PANDEMIA * 2020

A nova ordem mundial

A pandemia de coronavírus marca uma guinada definitiva na história da civilização. Ela pode ser o acontecimento inaugural de um ciclo catastrófico ou o ponto de inflexão para uma mudança profunda. Rendidos pelas forças da natureza, como diante de um dilúvio ou de um terremoto, nunca fomos tão frágeis. Tememos a morte, não sabemos para onde vamos e as previsões de longo prazo que tentávamos traçar ruíram, tanto na vida pessoal, como nos planos estratégicos de governos e empresas.

Crédito: Dmytro Tokar
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Alguns estudiosos chegam a dizer que se trata do colapso do capitalismo industrial. Outros falam que o modelo de Estado-Nacional, construído no final do século 18, está sofrendo um golpe fatal. Seja como for, o que se verifica, neste momento, é o fortalecimento do Estado como força protetora dos cidadãos. E em meio ao caos ­— confinados no aconchego do lar — temos a oportunidade de aproveitar o tempo para colocar em prática a máxima do filósofo grego Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”, estampada, há 2,5 mil anos, no oráculo de Delfos, um dos epicentros espirituais da Antiguidade.

A tendência mais imediata, necessária e óbvia relacionada à pandemia de Covid-19 é a redução da mobilidade. De uma hora para outra, o direito de ir e vir tornou-se relativo. A determinação da autoridade de saúde passou a prevalecer sobre qualquer vontade pessoal. O transporte público ficou ameaçador, um lugar de contágio. Há restrições para caminhar pelas ruas. As barreiras sanitárias entre cidades, estados e países aumentaram e continuarão elevadas por meses ou anos. Será difícil cruzar qualquer fronteira no mundo sem um teste negativo de coronavírus.

A tendência mais imediata, necessária e óbvia relacionada à pandemia de Covid-19 é a redução da mobilidade. De uma hora para outro o direito de ir e vir tornou-se relativo

Isolamento até 2022

Ficará dessa crise uma inibição da livre circulação de pessoas, seja no meio urbano, dentro dos países ou entre as Nações. Um estudo da Universidade de Harvard, publicado na revista Science, mostra que o isolamento, ainda que intermitente, deve se perpetuar até 2022 em várias partes do mundo, se não surgir uma vacina. “O vírus nos colocou em casa e nos obrigou a se virtualizar. E quando esse ciclo acabar, a gente vai ter muita vontade de abraçar, beijar e fazer carinho”, diz a filósofa Viviane Mosé. “Mas o importante agora é a boa convivência. Vamos falar em nome do amor, ele que deve reinar”.

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A crise e o isolamento permitem desenvolver novas habilidades sócio-emocionais, como disciplina, persistência e auto-controle

As pessoas vão se acostumar com o isolamento, que não significa solidão. Laços familiares podem ser reforçados ou, por outro lado, romper-se a partir da convivência forçada. Amizades verdadeiras podem nascer. Como disse o filósofo chinês Confúcio, para reconhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. “No sucesso, verifica-se a quantidade e na desgraça, a qualidade”, afirmou. Já vivemos o sucesso na fase áurea do capitalismo digital e agora é hora de enfrentar o infortúnio, a crise civilizacional, a fragilidade humana diante de uma ameaça microscópica. É na doença, que se reconhecem os verdadeiros amigos ou pelo menos quem se preocupa por nós. “Somos seres competitivos por natureza, o que tem um alto custo emocional, e agora temos oportunidade de nos tornar mais colaborativos”, afirma o psiquiatra Ricardo Moreno, diretor do grupo de estudos de doenças afetivas do Hospital das Clínicas da USP. “Todos temos a capacidade de criar estratégias e mecanismos para se adaptar a um novo estilo de vida e superar o estresse e a depressão”.

“Quem vai tirar a gente dessa crise é a ciência. E para formar os cientistas do futuro precisaremos de boa educação” Tatiana Filgueiras, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna (Crédito:Divulgação)

Outra mudança inevitável é que as pessoas passarão a trabalhar, estudar e se relacionar cada vez mais remotamente. O aprendizado do período de isolamento servirá para sustentar uma mudança profunda no sistema de produção de conhecimento e de bens de consumo, com a utilização de impressoras 3D. O amor e a convivência em tempos de peste oferecem a oportunidade das pessoas conversarem mais e se conhecerem melhor. O que sustenta um relacionamento agora é a qualidade da conversa remota. O distanciamento pessoal se reproduz em todas as esferas – nos negócios, na educação, na saúde e nas relações interpessoais. Para o empresário Ricardo Semler, autor de uma experiência pioneira, há 26 anos, que encaminhava as pessoas para o trabalho home office na Semco Partners, grandes tragédias mostram uma solução para antigos desafios. A necessidade de trabalhar em casa durante a Covid-19 reabriu a discussão sobre a questão. Para o empresário Ricardo Semler, o trabalho em casa será a solução para muitas empresas sobreviverem depois do coronavírus. As empresas vão descobrir que, em muitos casos, o resultado do trabalho será até mais eficiente. “Pós-coronavírus, o mundo avançará 5 anos em 1”, afirma.

As pessoas vão se acostumar com o isolamento, que não significa solidão. Laços familiares podem ser reforçados ou romper-se a partir da convivência forçada. Amizades verdadeiras podem nascer (Crédito:CasarsaGuru)
“Vamos redesenhar melhor o modelo de renda mínima. Mas queremos algo permanente para os mais vulneráveis” Felipe Rigoni, deputado federal (PSB-ES) (Crédito:Divulgação)

Valorização da ciência

De um modo geral, haverá uma maior valorização da ciência para a solução dos problemas humanos e um abandono crescente de ideias obscurantistas e negacionistas que tentam se impor nesse momento trevoso. “Quem vai tirar a gente dessa crise é a ciência”, diz a especialista em educação Tatiana Filgueiras, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna. “Mas para formarmos os cientistas do futuro precisaremos de educação”. Ainda que no Brasil, um país confuso que enfrenta a dupla tragédia da pandemia e do comando delirante do presidente Jair Bolsonaro, isso não esteja tão claro no resto do mundo é o pensamento científico que vai dar as cartas. Espera-se, por exemplo, que bolsas de estudos para pesquisadores nunca mais sejam cortadas de maneira arbitrária. A politização da doença é um desvio de caráter.

O Estado volta a ser a grande força protetora, a única capaz de criar um sistema robusto para dar segurança ao cidadão, garantindo a saúde, a educação e o incentivo à pesquisa científica. A saúde pública ganhará prestígio porque a maioria das pessoas dependerá dela para sobreviver. Já se fala na criação de um novo Estado-Nação que não pode ser comparado com as democracias ocidentais e com os populismos nacionalistas atuais e que se funda na maior eficácia e na capacidade de gestão para enfrentar uma situação de emergência. Novos modelos autoritários também podem se desenvolver e se espalhar para garantir a ordem e o controle social. “Talvez as duas opções mais importantes sejam: enfrentamos esta crise por meio do isolamento nacionalista ou através da cooperação e solidariedade internacionais”, afirmou o historiador israelense Yuval Harari em uma entrevista ao programa Newshour da BBC. “Em segundo lugar, dentro de um país, as opções são tentarmos superar a crise por meio de controle e da vigilância totalitários e centralizados, ou por meio da solidariedade social e do empoderamento dos cidadãos”. Segundo ele, as escolhas que agora fazemos para combater a Covid-19 moldarão nosso mundo nos próximos anos.

Apesar da resistência de Bolsonaro, que acha que é coisa do PT, a pandemia nivela as pessoas e, de alguma forma, a sensação de igualdade que o medo da morte traz pode se transformar em empatia e solidariedade. Se quiser sobreviver, você precisa proteger o outro. A peste convida à solidariedade. Diante do medo ou do desleixo com a peste, o ser humano se revela. Uma ameaça difusa, um inimigo comum tende a unir as pessoas. Mesmo os políticos tendem a ser mais solidários e pensar nos desprotegidos.

“Os resultados do trabalho remoto serão melhores do que o presencial. Pós-coronavírus, o mundo avançará 5 anos em 1” Ricardo Semler, empresário (Crédito:Divulgação)

Renda mínima

“Vamos ter que redesenhar melhor o modelo de renda mínima, mas será algo permanente para os mais vulneráveis”, explica o deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES). Ele afirma que essa é a única forma de evitar a miséria completa, não só durante na pandemia, mas daqui para frente. Segundo Rigoni, o efeito multiplicador na economia de cada Real colocado no mercado é de 1,8 vezes, segundo estudos feitos com os recursos aplicados no Bolsa Família. Isso move uma economia primária que garante alimentação e mantém as pessoas vivas. Algo emergencial precisará ser aplicado também para as pequenas empresas. Programas de renda mínima podem ajudar a neutralizar a tendência futura de aumento da desigualdade, considerado inevitável por muitos analistas, em função do fechamento de empresas e da diminuição dos postos de trabalho.

Para a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), a renda básica, estabelecida por três meses, não será suficiente e políticos terão que repensar as estratégias de recuperação do País e de combate à desigualdade além desse prazo. Ela entende que a sociedade levará mais a sério o problema das pessoas que não têm o mínimo para sobreviver. “Agora é importante pensar numa reforma tributária que taxe dividendos e que não incida sobre o consumo. Precisamos ainda mais de uma reforma progressiva”, diz. “O que se impõe no momento é a questão de quem vai pagar a renda mínima e o governo terá que ajudar a pagar salários e lançar empréstimos com juros zero como medida para enfrentar as dificuldades.”

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A crise e o isolamento, além disso, abrem a possibilidade de desenvolvimento de novas habilidades emocionais, como responsabilidade, disciplina, foco, amabilidade, persistência e auto-controle. Alunos responsáveis e disciplinados têm, por exemplo, uma aprendizado de matemática três vezes maior do que aqueles que não demonstram essas competências. Como explica Tatiana Filgueiras, há uma grande oportunidade de se evoluir em qualidades sócio-emocionais, inclusive com mudanças no modelo de ensino menos orientado para o acúmulo de conhecimento. “Mesmo à distância, podemos desenvolver competências complexas, como trabalhar em grupo, negociar e ter empatia”, afirma. A paralisação da economia e o isolamento das pessoas provocaram uma melhoria da qualidade ambiental nas grandes cidades e no planeta e isso está ficando evidente para todos. A consciência ambiental deve aumentar assim como a preocupação com a sustentabilidade. O pôr do sol em São Paulo, durante a última semana, foi colorido e exuberante, refletindo a diminuição da poluição atmosférica. Embora o benefício não possa ser aproveitado imediatamente, por causa do confinamento, o ar e as águas estão mais limpos.

Há, finalmente, uma percepção crescente de que o consumo desenfreado é desnecessário. A vontade acumulativa sofrerá um baque. A percepção da própria vulnerabilidade tende a trazer sabedoria. Ficar em casa consigo mesmo, seus pensamentos e seus fantasmas, é uma chance de superar o medo recorrente da vida e da morte. O coronavírus faz as pessoas experimentarem uma espécie de prisão domiciliar ainda não vivida nas sociedades contemporâneas. A psicóloga Janete Munhoz diz que é comum as pessoas olharem somente para fora, mas o distanciamento social faz com que olhem para dentro e aí “aparecem os medos, tristezas, angústias, fragilidades”. “Por isso, as pessoas procuram tanto shoppings, viagens, bares”, completa. Líder de uma entidade filantrópica, Janete sente que algo já mudou. “Triplicou o número de doações de cestas básicas”, comemora. Há uma vontade real de ajudar. Ela entende que a sociedade vai mudar muito e que as pessoas vão se voltar mais para a espiritualidade e o autoconhecimento, cada um da sua forma.

“O importante neste momento é a boa convivência. Vamos falar em nome do amor: ele que deve reinar” Viviane Mosé, filósofa (Crédito:Divulgação)

Período pós-pandemia

O período pós-pandemia pode causar um movimento de libertação, com todos querendo viver intensamente depois de meses (ou anos) de contenção. Quem acredita nessa ideia mira o exemplo da epidemia de Gripe Espanhola, em 1918. Os anos subsequentes à explosão da doença despertaram uma cultura hedonista nas sociedades. Mas na época da Gripe Espanhola o ambiente social era muito mais repressivo e não existia a internet, que nos ajuda muito nesse momento difícil. É pouco provável que depois dessa crise haja uma explosão de alegria idiotizada e de consumo desenfreado. Mas essa é só uma especulação de médio ou longo prazo. A questão fundamental agora é como ser feliz no isolamento. O mundo pode até evoluir com essa distopia sanitária, mas certamente nunca mais será igual.

Dez tendências para um futuro próximo

1- A tendência mais evidente e imediata é a perda da mobilidade. O direito de ir e vir se tornará relativo. As barreiras sanitárias entre pessoas, cidades e países aumentarão

2 -As pessoas vão se acostumar com o isolamento, que não significa solidão. Laços familiares podem ser reforçados ou até romper-se a partir da convivência forçada

3 -As pessoas passarão a trabalhar, estudar e se relacionar cada vez mais remotamente. O aprendizado do isolamento servirá para sustentar a mudança no sistema de produção

4 -O Estado voltará a ser a grande força protetora, a única capaz de criar um sistema robusto para dar segurança ao cidadão. A saúde pública ganhará prestígio

5 -Haverá uma maior valorização da ciência para a solução dos problemas humanos e um abandono crescente de ideias obscurantistas e negacionistas

6 -A pandemia nivela as pessoas e a sensação de igualdade que o medo da morte traz pode se transformar em empatia e solidariedade. É preciso proteger o outro

7 -A crise abre a possibilidade de desenvolvimento de novas habilidades sócio-emocionais, como responsabilidade, disciplina, foco, afeto e persistência

8 -A paralisação da economia e o isolamento das pessoas provocaram uma melhoria da qualidade ambiental do planeta. A consciência ambiental deve aumentar

9 -Há uma percepção de que o consumo desenfreado é desnecessário. A vontade acumulativa também será questionada e sofrerá um baque

10 -O período pós-pandemia pode causar um movimento de libertação, com as pessoas querendo viver intensamente depois de meses (ou anos) de contenção

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