Comportamento

A obscura riqueza deixada por Franco

O ditador espanhol que se dizia desapegado das coisas materias alimentou-se de negociatas, envolvendo inclusive o Brasil

Crédito: MIGUEL RIOPA
PATRIMONIALISMO O ditador Francisco Franco e o Pazo de Meiras, na Galícia: o governo espanhol quer reaver o imóvel comprado com dinheiro público (Crédito:AFP PHOTO EPA/EFE/FILES)

Não é de hoje que o governo espanhol, liderado pelo primeiro-ministro de centro-esquerda Pedro Sánchez, vem tentando obter na Justiça uma ordem que autorize a exumação dos restos mortais do ex-ditador Francisco Franco. Os familiares de Franco opõem-se a essa iniciativa e estão conseguindo, sistematicamente e com sucesso, impedir que o corpo seja exumado. Na semana passada, a questão ganhou novos contornos e demonstrou-se que, quanto mais se discute o assunto, mais brotam publicamente negócios nebulosos que teriam sido feitos por Franco nos tempos em que comandou o país com a mão de ferro dos tiranos, entre 1936 e 1975, ano no qual faleceu. Ou seja: Franco, como todos os ditadores na história política da humanidade, teria se valido do obscurantismo em sua longa gestão para exercer com todas as letras o populismo e o patrimonialismo. Ele dizia-se desapegado das coisas materiais, dizia-se um modelo de temperamento espartano. Na terça-feira 16, quando Sánchez reivindicou que o palacete e a quinta do Pazo de Meiras, na região da Galícia, seja reincorporado ao patrimônio público, veio à tona que tal propriedade de cento e dez mil metros quadrados fora adquirida pelo ditador por meios ilícitos. Nas contas feitas pelo atual governo, Franco deixou uma herança estimada em seiscentos mil euros, atualmente em mãos de seus netos e netas.

O premiê Pedro Sánchez insiste na exumação do corpo de Franco e em sua retirada da basílica do Vale dos Caídos

A exumação de Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde Salgado-Araujo y Pardo de Lama é ponto de honra para o governo de Sánchez, principal líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Motivo: o cadáver, embalsamado, está sepultado no altar da basílica do Vale dos Caídos, que também abriga corpos de combatentes que se opunham a ele e morreram na Guerra Civil que o levou ao poder. Mais: em nenhum outro país democrático da Comunidade Europeia um ditador está enterrado em monumento nacional. No mês passado, o Tribunal Supremo reiterou que a exumação significa “profanar uma sepultura cristã”, depois que familiares impuseram condições para darem anuência ao desenterramento: o governo teria de organizar um novo velório, prestar honras miliares e sepultar o ex-caudilho na Catedral de Almudeña, vizinha ao Palácio Real. Claro que o PSOE considerou as exigências para além de descabidas e absurdas. Hoje, com certeza, a família deve estar bem arrependida de teimar em bloquear a exumação: tivesse ela ocorrido, e o provável é que a roupa suja da acusação de corrupção não teria surgido à luz do sol madrilenho. A neta mais renitente em manter os restos mortais do avô, onde já estão, é Carmen Martínez-Bordiú, herdeira da maior fatia da fortuna e apelidada por seus desafetos de “netíssima”, em uma referência ao avô que seu autoproclamou “generalíssimo”.

DISPUTA Sánchez e a ala centro esquerda do PSOE brigam com netas do caudilho: Justiça parcial (Crédito:Borja Puig de la Bellacasa)

Sob a Inspiração fascista

Autor do bestseller “Os Franco S.A.”, o escritor Mariano Sánchez Soler fez uma espécie de inventário da fortuna da família, sobretudo da parte construída pelo ditador ao longo dos trinta e nove anos que esteve no poder. Há cerca de vinte e cinco grandes propriedades, em meio a fazendas e palácios, e, entre eles, está o mais deslumbrante de todos, o Pazo de Meiras, avaliado em dez milhões de euros. Tratava-se de uma propriedade particular que Franco teria comprado com dinheiro público em 1938, já comandando a Espanha após dois anos do início da Guerra Civil, que deixou aproximadamente quinhentos mil mortos — inclusive o poeta e dramaturgo Federico García Lorca. Mais tarde, em uma estranha e inusitada transação, Franco elaborou um documento pelo qual o Estado transferia o Pazo Meiras para o seu nome.

Negócios estranhos, aliás, isso é o que não faltava no país sob o domínio do franquismo — regime repressor de extrema direita inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini. Um desses estranhamentos envolve o nome do Brasil. Em 1939, já com os brasileiros mergulhados no também regime de exceção do Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas doou seiscentas toneladas de café à Espanha. Franco as teria vendido e se apropriado do dinheiro decorrente da negociata. Cinco anos antes de sua morte, ele ainda recebia amplo apoio da população, devido à estabilidade e desenvolvimento econômico que dera à Espanha no início da década de 1970. Atualmente, Franco é lembrado justamente por esse fato que segue avivado na sociedade espanhola em decorrência daquilo que as antigas gerações transmitiram às novas. Explica-se, assim, o apoio popular dado a quem não quer a exumação. E explica-se o olvido da corrupção que Franco promoveu e das atrocidades que praticou.

 

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