Comportamento

A nova onda da terceira idade

Idosos somam 8,6 milhões de usuários na internet. Apesar de ser o menor grupo, é o que mais cresce no Brasil. A preocupação com eles envolve disseminação de notícias falsas, principalmente em grupos de WhatsApp, que limitou o envio de mensagens

Crédito: Divulgação

Pela primeira vez, depois de um longo tempo de vida, milhões de brasileiros acima dos 60 anos tiveram a sensação de serem novatos. Dados apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último trimestre de 2017 apontam que 2,3 milhões de pessoas a partir desta faixa etária usaram a internet pela primeira vez naquele ano. Ingênuos na vida digital, a turma da terceira idade soma 8,6 milhões de usuários no País, perfazendo 7% do total de internautas. É um índice baixo, mas a tendência é de rápida elevação. “No mesmo período (entre 2016-2017), a população brasileira idosa cresceu cerca de 1 milhão”, diz a pesquisadora do IBGE Adriana Beringuy. A participação de cada vez mais gente sênior nas redes sociais acarreta oportunidades de negócios e também maiores cuidados com a circulação da informação.

A questão é que a inexperiência e a boa-fé fazem desse público o maior disseminador de notícias falsas, as fake news, nas mídias sociais. No Facebook, os idosos acima de 65 compartilham, em média, sete vezes mais notícias falsas que usuários entre 18 e 29 anos. Eles também distribuem o dobro de notícias falsas que o grupo de internautas entre 45 e 65 anos. O estudo é das universidades de Princeton e Nova York e foi publicado na revista “Science Advances”. Foram analisados 3,5 mil internautas durante as eleições americanas de 2016. Não houve variação significativa no comportamento de idosos em função de gênero, raça, renda e educação. O elo está no perfil conservador. Um fato determinante seria o baixo conhecimento sobre mídia digital, tornando difícil que eles determinem a confiabilidade dos textos compartilhados. Outro fator seria a perda de memória.

A correlação dos americanos com os usuários brasileiros não é direta, mas a disseminação de boatos contra todos os candidatos foi uma prática nos dois turnos da recente eleição presidencial, o que alertou a Justiça Eleitoral, partidos políticos e estudiosos. “Sei que tenho muito que aprender. Não pago minhas contas ainda pelo celular, mas sou viciada. Tenho grupos de amigos, da família, do colégio”, afirma a bancária aposentada e modelo da terceira idade Amélia Hatanaka, de 66 anos. Ela se transformou numa internauta mais intensa nos últimos três anos e mantém perfis no WhatsApp, Facebook, Instagram e Telegram. Sobre notícias falsas, ela comenta que ficou sabendo do assunto em um curso e, garante, não acredita em tudo que lê. “Mas acho que ainda caio em algumas”, diz.

Menos mensagens

Para evitar esse tipo de problema e melhorar seu controle sobre o serviço, o Facebook, que é controlador do WhatsApp, anunciou a redução de 20 para 5 o limite de encaminhamentos de seu serviço de mensagens. No início, eram até 250 por vez. Testes foram feitos ano passado, na Índia, o maior mercado do aplicativo, onde a disseminação de mensagens falsas em grupos provocou agressões e homicídios. Mais experiente, a aposentada Vera Lúcia Mendes de Oliveira, 75 anos, usa as redes com intensidade há uns 15 anos. Além de falar com as amigas abusando dos emojis e de trocar fotos, ela faz compras e paga suas contas sem problemas. “Percebi que sem a tecnologia eu ficaria fora do tempo e do espaço”, diz. Sobre o compartilhamento de notícias por demais escabrosas, ela afirma que prefere se conter. “Mas comento bastante”, completa.

APRENDIZ DIGITAL Amélia Hatanaka, 66 anos, precisa aprender a pagar as contas pelo smartphone, mas participa de diversos grupos: “Não acredito em tudo” (Crédito:Marco Ankosqui)