Brasil

A noite dos guardanapos

Livro conta os bastidores da farra parisiense protagonizada por Sérgio Cabral, a mulher Adriana Ancelmo e empresários cariocas. Um dos 23 capítulos traz no título o vaticínio de um dos convidados: “Vai dar merda”. Demorou, mas a profecia se cumpriu

Crédito: Divulgação

FARRA NABABESCA Foram consumidas 300 garrafas da champagne Dom Pérignon no regabofe parisiense, organizado por Sérgio Cabral e companhia (Crédito: Divulgação)

A densa névoa que cobria o extremo norte da Torre Eiffel, no cair da tarde da segunda-feira 14 de setembro de 2009, prenunciava uma noite álgida e cinza em Paris. Menos para um grupo seleto de 150 pessoas, entre políticos e empresários cariocas. A partir das 20h30, essa turma de privilegiados, comandada pelo ex-governador do Rio Sérgio Cabral e por sua mulher Adriana Ancelmo, promoveria uma festa de arromba no salão “The Travellers Club”, um dos cômodos mais luxuosos do Hotel La Paiva, localizado no número 25 da Champs-Élysées. Construído na segunda metade do século 19, o hotel, que pertenceu à marquesa Esther Lachmann, conhecida cortesã parisiense do século XIX, seria palco naquela noite de obscenidades com dinheiro público, fazendo jus aos modos da antiga dona.

Os ciúmes de Adriana

Uma das cenas mais abrasivas foi protagonizada logo no início do regabofe. Uma sensual cantora de uma banda de Monte Carlo praticamente se jogou no colo de Cabral, ao ensaiar movimentos como quem se acomodaria sobre seus joelhos. O ex-governador não refugou. Pelo contrário, deu corda. A conversa ameaçava esquentar quando Adriana irrompeu em fúria entre os pombinhos. “Aqui, não”, ordenou. A artista foi expressamente proibida de se aproximar de Cabral durante o restante da festa. Climão desfeito, um animado casal de convidados resolveu sapatear sobre uma das mesas. Foram convidados por um maître a retornar aos seus lugares. Por volta de 23h, acomodados numa das mesas laterais, os empresários Georges Sadala e Fernando Cavendish e os então secretários Sérgio Côrtes e Wilson Carlos puxaram um trenzinho. Foi o aperitivo para a ideia materializada logo em seguida: a de amarrar guardanapos na cabeça, como se fossem médicos numa sala de operação. Só que a operação ali era outra, como se ainda fosse possível descer ainda mais na escala da degradação institucional: envolvia a distribuição de propina pela escolha do Rio para sediar as Olimpíadas. A esbórnia durou quatro horas e foi embalada até o início da madrugada por um verdadeiro banquete etílico: 300 garrafas da champagne Dom Pérignon e do vinho português Barca Velha servidos por 25 garçons.

A história, quintessência da orgia com o dinheiro público, suprassumo do achincalhe a uma população massacrada cotidianamente por autoridades públicas que, como delinqüentes, agem às sombras quando querem consagrar os seus malfeitos, mas às claras quando se dedicam a cabalar votos, é contada com fartura de detalhes no livro “A farra dos guardanapos — O último baile da Era Cabral”, do jornalista Sílvio Barsetti. Na obra, uma preciosidade para guardar na estante, de modo a jamais esquecer o que impingiram ao povo fluminense, o autor descreve outros momentos dignos da extravagância do episódio. Por exemplo, o ex-governador embarcara para Paris no dia 10 de setembro. Hospedou-se com a família no Le Bristol, cujas diárias custam R$ 5 mil. A suntuosidade do local virou tema das conversas ao pé do ouvido entre Cabral pai e a mulher Magaly.

O mecenas da festa que aconteceria quatro dias depois foi o empresário português João Pereira Coutinho, do grupo SGC. Coube à baronesa Sylvia de Waldner, brasileira casada com o barão francês Gerard de Waldner, reservar o salão fundado na Inglaterra e aberto em Paris em 1903. Nada, no entanto, era para ser divulgado – por óbvio. Segundo o autor, uma operação abafa foi montada por Cabral para evitar que o espetáculo nababesco em terras francesas ganhasse as luzes do Sol.

O convidado ligou para a filha no Brasil e disse: “Compra todos os jornais amanhã, pois vai dar merda. Vai cair todo mundo”

A cinza da horas

A trama motivou talvez o capítulo mais pitoresco dos 23 existentes na obra de Sílvio Barsetti, a começar pelo sugestivo título: “Vai dar merda”. O vaticínio em tom de alerta foi feito por um dos comensais durante um telefonema à filha, que estava no Brasil. “Compra todos os jornais amanhã, pois vai dar merda. Vai cair todo mundo”, esbravejou ele. Não precisou. Mais tarde, o convidado se surpreenderia com o silêncio sepulcral e o total desconhecimento do público brasileiro acerca do convescote em Paris. Tudo já havia sido armado previamente por Cabral e companhia. O jantar não constava da agenda oficial do governador. Se a viagem vazasse, um plano B seria sacado da cartola: a desculpa de que Cabral tinha comparecido à cidade luz para receber uma medalha de honra da Legião D’Honneur, condecoração do governo francês. Como já é sabido, a estratégia não funcionou. A profecia se cumpriria três anos depois. Em 2012, as imagens acabaram no blog do ex-governador do Rio Antony Garotinho. O resto já é história. E, assim, aquela noite cinza em Paris, movida a inebrio, glamour e muito luxo, virou escândalo e símbolo da mais desbragada farra com o dinheiro público, convertendo-se na “cinza das horas” de Cabral – como a obra homônima de Manuel Bandeira, cujo desenlace pode ser aplicado também aos dias derradeiros do político do PMDB: “E daquelas horas ardentes, ficou esta cinza fria. Esta pouca cinza fria”.

Com reportagem de Ary Filgueira