A minoria preferida

A atenção especial dedicada pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, à causa dos deficientes auditivos expõe as conquistas dos surdos, mas também falta de políticas públicas que os apoiem

Crédito: Marco Ankosqui

DESAFIO Os instrutores da Feneis, Fábio, Silvia e Talita esperam novas políticas públicas para inclusão dos surdos (Crédito: Marco Ankosqui)

Se existe uma minoria que pode comemorar a chegada de Jair Bolsonaro à presidência é a dos surdos. O discurso em Libras, a língua brasileira de sinais, da primeira-dama Michelle Bolsonaro, no dia da posse, mostrou que eles ocupam um lugar especial no governo que se inicia. Cotada para ser a nova secretária nacional das Pessoas com Deficiência, a professora Priscilla Gaspar de Oliveira, amiga de Michelle, é surda. Com isso, espera-se que políticas para educação e inclusão dos deficientes auditivos, principalmente dos mais pobres, sejam levadas adiante. Isso é muito necessário. “Precisamos que o poder público melhore a educação e o ensino bilíngüe em todas as escolas”, afirma Priscila Franco, administradora da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis). “Precisamos também de um maior número de profissionais formados em Libras e intérpretes em todos os lugares públicos, 24 horas por dia.”

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 9,7 milhões de pessoas, 5,7% da população, possui algum tipo de deficiência auditiva no Brasil, sendo que 2,1 milhões de brasileiros têm problemas severos. Desse total, 344,2 mil são completamente surdos e 1,7 milhão têm enorme dificuldade de ouvir. São três os principais aparatos legais que ajudam a pessoa surda no Brasil. Em 2002, houve a oficialização da língua de Libras. A partir daí, a educação brasileira teve que se adaptar com cursos para pedagogos e adequação do currículo escolar. Depois, em 2009, o Estatuto da Pessoa com Deficiência deu mais força para a luta desse público e, no ano seguinte, uma lei exigiu que, pelo menos em eventos e em algumas transmissões audiovisuais, haja um intérprete em tempo real. Apesar de tudo isso, ainda há surdos que não se comunicam com fluência. Quem não teve acesso à Libras dificilmente aprende a língua portuguesa.

A professora Priscilla de Oliveira foi cotada para a Secretaria Nacional das Pessoas com Deficiência. Será a primeira surda no cargo (Crédito:Divulgação)

Quem conhece bem o drama dessa minoria é Silvia Sabanovaite, 62, que não escuta desde a infância e foi uma das fundadoras da Feneis. Ela tem mais de 26 pessoas surdas em sua família, incluindo a filha, a já citada Priscilla de Oliveira. Silvia teve acesso a uma educação que lhe deu uma comunicação perfeita, mas ela já teve que omitir que era surda para conseguir um emprego na Alpargatas, em 1976. Sua deficiência foi descoberta, mas ela acabou trabalhando 13 anos na empresa. Além de Libras, ela usa a língua portuguesa escrita e falada. “Como nos anos 1970 era proibido o uso da língua de sinais, fui obrigada, na escola, a aprender a forma convencional”, lembra. A Feneis surgiu em 1997, com a finalidade de aperfeiçoar o ensino da língua de sinais. “Lá, acolhemos, auxiliamos, ensinamos e participamos da vida do surdo”, conta Silvia, que hoje é coordenadora pedagógica da Federação. “A Libras têm sua própria gramática e cultura.”

Acesso à educação

A comunidade surda ficou muito tocada com o pronunciamento da primeira-dama. “Ela poderia ter se comunicado com ajuda de intérpretes, mas preferiu usar a língua brasileira de sinais. Foi lindo! Nos sentimos enxergadas, representadas”, diz Talita Marçola, uma das oito instrutoras surdas da Feneis. Sueli Rosa, coordenadora de cursos da mesma instituição, também deficiente auditiva. “O ensino de Libras deve ser a primeira língua apresentada à pessoa surda. Assim fica mais fácil de aprender outras disciplinas. Há muitos adultos surdos que não sabem língua portuguesa”, diz Sueli.

Em 2014, o cientista Manuel Cardoso, professor da Universidade Federal do Amazonas, criou um aplicativo para celular de nome Giulia. O recurso transforma Libras em voz e também faz o contrário. Cardoso acredita plenamente na possibilidade de desenvolvimento da pessoa surda.

EMPREGO Funcionários surdos atendem os clientes na sorveteria il Sordo, em Aracaju (Crédito:Divulgação)

As oportunidades de trabalho para os surdos, em empresas de médio e grande porte, estão vinculadas a atividades manuais, de menor valor agregado. Apesar disso, para Rafael Moreira, economista especialista em políticas públicas e gestão governamental, a comunidade surda deve se preparar para o novo mundo do trabalho, mais tecnológico. “Hoje, o maior desafio para a comunidade surda está na educação. É preciso se qualificar para alcançar melhores empregos e conseguir autonomia”, afirma Moreira.

Há algumas situações que limitam o universo dos surdos. Qual língua se usa no transporte público, por exemplo? Nas escolas infantis, na cantina, ou quando uma criança passa mal? Tudo em nosso dia a dia se faz em língua portuguesa. “Para que o surdo não se sinta um estrangeiro dentro do seu próprio país, deve haver adequações”, diz Fabio Nunes, irmão de Breno Nunes, 25, surdo desde a infância. Breno é empresário, dono da sorveteria il Sordo, em Aracaju, Sergipe. A gelateria conta com 10 funcionários, 3 ouvintes e 7 surdos. “A pessoa surda é muito capaz, só precisa ter Instrução”, afirma Nunes. Para a família Nunes, o pronunciamento da primeira-dama foi muito bem-vindo. “O mais importante, porém, é o discurso se traduzir em políticas públicas direcionadas à comunidade surda”, diz Fábio.