A mudança

O presidente Bolsonaro mudou.

Mudou na semana passada.

É um novo homem, soube de fonte segura.

Dizem, à boca pequena, que a mudança se deu em função da decisão do ministro Fachin de anular o julgamento do ex-presidente Lula.

Não é verdade.

Minha fonte informa que já há alguns meses o presidente Bolsonaro estava insatisfeito com as decisões de seu governo.

Dizia aqui e ali que seus assessores eram muito radicais.

Que não era assim que ele queria entrar para a História.

Então o presidente estava procurando o melhor caminho para mudar tudo.

Semana passada, ao que tudo indica, decidiu que a mudança não poderia mais esperar. Nada a ver com a decisão de Fachin.

– Foi coisa do presidente e sua consciência. Assegurou minha fonte.

O primeiro a identificar a mudança foi o primeiro-garçom, no café da manhã.

Como fazia todos os dias desde a posse, entrou com a bandeja de café da manhã, com uma média no copo americano, pão e leite condensado.

Bolsonaro olhou para o sujeito e disparou:

– Cadê a máscara? Você não leu as recomendações da OMS, criatura?

O garçom tinha lido, mas nunca usou máscara no trabalho, por ordem do próprio Bolsonaro.

Antes que pudesse responder, o presidente continuou:

– Leva embora esse negócio. Agora, de café da manhã, quero chá com torradas.

Saindo da sala, o garçom ainda pode ouvir o presidente gritando:

– E avisa na cozinha que virei vegano!

O garçom olhou para a secretária, ambos incrédulos.

Muita gente que assistiu à entrevista coletiva da equipe de governo depois do discurso de Lula, com toda a equipe de máscara, achou que o presidente tinha sido intimidado pelo petista.

Errado.

O presidente não é homem de ter medo de comunista, disse um dos ministros que pediu para não ser identificado.
O fato é que desde a semana passada, Bolsonaro tinha mudado da cerveja para água.

A decisão de Fachin foi apenas uma coincidência.

Numa noite, chamou os filhos para jantar e deu a notícia.

– Chamei vocês para informar que as coisas vão mudar por aqui. Agora a gente vai fazer tudo direitinho, como manda o figurino, pelo bem do país.

O filho Flávio não conseguiu conter uma gargalhada, achando que aquilo era mais uma piada do pai.

– Tá rindo de que, seu…seu… zero a esquerda!?

O sorriso do filho desapareceu instantaneamente e deu lugar a uma expressão que era um misto de medo e incredulidade.

– E faz favor de vender aquela porcaria de mansão que você comprou. Prefiro um filho gay a um filho sob suspeita!
Durante essas duas semanas o presidente demonstrou sua intenção de virar o Planalto de pernas para o ar, pelo bem do Brasil. Chamou o Paulo Guedes.

– Queridão, você já tentou viver com R$300 por mês?

O ministro não entendeu a pergunta.

No fundo achou que o presidente se referia a 300 mil reais. Mas segundos depois entendeu que se tratava do auxílio emergencial.

A respeito do retorno de Lula ao jogo eleitoral: “Bolsonaro não é homem de ter medo de comunista!”, garante um de seus ministros que pediu para não ser identificado

– Então, Guedes, volta lá para a sua sala e só me aparece de novo quando arranjar um lugar para tirar uns mil reais por mês para o meu povo carente.

Ainda nesse mesmo dia, o presidente se reuniu com o pessoal do IBAMA e colocou o exército à disposição para acabar com os incêndios nas florestas.

Liberou verbas para a Cultura, o que surpreendeu até a Regina Duarte.

No dia seguinte, ligou pessoalmente para o CEO da Pfizer e fechou a compra de 200 milhões de doses de vacina.
– O senhor me desculpe à demora, viu? É que o pessoal aqui é muito complicado.

A mudança do presidente, ao que tudo indica veio para ficar.

Prova disso é que quando o ministro Pazuello veio pedir para se afastar, porque estava com problemas de saúde o presidente não titubeou:

– É Covid? Hein? Hein? Se for, não me vai tomar cloroquina que isso não serve para nada.


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