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A “Moro”de saias

A delegada Patrícia Domingos virou referência no combate à corrupção na administração pública e vai se candidatar à prefeita de Recife

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ALTERNATIVA Patrícia Domingos vai enfrentar as famílias tradicionais que dominam a política pernambucana (Crédito: Divulgação)

Novata na cena política, mas com experiência de 11 anos no combate aos crimes contra a administração pública, a delegada Patrícia Domingos ganhou destaque ao iniciar o combate sem tréguas contra a corrupção, atuação que lhe valeu o apelido de a “Moro” de Pernambuco. Titular da Delegacia de Crimes contra Administração e Serviços Públicos (Decasp), da Polícia Civil do Estado, Patrícia prendeu gestores públicos e empresários acusados por corrupção, investigou fraudes em licitações, descobriu grandes escândalos de lavagem de dinheiro em prefeituras e afastou policiais envolvidos com crimes de extorsão contra comerciantes do Recife.

Entre 2015 e 2018 foi o auge da atuação da delegada, com a realização de 15 grandes operações policiais, que resultaram em 49 prisões de prefeitos no exercício do cargo, de funcionários da administração pública e empresários que participavam do esquema corrupto que as autoridades mantinham no Estado. Nesse período, as operações da delegada levaram à recuperação de R$ 13 milhões, que foram devolvidos aos cofres do Estado. A atuação da delegacia, no entanto, causou incômodo e revolta entre os políticos locais. Em 2018, ao fim da Operação Ratatouille, que desbaratou a “máfia da merenda” e prendeu três empresários no Recife, a Decasp foi subitamente extinta e seus ocupantes transferidos para outras delegacias.

“Não há um avanço na administração do Recife. São sempre os mesmos grupos que se revezam no poder” Patrícia Domingos, delegada de polícia

Delegacia extinta

A medida foi tomada pelo atual governador Paulo Câmara (PSB), por meio de um projeto de lei votado em regime de urgência na Assembleia Legislativa. O fim da Decasp, contudo, não abalou a certeza da delegada de que ela deveria prosseguir no combate à corrupção na administração pública local. Licenciada do cargo há cerca de um ano e meio, ela decidiu continuar o trabalho que fazia por meio da política, assumindo um novo desafio: quebrar o ciclo de poder que alterna no comando do Recife os representantes das tradicionais e poderosas famílias pernambucanas.

Recém-filiada ao Podemos, partido que tem como principal figura o senador Álvaro Dias (PR), ex-candidato à Presidência da República, Patrícia deve ter como adversários na disputa à Prefeitura de Recife candidatos das famílias Arraes e Campos. Os dois clãs apóiam atualmente nomes que estão à frente do PSB e do PT, e algumas siglas menores de esquerda. “A escolha do Podemos tem a ver com a minha história. Tenho que ser coerente. Foi o partido que mais deu apoio ao trabalho do ex-juiz Sergio Moro na Operação Lava Jato, o que mais se mostrou transparente e envolvido com o combate à corrupção”, explica Patrícia, que se orgulha de ser comparada ao atual ministro da Justiça. “É uma enorme satisfação que as pessoas vejam similaridade entre o trabalho que eu faço e o dele”, diz Patrícia.

No último um ano e meio, Patrícia tem se dedicado a realizar palestras gratuitas, em troca de 1 kg de alimentos não perecíveis, em apoio à ONG “Fiscaliza Brasil”, grupo do qual participa. O objetivo dos encontros é conscientizar o cidadão comum sobre a importância de combater a corrupção. Até o momento, já foram realizadas 32 palestras, atividade que ajudou na tomada de decisão de se candidatar. “Se antes do fechamento da Decasp éramos alguns pares de olhos, meus e da minha equipe, agora são 100 pares de olhos”, comemora. Ela avalia que a política é a única ferramenta efetiva de mudança.

“Eu tinha uma visão contra o sistema, mas depois do fechamento abrupto da Decasp, vejo que a mudança tem que ocorrer de dentro para fora, apesar do desperdício de competência da minha equipe”, diz Patrícia. Ela explica que seu programa de governo estará baseado no “zelo pela coisa pública”, em especial pelo orçamento municipal, de cerca de R$ 6 bilhões. “Não há um avanço na administração da cidade. São sempre os mesmos grupos que estão no poder e sempre os mesmos problemas nos setores de educação, saúde, mobilidade e transporte público.”

Aos 37 anos, a advogada comemora o título de cidadã recifense recebido há poucos dias. Vê nisso o reconhecimento pela atuação frente à Decasp e um incentivo na disputa eleitoral que vai enfrentar. “A população já demonstrou fadiga desse poder imperialista que passa de pai para filho, de avô para neto.”