Edição nº2577 17/05 Ver edições anteriores

A nova polarização

Gustavo Souza Aranha e Meco Albuquerque se encontraram no Aventura Mall, em Miami. Há mais de dez anos que não se falam.

– Guguinha! Quanto tempo, rapaz!

– Caceta, Mequinho! Falei de você essa semana mesmo!

Se conhecem de moleque os dois. Seguiram o mesmo caminho. Playground do Harmonia, Bandeirantes, CPV e GV.

Guga usa gel no cabelo. Meco, uma corrente de couro no pescoço. Estilos diferentes.

Guga conta que hoje tem um fundo de investimentos. Private equity só para amigos.

– Meu lema sempre foi share the wealth, você sabe. Tô focado em startups para o terceiro setor.

Meco é empreendedor.

– Semana que vem lanço meu livro “Victory always win”. Só com dicas de networking.

Os dois namoraram a filha de um banqueiro. Não na mesma época, óbvio.

O pai do Guga ficou rico fabricando peças de plástico para a indústria automotiva na década de setenta. Rico mesmo, de viajar para a Europa três vezes por ano.

Já a família do Mequinho é da roça. O avô até hoje é um dos maiores produtores de soja do mundo, com meia dúzia de fazendas. A maior é do tamanho da Guatemala.

Os dois odeiam rótulos. Não se consideram de direita.

“Bolsonaro, mito! Milton Friedman, eterno!”, foi como Meco terminou um workshop no III Fórum Brasileiro do Miami Entrepreneurship Lab, evento patrocinado por ele mesmo.

– Tinha que ver. A moçada aplaudiu de pé. Olavo de Carvalho até fez um vídeo falando da minha apresentação.

Guga recebeu a frase como uma facada nas vísceras, mas não deixou transparecer. Na verdade, desde a época do colégio os dois travam essa batalha silenciosa. É só um postar uma foto em Aspen que o outro vai lá e tuíta dizendo que está na Suíça.

Monitoram as respectivas vidas em silêncio. Um nunca dá like nos posts do outro.

Guga rebate:

– Não deu para ir ao fórum. Tava em Élei com o Leeman e o pessoal — Élei é como ambos se referem a Los Angeles.
Nenhum dos dois conhecia Bolsonaro antes da eleição. Estão morando em Miami desde que a Dilma se elegeu pela segunda vez.

– E o Mito, hein?
– Ah o cara é top, né? Aquilo tava assim para virar Cuba.

– Olha, no último call que fiz com o meu time no Brasil deu pra sentir no tom da voz deles como mudou o mindset.

– É o efeito Guedes! Viu só o que ele falou pros deputados?

– Dedo na cara!

– Foi muito cool! Pode até atrapalhar essa papagaiada de reforma, mas alguém tinha que dizer a verdade para esses safados!
Os dois concordam que os filhos do presidente podem criar um ou outro problema.

– Mas é família, né?

– Primeiro que família é família. Depois, eles só dizem verdades.

– Isso de meterem o pau no Mourão, eu gostei. Orquestra tem um maestro, só. O Mourão fica lá fazendo picuinha. Pelo menos os meninos falam o que tem que ser dito. — desabafa Guga, que é olavista.

Meco é como o avô. Sente saudade dos militares. O velho sempre dizia: “O que tá faltando nesse país é verde”. E completava “oliva.”

– É… Mas têm que pegar leve. Vamos combinar que, se tem alguém que ama o Brasil, são os militares. — sinaliza Meco. Aliás, Mourão estava em seu fórum.

– Ah, sei não. Eu gostei do vídeo do professor botando os militares no devido lugar. — Guga não deixa passar batido.

Os dois ficam em silêncio por alguns segundos, pensando em como, no fundo, sempre se odiaram. “Incrível como o Meco, que cresceu comigo, virou esse reaça”, Guga comentará com a mulher naquela noite.

No Mall, Meco quebra o silêncio:

– Bom, o que importa é que agora vai.

– Ô se vai.

Se despedem com um fraternal abraço, mas não trocam telefones.

São a invenção desse governo. A autopolarização.

Um encontro casual em um shopping de Miami revela que os fãs do Mito odeiam velhos rótulos, mas não abrem mão de rancores colegiais

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