Internacional

A nova era da OMC

A chegada da economista nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala ao comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) simboliza muito mais que pura e simples representatividade feminina. Além de ser a primeira mulher e também a primeira pessoa nascida no continente africano a assumir o cargo, ela traz consigo a volta do pluralismo, do multilateralismo e da globalização como pilares da atuação da entidade. Com Ngozi, espera-se que haja a retomada de diálogos produtivos e o fortalecimento da instituição. Existe a expectativa também de que temas de combate à pobreza, ausentes das discussões econômicas durante o mandato de Donald Trump, voltem à baila.

Crédito: ERIC BARADAT

LIDERANÇA Ngozi Okonjo-Iweala é a primeira mulher e primeira africana a assumir a chefia da entidade: retomada do diálogo e combate ao protecionismo (Crédito: ERIC BARADAT)


Quando presidente, Trump fez questão de colocar os EUA contra a nigeriana e o país foi o único a demonstrar apoio à candidata da Coreia do Sul, Yoo Myung-hee. A coreana desistiu da disputa assim que Joe Biden tornou-se o novo presidente americano e Washington direcionou seu total apoio para a nigeriana. Ngozi assume a liderança da OMS em um momento de caos global e terá pela frente desafios que são consequência da maior pandemia do século, como, por exemplo, o aumento do protecionismo. “Uma OMC forte é vital se quisermos nos recuperar completa e rapidamente da devastação causada pela pandemia”, disse Ngozi, durante seu discurso de posse. Ela assume em março e fica até, pelo menos, agosto de 2025.

MUDANÇA O brasileiro Roberto Azevêdo esteve à frente da OMC nos últimos sete anos: ele deixou o mandato para assumir a vice-presidência-executiva da PepsiCo (Crédito:FABRICE COFFRINI)

A chegada de Ngozi à OMC é um impulso para uma mudança necessária e urgente. A Covid-19 colocou às claras a desigualdade social que assola o mundo, principalmente com a chegada da vacina e, agora, com a reabertura gradual e lenta do comércio. Países desenvolvidos e com maiores riquezas estão, obviamente, à frente da imunização. Isso evidenciou uma tendência protecionista, já que alguns países industrializados começaram a barrar a exportação de materiais médicos para que as tarifas sejam utilizadas para proteger empresas nacionais. Ngozi é pragmática: quer fortalecer empresas que aumentem a produção de vacinas em países mais pobres. Isso mostra que suas raízes na Nigéria ainda exercem influência em sua vida, apesar da cidadania americana. Ela, que pertence à etnia ibo, viu, durante a adolescência, seus pais perderem tudo o que tinham durante a Guerra de Biafra, que durou de 1967 a 1970. “Posso suportar dificuldades. Posso dormir no chão frio a qualquer hora”, disse ela em uma entrevista à BBC em 2012.

Reformas na Nigéria

Foi essa motivação que colocou Ngozi à frente de uma das maiores reformas econômicas na Nigéria durante seus 25 anos de Banco Mundial. O país somava uma dívida de mais de US$ 35 bilhões. Somente depois das reformas feitas por Ngozi, a Nigéria conseguiu desvincular o orçamento do Estado do preço do petróleo e criou uma conta especial que permitiu uma economia significativa para os cofres públicos quando os preços da matéria-prima subiam. “A Okonjo-Iweala é extremamente qualificada, foi uma grande aquisição para a OMC”, disse o economista e presidente do Grupo Oxford USA, Carlo Barbieri. “O Brasil precisa de uma mudança. Hoje temos uma postura comercial ideológica contrariando a realidade comercial de outros países”. A economista substitui o brasileiro Roberto Azevêdo, que deixou a OMC um ano antes do previsto para assumir a vice-presidência-executiva da PepsiCo.

Azevêdo ficou no cargo de 2013 até agosto de 2020 e liderou a instituição em um período nebuloso, quando Trump incentivava conflitos comerciais com a China e a União Europeia. É um cenário bem diferente do que Ngozi encontrará com Biden na Casa Branca. “É um momento muito especial para a OMC”, disse o neozelandês David Waler, presidente do Conselho Geral da entidade. Em nota, a chancelaria brasileira escreveu que o País está pronto para colaborar com a nova direção da instituição.

Ngozi é, de fato, um divisor de águas para mentes retrógradas que não pensam a agenda econômica de maneira global e sustentável. Ela traz um basta ao negacionismo da era trumpista e abala aqueles que não pensam de maneira complexa as relações exteriores, como o chanceler brasileiro Ernesto Araújo. A nova chefe da OMC é um respiro necessário em uma das áreas mais afetadas pela Covid-19, o comércio. Se não houver planos de retomada, os efeitos da pandemia serão ainda mais severos. Pode ser que depois de 28 anos sem um grande acordo comercial, a OMC consiga, enfim, um projeto concreto para reduzir tarifas e barreiras comerciais, diminuir o protecionismo e contribuir para o desenvolvimento das nações mais pobres. Ngozi é a mudança que a economia mundial, em farrapos, tanto precisava.


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Os desafios de Ngozi

Protecionismo

A pandemia fez com que Estados barrassem a exportação de mercadorias da área da saúde. O medo é que, para a retomada da econômica pós-pandemia, as tarifas protejam empresas nacionais

Meio ambiente

Apesar de temas ligados a preservação ambiental estarem em discussão constante, há 20 anos se estendem negociações na entidade para diminuir os subsídios à indústria pesqueira. O objetivo é diminuir o risco de extinção de espécies marítimas

Acordos comerciais

Um grande acordo comercial está longe dos debates da OMC desde 1993, o que resultaria na redução de tarifas e barreiras comercias. O hiato fez com que países optassem por acordos plurilaterais

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