, na Índia, para trazer dois milhões de doses de vacinas da AstraZeneca/Oxford, que chegarão ao Brasil e passarão a ser aplicadas a partir do dia 20, segundo informa o governo. No dia 19, Pazuello terá uma reunião com governadores, que estava marcada para o dia 11 e havia sido cancelada por causa da viagem para Manaus, para discutir o plano nacional. Bolsonaro montou uma operação de marketing e aproveitará a ocasião para aparecer na foto ao lado dos dois primeiros vacinados do País, um idoso e um profissional de saúde.

NEGACIONISMO Manifestantes em Minas Gerais pedem o fim do isolamento: bolsonaristas radicais duvidam da pandemia (Crédito:Alex de Jesus)

Entrave na Anvisa

Tudo depende, porém, do aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cuja diretoria colegiada se reunirá, domingo 17, para decidir se aprova o uso emergencial da Coronavac e da AstraZeneca/Oxford, produzida no País pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Da Anvisa, nas últimas semanas, chegam sinais contraditórios e um forte viés de politização, verificado no claro esforço protelatório em relação à aprovação da Coronavac. Embora o presidente da agência, almirante Antônio Barra Torres, tenha ficado em silêncio nos últimos dias, já se sabe que se trata de um aliado incondicional do presidente, que pode substituir avaliações técnicas por interesses obscuros e tentar ganhar mais alguns dias para atrapalhar o ciclo virtuoso da Coronavac. Para médicos e estudiosos envolvidos com o assunto, será impossível para a agência descartar a vacina do Butantan com base em argumentos técnicos. Seria uma decisão escandalosa, já que ela atende os requisitos de segurança sanitária e de eficácia para um imunizante. Diante disso, os cientistas pedem o início imediato de sua aplicação. Outros países que também serviram de base de testes para a Coronavac, como a Indonésia e a Turquia, iniciaram suas campanhas. “Nós esperamos que a Anvisa aprove o uso emergencial das vacinas e tenha sua consagração ética e científica”, diz o secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn. “Precisamos deixar claro que não há uma corrida entre vacinas no Brasil. Todas que forem aprovadas precisam ser usadas”.

ESPERANÇA O Butantan trabalha a todo vapor na produção da vacina: 12 milhões de doses estocadas e tudo pronto para o início da campanha paulista (Crédito:Marco Ankosqui)

A diretoria colegiada da Anvisa é formada por cinco diretores, incluindo Barra Torres, mas atualmente está com quatro. Bolsonaro indicou para a quinta vaga o tenente-coronel Jorge Luiz Kormann, cujo nome ainda precisa ser aprovado pelo Senado. Seu interesse claro é aparelhar a agência e deixá-la mais maleável aos seus objetivos políticos e morais. O painel de acompanhamento da aprovação emergencial de vacinas informava, quarta-feira 13, que, no caso da Coronavac, faltava apresentar 5,47% dos documentos exigidos e outros 37,64% estavam pendentes de complementação. No caso da vacina da AstraZeneca/Oxford, a Fiocruz apresentou a totalidade dos documentos necessário para liberar o uso emergencial: 14,44% da documentação ainda está pendente de complementação e outros 53,17% estão em análise. O Instituto Butantan informou, quinta-feira 14, que concluiu a entrega de toda a documentação exigida para a análise do pedido de uso emergencial. Mas o painel da Anvisa informava que a agência ainda aguarda que o Butantan complemente 33,7% dos dados enviados.

Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, diante de uma taxa de eficácia superior a 50% é importante acelerar a vacinação e alcançar o maior número de pessoas, 90% da população, para se atingir a imunidade de rebanho. “Essa discussão é importante e 50% é uma boa taxa de eficácia”, afirma. “Minha única ressalva é que o Butantan deveria ter divulgado os dados completos de eficácia de uma só vez e não por etapas, como fez”. Segundo Vecina, taxas de eficácia diferentes, estabelecidas em ensaios clínicos em vários países, como aconteceu com a Coronavac no Brasil, na Indonésia e na Turquia, não são algo ruim, já que as condições para a realização dos testes, os métodos e os públicos testados são distintos. “Agora só há duas possibilidades: ou a Anvisa pede mais documentos ou aprova o uso emergencial da vacina. Se até domingo, eles não pedirem nada para o Butantan, é porque vão aprovar”, disse. Segundo ele, nesta altura, a politização da vacina tende a desaparecer, por conta da concentração de esforços na campanha de vacinação. Caso a Coronavac não seja aprovada, o governo paulista pretende ir à Justiça para fazer valer seu esforço de vacinação.


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Segundo a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, a discussão sobre a taxa de eficácia da Coronavac é um desserviço. “Essa discussão ganhou importância porque é um governo que não age e deixa as pessoas confusas”, afirma. “O que precisamos cobrar é que a população comece a receber as vacinas disponíveis”. Ela explica que o objetivo é vacinar o máximo de pessoas possível e o Brasil tem estrutura e capacidade para aplicar 5 milhões de doses por dia. Como a vacina está dentro dos parâmetros de eficácia estabelecidos pela OMS, Margareth diz que isso não será um impedimento para sua aprovação. O mais importante é a segurança que a Coronavac mostrou e a ausência de efeitos colaterais nos voluntários que tomaram a vacina nos ensaios clínicos. “O que o Butantan está fazendo é algo extremamente bom e politizar o resultado dos testes é outro desserviço. Os brasileiros precisam agora de uma mensagem de confiança”, afirmou a pneumologista.

Os dados completos da taxa de eficácia da Coronavac no Brasil indicam que 100% dos imunizados não evoluirão para casos graves. Certificou-se também que 78% dos que tomam a vacina e contraem a doença terão, no máximo, sintomas leves, e 22% precisarão de tratamento médico. Já 50,38% ficam imunizados e livres da doença. Bolsonaro e sua turma evidentemente utilizaram esse número para tripudiar com a Coronavac. “Essa de 50% é uma boa?”, perguntou Bolsonaro diante de seus apoiadores no Palácio do Alvorada. O grupo respondeu: “Não”. E o presidente prosseguiu. “O que eu apanhei por causa disso, agora estão vendo a verdade. Passei quatro meses apanhando por causa da vacina. Entre eu e a vacina tem a Anvisa. Eu não sou irresponsável, não estou a fim de agradar quem quer que seja”, afirmou. Apesar disso, porém, Bolsonaro diz que a vacina do Butantã e qualquer outra serão compradas pelo governo federal “se passarem pela Anvisa”. O assessor de Bolsonaro Felipe G. Martins, discípulo do guru Olavo de Carvalho e notório negacionista foi outro que fez piada com a Coronavac, a qual chamou pelo Twitter de vacina “xing ling”. Segundo ele, “a vacina chinesa tem a imunização de cara e coroa”. O vexatório ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, foi mais longe no desrespeito, e perguntou: “Você se casaria com um homem com 50% de eficácia?”.

Taxa de eficácia

O diretor do Instituto Butantã, Dimas Covas, reforçou em entrevista coletiva concedida no Palácio dos Bandeirantes, terça-feira 12, que a vacina da Sinovac tem sido alvo de preconceito e de uma ação orquestrada para colocar o imunizante sob suspeita. “Nossa vacina foi duramente criticada por sua associação com a China, como se isso fosse um pecado e é uma virtude”, disse Covas. “Temos hoje uma das melhores vacinas do mundo, um imunizante capaz de diminuir o sofrimento das pessoas e que não exige condições especiais de transporte e armazenamento. Já o governador João Doria criticou Bolsonaro. “Lamentável a declaração do presidente sobre a vacina do Butantan. Ao invés de comemorar o fato do Brasil ter um imunizante seguro e eficaz para combater a pandemia, ele ironiza a vacina. Enquanto os brasileiros perdem a vida e o emprego, Bolsonaro brinca de ser presidente”, disse Doria para a ISTOÉ. “Atrasar a aprovação da vacina do Butantan é decretar a morte de milhares de brasileiros. O Brasil precisa dela para salvar vidas.”

“Atrasar a aprovação da vacina do Butantan é decretar a morte de milhares de brasileiros”, João Doria, governador (Crédito:ALEXANDRE SCHNEIDER)

O retardo na vacinação é parte de uma ação coordenada do governo. Um relatório anual divulgado quarta-feira pela organização internacional de direitos humanos Humans Rights Watch (HRW) considerou que Bolsonaro, desde o início da pandemia, tentou sabotar medidas de combate ao coronavírus. Segundo a HRV, a conduta de Bolsonaro ao longo da crise, suas tentativas de impedir o isolamento social, suas saídas sem máscara e seu esforço permanente para minimizar a doença, vem expondo a população brasileira a grandes riscos. Há, porém, uma reação institucional, destaca a ONG, que frustrou os esforços insanos do presidente. Desde que a discussão sobre a vacina começou, Bolsonaro e Pazuello fizeram sucessivas sabotagens para impedir que o processo avançasse. Sempre que pode, o governo tratou de questionar a eficácia da vacina e colocar impedimentos burocráticos adicionais para bloquear qualquer solução para o problema.

“Nós garantimos o substrato para que a decisão da Anvisa sobre a Coronavac seja ética e científica”
Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de SP

O governo dá seguidas mostras de irresponsabilidade e de falta de compaixão. As mortes se acumulam e já chegam a 210 mil no País, mas Bolsonaro continua brincando com a cloroquina e com a vida das pessoas. Todos os passos do governo Bolsonaro são para trás e as manobras de Pazuello visaram, até agora, retardar o processo e tenta dinamitar as iniciativas do governador Doria. A política destrutiva do governo já deixou para trás várias medidas que poderiam minimizar o sofrimento da população e agora vai transformar a vacinação em uma campanha de marketing. “Nós não precisamos de encenações, mas de ações”, disse o secretário. “Temos uma vacina esperando para ser usada num país onde morrem em torno de mil pessoas por dia, e que teria um grande impacto”. Bolsonaro já afirmou que não tomará vacina (alegando que todas são de uso experimental), mas vai fazer toda propaganda que puder para convencer a população de que ele fez alguma coisa. No atual cenário, o governo brasileiro se credencia como um dos mais estúpidos e inoperantes do mundo no combate à pandemia. Mesmo que a imunização começasse hoje, Pazuello estaria condenado ao lixo da história.

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