A normalização do golpe

É surpreendente que Bolsonaro, um presidente responsável por uma administração incompetente, irresponsável e caótica, mantenha índices relevantes de aprovação, na faixa 20%. Mais espantoso é que consiga se manter no páreo para se reeleger. Pior: está aumentando suas chances de ser reconduzido, diminuindo a distância para o líder, Lula, e se mantendo confortavelmente à frente de todos os outros pré-candidatos.

Ao chegar ao poder, o mandatário já foi autor de um feito. Normalizou as barbaridades que disse durante uma longa e irrelevante carreira no baixo clero do Congresso, quando não aprovou nenhum projeto e pregou fuzilamentos e torturas, além de atiçar o descontrole das contas públicas, promover insurreições e atacar as instituições democráticas.

Quando assumiu, o president e foi claro a uma plateia nos EUA: disse que o sentido de seu governo não é construir coisas para o povo brasileiro, mas desconstruir. Cumpriu. Desmontou a máquina pública, dominou órgãos de controle, enfraqueceu o Judiciário, armou milícias e cooptou os militares para um golpe. Enquanto autoridades fingem não ouvir seus ataques diários, evitando dar palco à sua estratégia, ele avança.

O cenário já está armado para a contestação dos resultados do pleito, talvez à força. Faltam vozes mais firmes em defesa da democracia

A pouco mais de quatro meses das eleições, o TSE e o STF resistem a suas investidas. Mas o cenário já está armado para a contestação dos resultados, possivelmente à força. Candidatos como Ciro Gomes já apontam que o “ponto de não retorno” está perto de ser atingido. É pouco. Apenas agora começam a surgir vozes mais firmes em defesa do pleito. Entidades da sociedade civil começam a se movimentar, como na época da ditadura.

No sentido contrário, partidos políticos flertam com o perigo. Ainda resistem a combater abertamente a ameaça golpista. As legendas estão embriagadas com o bilionário financiamento público patrocinado pelo atual governo, e grupos fisiológicos calculam os benefícios que terão com a volta do petismo ou com o butim ainda maior que poderão extrair em um segundo mandato de Bolsonaro. O pleito será uma disputa de rejeições, enquanto os partidos de centro, capturados por caciques fortalecidos com os fundões, imolam-se em praça pública. Será uma disputa de populismos. Não há debate sério, e ele nem interessa aos extremos.

É um grande erro não se contrapor a esse jogo. Os riscos são reais. Bolsonaro conseguiu capturar a dinâmica eleitoral. Ele já foi subestimado uma vez. Os defensores da democracia não podem
se dar ao luxo de errar uma segunda vez.


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