A polícia dominada por Bolsonaro

Crédito: Alan Santos/PR

(Crédito: Alan Santos/PR)

Um aspirante a déspota começa a se insinuar nesse sentido quando sai em sua busca incessante pelo controle e aparelhamento da máquina. Ele tenta, e faz de tudo, para submeter ao seu jugo instrumentos notórios de poder. Não apenas aqueles simbolicamente representativos, institucionais, mas também os que denotam capacidade de força física mesmo. Nessa categoria, nada mais eloquente que as unidades policiais e militares. São elas, invariavelmente, com o armamento pesado e o contingente de soldados que carregam – contados aos milhares, todos prontos a servir e a obedecer cegamente – o real retrato da relevância de um chefe de Estado e, de acordo com a maneira como conduz tamanho aparato, de seu pendor autoritário. Esse, à frente do comando da tropa, caso queira e tenha apoio incondicional, reuniria condições para exercer o tão desejado “prendo e arrebento” — mesmo à revelia da Lei e no sobranceiro atrevimento de passar por cima da Constituição. Não para menos, notórios ditadores ao redor do mundo sempre fizeram questão de exibir, majestosamente, aos adversários e curiosos seus pelotões e capacidade bélica. Seja para intimidar, conquistar respeito ou o temor alheio. No fundo, no fundo, ambicionam impor suas vontades a quem de necessário, exigindo obediência aos seus preceitos. É sabido, aqueles que rogam pelo modelo totalitário buscam empunhar publicamente a munição que possuem. Nada mais coercitivo e perigoso que um homem armado. A própria família Bolsonaro – que não perde a chance de sair em fotografias com armas em punho ou gestos insinuando o uso – até se jactou da condição de poder fechar o Congresso e o STF apenas com “um soldado e um cabo”. Imagine do que os Bolsonaro pensam ser capazes de fazer, subordinando aos seus ditames e desejos toda a força militar e policial disponível no País?

Jair Messias em pessoa quis testar a alternativa no último Sete de Setembro, quando enxergou (sabe-se lá como) a chance de realizar uma espécie de autogolpe. Não deu certo e ele recuou da pretensão. Antes havia colocado para desfilar em frente ao seu Palácio os tanques, militares e aviões de guerra, numa manobra típica de quem procurava sugerir respaldo da caserna. De uma maneira ou de outra, de forma estratégica e milimetricamente estudada, o capitão vem tecendo a costura de uma base aliada também nesse campo, procurando adesão às causas que professa. Para tanto, de um lado se esforça em conceder seguidos aumentos de salários e soldos à categoria. De outro, passou a perseguir o objetivo de desmontar a independência da PF. Para tanto, teve de mandar para casa um até então herói nacional, o juiz Sergio Moro, figura de exponencial projeção e respeito entre os brasileiros, destituindo-o da condição de ministro da Justiça. Bolsonaro queria alguém que não atravessasse seu caminho e o impedisse de um avanço indevido sobre delegados, investigadores, promotores — a estrutura legal inteira. A intenção maior, em resumo, era o absoluto controle da polícia para fazer o que bem entendesse e, fundamentalmente, livrar filhos, amigos e apaniguados de investigações incômodas. O presidente disse isso, de maneira clara, em uma já antológica reunião gravada e divulgada, na qual ameaçou demitir todo mundo que se colocasse à frente de seus interesses. “Aqui mando eu!”. E assim foi feito. Caíram Moro, o chefe da PF, a cúpula da Abin e, de lá para cá, o País está assistindo a um domínio sem precedentes desses setores por parte de um mandatário. Nada menos que 20 chefes do primeiro escalão foram trocados. Dias atrás, um afastamento deliberado de uma delegada de alta patente da Abin, que estava simplesmente fazendo o seu trabalho, deu mostras do grau de influência, controle e arbítrio do capitão na área. Georgia Renata Sanchez pediu a extradição do blogueiro e simpatizante bolsonarista, Allan dos Santos, e por conta disso foi simplesmente exonerada do comando da Assessoria Especial Internacional do Ministério da Justiça. Deslocada para evitar novos dissabores às vontades do soberano. O Brasil assistiu calado, resignado e, em alguns segmentos, até de maneira solidária a esse descalabro e demonstração de abuso do Messias. Na prática, as entidades de controle do Estado brasileiro vivem o auge da humilhação. Bolsonaro tomou conta da PF, do Coaf, da Receita, do STJ, do TCU. Está tudo dominado. Perigosamente sob sua tutela direta. Instituições vergadas aos pés do caudilho bananeiro. A polícia já não é mais a mesma, orientada a atender a qualquer demanda do chefe do Executivo. Ou obedece ou, quem contrariá-lo, cai fora. Do mesmo modo, alguns representantes da alta cúpula militar, que se submetem, para além dos preceitos constitucionais, aos caprichos do inquilino do Planalto. E fazem coro aos seus despautérios. Com as tropas nas mãos, o “mito” está mais confiante que nunca de que tem direito de fazer o que bem entende.


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