Edição nº2539 17/08 Ver edições anteriores

A negociação do “vice”

Um séquito acompanha o Candidato em suas andanças pelo país.

Marketólogo, Relações Públicas, Motorista e mais um monte de gente.

E como se não bastasse essa gentarada toda, ainda tem os repórteres.

– Essa praga é que nem cupim. Antes de dormir, olho em baixo da cama para ter certeza que não sobrou nenhum — desabafou o Candidato.

Entre todos os que compõem sua equipe, dois “Assessores” chamam a atenção pelos bíceps que mal cabem dentro das mangas dos paletós.

O cargo correto deveria ser “Segurança”, mas o Marketólogo achou que não pegaria bem.

– É melhor “Assessor” [o Marketólogo fez coelhinhos com os dedos, o gesto universal das aspas]… “Segurança” [coelhinhos de novo] assusta… Empatia com o eleitor é importante, sabe como é?

O Candidato sabia.

Os dois “Assessores” [coelhinhos], então, teriam a função tácita de afastar repórteres inconvenientes e um ou outro cidadão abusado.

Naquela semana, o Candidato decidiu resolver, a qualquer custo, o impasse do Vice.

Assim, quando chegou ao gabinete do Senador, a imprensa já o estava aguardando.

Os dois “Assessores” improvisaram um corredor no meio do tumulto para que o Candidato pudesse chegar à antessala.

Os três foram rapidamente encaminhados pela Secretária para a sala seguinte, onde o Senador estava concentrado no computador.

Os dois “Assessores”, discretos, acompanharam à certa distância.

Instruída pelo chefe, a Secretária não fechou a porta para que a reunião fosse breve.

– Grande Senador, que prazer em vê-lo!

O Senador olhou por cima da armação dos óculos.

– Nem venha com nhe-nhe-nhem. Já disse que não quero — bravejou o velho Senador, voltando os olhos para a tela.

– Mas me dê ao menos a oportunidade de vender meu peixe — pediu o Candidato, constrangido.

O Senador jogou-se para trás em sua poltrona.

– Não quero, não vou, muito obrigado e até logo — riu, falando sério.

– Mas Senador, a hora é essa! Vamos nos unir e trabalhar para mudar o Brasil — o Candidato argumentou ingenuamente.

– Trabalhar? Mas se eu quisesse trabalhar, não estaria aqui há 30 anos, meu filho — gargalhou da própria piada.

– Senador, não brinque com isso. O senhor é um nome respeitado. Precisamos somar esforços para bloquear o… o senhor sabe quem…

– Olha, você é bem intencionado, mas sejamos sinceros: não vai ganhar, né?

O Candidato torceu a boca sugerindo um “nunca se sabe” pouco convincente.

– Todo mundo sabe que se “ele” [coelhinhos] for candidato, ganha. E pior. Se não ganhar, aí quem ganha é o “outro” [coelhinhos]. Então, para que vou me desgastar?

O Candidato tentou interromper, mas o Senador não permitiu.

– … e Vice é pior ainda! Não tenho nada a ganhar, meu querido!

O Candidato fez uma pausa e resolveu apelar.

– Bom, Senador, se o problema é “ganhar” [coelhinhos], temos aí uma verba do Partido que…

– Candidato, o senhor nem ouse concluir essa frase — o Senador ergueu-se indignado. Velho de guerra, nunca foi flagrado numa gravação comprometedora, não correria o risco a essa altura da vida.

O Candidato também levantou-se e caminhou até a janela, meditativo.

Diante da vista do Planalto e da intransigência do Senador, suspirou sem saída.

Voltando-se para os “Assessores”, fez um discreto sinal positivo com a cabeça.

Os dois, solícitos, imediatamente entenderam o recado.

Um deles fechou a porta, enquanto o outro tirou o paletó e arregaçou a manga, caminhando em direção ao Senador.

Não se sabe o que aconteceu na sala, mas, 15 minutos depois, quando a porta se abriu e os repórteres invadiram, o Candidato e o Vice sorriam para as fotos.

– É o que eu sempre digo — o Candidato afirmou —, é a partir do “diálogo” [coelhinhos] que vamos unir esse país.
E emendou um “V” de vitória.

 


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