A política apolítica

Você já reparou naqueles globos cheios de bolinhas numeradas do sorteio da Mega-Sena?

O globo gira, as bolinhas se empurram para lá e para cá, desesperadas, até que uma é escolhida.

Daí para frente, nada acontece até o sorteio do próximo número.

Nosso sistema eleitoral não é muito diferente de um sorteio da Mega-Sena.

Conforme vai chegando a eleição, os candidatos começam a se debater e girar em círculos se ofendendo mutuamente, implorando para serem escolhidos.

Exatamente igual às bolinhas numeradas, tornam-se todos iguais aos olhos dos eleitores, que não fazem ideia de quem será o escolhido.

Nenhum Instituto de Pesquisa é capaz de prever qual será o próximo número do sorteio da Mega-Sena, assim como não sabem dizer qual candidato será vitorioso.

Como as bolinhas, depois de eleito o candidato não faz mais nada, não têm mais relevância, não melhora nossa condição de vida, não cumpre suas promessas, não faz nada de útil.

A única coisa que importa é o próximo sorteio, ou melhor, eleição, a qual vai movimentar novamente a política e nós, que apostamos na Mega-Sena da democracia, vamos nos iludir, na crença de que algo pode mudar.

Então, em algum ponto de 2022, o eleitorado brasileiro se deu conta desse fenômeno.

Acordaram para o fato de que a última mudança realmente importante para nosso País foi a criação do Real e que, de lá para cá, estamos apenas vendo as bolinhas políticas serem sorteadas.

Nossa política se tornou apenas uma sucessão de escândalos terminados em “ão”.

Mensalão, Petrolão, Vacinão e o País, que é bom, esquecidão.

Então, em maio de 2022, surgiu o movimento “Não Voto!”.

No começo, não foi levado a sério, afinal, apenas uma parcela da população aderiu.

E se apenas um punhado de brasileiros não votassem, o movimento fracassaria.

Mas como tudo no Brasil surpreende, o Não Voto! começou a ganhar força.

Sindicatos, Universidades e até alguns pajés da política nacional, começaram a apoiar a ideia.

– É a hora de zerar a nossa política e começar de novo! — disse um famoso Senador.

Em julho de 22, ao invés de pegar carona em outras manifestações, o #NaoVoto! teve sua primeira carreata em Brasília.

Num palanque montado diante do Congresso, líderes de diversos partidos e artistas clamaram pelo boicote às eleições.

Ao contrário das tradicionais manifestações, essa tinha apenas os favoráveis, milhões vestidos de branco, como combinado, sem conflito nenhum, o que acabou por atrair ainda mais brasileiros.

No dia 7 de setembro, o presidente, uma das poucas vozes contrárias ao movimento, tentou convencer da importância de se escolher o chefe de Estado, ele de preferência, mas seu governo foi a contradição viva de seu próprio argumento.

Naquele ano, a eleição registrou o menor número de candidatos da história.

Chegou dia 2 de outubro e as urnas registraram um número de votos exatamente igual ao número de candidatos. Só os candidatos votaram neles mesmos.

Pela primeira vez na história, uma eleição acabou empatada.

Na Mega-Sena da política o povo não ganha nunca. Esse é um fato irrefutável

Depois de muitas discussões no Congresso, inclusive com a presença do presidente do STE, esse também contrário à votação, decidiram por repetir o pleito.

E de novo empatou. E em uma terceira tentativa também nada mudou.

Não houve jeito. Ninguém foi eleito.

Os anos se passaram e o Executivo e Legislativo foram ficando vazios.

O brasileiro abdicou de ter representantes.

Qualquer problema que surgia, era resolvido localmente, como numa taba indígena.

Aos olhos do mundo, essa mudança foi vista com desconfiança, mas paradoxalmente, a economia prosperou como nunca.

Tanto que depois de algumas décadas, o movimento se espalhou pelo mundo.

A corrupção acabou.

A política virou assunto do passado.

O planeta precisou ser terra de ninguém para ser de todos.

E o ser humano, apolítico, foi finalmente feliz.


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