Entrevista

Marcelo D2, Rapper

A milícia está na Presidência

Fabio Teixeira

A milícia está na Presidência

Mariana Ferrari
Edição 18/12/2020 - nº 2658

Precursor do rap nacional, o cantor e compositor Marcelo D2, de 53 anos, tem sido um crítico permanente do governo Jair Bolsonaro e um inconformado com a situação atual do Brasil. Mas também tem usado a nova situação para tentar aprender com a pandemia e expandir sua consciência. Reduziu gastos, ficou mais econômico, passou a limpar o banheiro e cozinhar com frequência. Confinado dentro de casa, ao lado da esposa Luiza Machado, com medo de um vírus invisível, Marcelo ressignificou o seu ódio por aqueles que defendem discursos racistas, machistas e homofóbicos. Ele entendeu que basta de raiva e transformou a indignação em um novo Marcelo, menos consumista, mais preocupado com a conexão familiar e responsável por tarefas doméstica, que até então estavam longe da sua realidade. Também retomou o trabalho criativo e gravou o álbum “Assim tocam meus tambores”, junto com Luiza. “Eu tenho todos os atributos que a extrema-direita odeia: favelado, falo demais e sou contestador”, disse Marcelo em entrevista para a ISTOÉ. “Essa extrema-direita abusou, completamente, do limite. Claro, é isso que eles gostam de fazer: viver no caos porque no caos eles se alimentam”.

Por que você sempre incomodou tanto a vida da família Bolsonaro?
Eu tenho todos os atributos que a extrema-direita odeia: favelado, falo demais e contestador, só faltou ser cientista. Qualquer tipo de manifestação contrária a eles iria irritá-los e eu fui um dos primeiros a começar a brigar durante as eleições, principalmente com os mais esquentadinhos da família, Carlos e Jair. Eles não aguentam nenhum tipo de oposição. A história vai contar o quanto eles deveriam ter ficado no ralo da política carioca, roubando gasolina e não entrar nessa furada que entraram. O mundo está de olho neles e eles vão pagar por isso, tenho certeza. Espero que a história seja bem cruel com eles. A extrema-direita está sendo varrida da Europa e agora dos EUA também e isso vai chegar aqui.

Você acha que essa resposta pode vir em 2022, nas eleições presidenciais?
Espero, mas no Brasil a votação é muito louca. Eu nunca tinha ouvido falar do (Wilson) Witzel na minha vida e o cara vira o governador do Rio de Janeiro. A política aqui é feita nas entrelinhas. Quem poderia imaginar, em 2015, que Jair Bolsonaro iria virar presidente? Um deputado medíocre que nunca tinha apresentado nenhuma proposta em 27 anos de carreira iria comandar a Nação? É possível até que ele possa se reeleger.

Bolsonaro já extrapolou o limite do aceitável?
Para mim, ele já passou do limite há muitos anos. Começou lá no programa da Luciana Gimenez, quando ele ainda era deputado federal. Ele tinha que perder o decoro ali. É curioso pensar: as pessoas relevam ou votaram nele por conta disso? O que levou o Brasil a votar em um cara como o Bolsonaro para a Presidência, com tanta raiva, tanto ódio às minorias?

O que precisa ser feito para que a lógica da narrativa pautada pela extrema direita seja invertida?
O Brasil errou quando deixou que eles pautassem a população. Precisamos aprender com isso. Demos esse mole, eu dei esse mole. Eu estava lá xingando e quando vemos estamos juntos deles. O diálogo é muito importante, mas esse tipo de coisa nós vamos ter que ignorar. O cara que quebra a placa da Marielle tem que ir para a cadeia, não tem que ter diálogo. Essa extrema-direita abusou do limite completamente, claro, é isso que eles gostam de fazer: viver no caos porque no caos eles se alimentam.

Em 2018, Mano Brown subiu no palanque de Fernando Haddad e disse que a esquerda estava se afastando da periferia e, por isso, a resposta nas urnas. Você compactua com essa ideia?
Nós temos pouca representatividade. Para cima do Senado os cargos ainda são de homens brancos e ricos, a maioria ainda é essa. E o Brown estava certíssimo quando falou isso. A própria esquerda, que tem um discurso libertário e de inclusão, estava incluindo muito pouco. A extrema-direita puxou a corda para lá e os progressistas viram que precisavam tomar uma decisão. O governo Bolsonaro fez a esquerda balançar. E o que precisamos ver é que o discurso progressista e de esquerda não é exclusividade do PT. Precisamos de outras lideranças.

No Brasil ainda se fala muito em meritocracia. O que falta para a população entender a desigualdade social que assola o País?
Acho que não falta nada. A verdade é que as pessoas não querem entender. Até desenhar já foi desenhado. A construção que se faz, esse diálogo que a extrema direita propõe, tem que ser simplesmente ignorado. Não é possível que tenhamos a pauta dada por eles. Eu costumo falar que não é que vamos perder essa batalha, já perdemos. Eles são muito melhores em ódio e em imbecilidade. Eles são imbecis por completo. Eles odeiam por completo. Precisamos discutir um outro nível de intelecto, esse tipo de discussão não cabe mais. Por exemplo, racismo reverso? O Brasil tem umas coisas que parece que voltamos para os anos 20, 30.

Nas redes sociais vemos uma grande movimentação contra preconceitos. É somente discurso ou também é possível falar em mudanças efetivas?
Se pensarmos que nunca se elegeram tantas pessoas trans, LGBTs, como foram eleitos no dia 15 de novembro, podemos olhar por duas perspectivas. Uma, do copo mais vazio, de que é muito pouco se olharmos para diversidade da população, só que estamos mudando. Estamos puxando a corda para cá e os racistas, machistas e homofóbicos estão puxando a corda para lá. Daqui a cinco anos, quando pensarmos que o presidente da República foi eleito espalhando que o outro governo ia dar mamadeira de piroca e colocar kit gay nas escolas, as pessoas vão rir dessa sociedade em que estamos vivendo agora. E é para rir mesmo, é patético.

O Rio levou Crivella para o segundo turno. Ainda que ele tenha perdido para Eduardo Paes, o que você conclui?
O Rio de Janeiro é uma cidade sitiada. O Preto Zezé falou que as pessoas comentam que o Rio de Janeiro vota mal, mas ninguém se importa com o fato de que a cidade tem áreas dominadas por milícias armadas. Isso em um País que não tem guerra. É incabível pensar que há muitas áreas em que nenhum outro partido pode entrar e fazer sua campanha eleitoral, porque ali é dominado por um grupo armado que mata. E as pessoas aceitam isso. Não é só pensar como o Rio vota mal e, sim, como está dominado. É uma sociedade pobre de pensamento.

Para você a milícia também está na política?
Na política? A milícia está na presidência. Isso é fato, não é mais discutível, sabemos a relação dos Bolsonaro com a milícia do Rio. Foram eles que conseguiram se reeleger por 27 anos e essa família dentro da política cresce cada vez mais. Espero que possamos eliminar isso um dia. Mas eles estão lá, os três filhos e o pai. É muito difícil que os governos estadual e federal queiram mexer nessa casa de marimbondo. Para o Estado fazer isso terá que assumir um compromisso muito grande com educação, saúde e segurança. E esse tipo de coisa não se faz com munição, pólvora. É com saliva e trabalho social.

O País lidera o número de pessoas negras no sistema carcerário. Você enxerga parcialidade na Justiça?
Temos leis e leis. A lei não serve para todo mundo. Só que não é uma exclusividade do Brasil. O sistema prisional americano deu super errado, com o índice gigantesco de negros presos, mas virou uma indústria lucrativa. No Brasil o caminho é o mesmo, se prende muito ladrão de galinha. Ao invés de prender quem roubou um milhão, prende quem roubou R$ 10. Esse tipo de política é baseada na lógica do medo, na construção do marginal brasileiro, que é o negro, o nordestino na cidade grande. Eu acho que a saída para isso é a educação.

A intolerância religiosa cresceu?
A intolerância cresceu no País. O Brasil escolheu ser intolerante nesse momento, com toda máquina da família Bolsonaro. Quanto mais a gente for empurrado para esse lugar de intolerância e de quase querer apagar a história de um povo, eu, enquanto artista, sou empurrado para o lugar contrário. Mais: quero conversar com os meus ancestrais e saber o que posso fazer para chegar em um lugar relevante dentro da minha arte. Para mim, esse lugar que importa. A falta de espaço para os negros vem daí. Religiões de matriz africana são, cada vez mais, engolidas.

A maconha sempre esteve presente na sua vida. Como você vê a discussão sobre o assunto no País?
Primeiro, acho que o termo maconheiro, quando eles falam de mim, é quase como um neguinho favelado. É uma forma de querer diminuir a pessoa e invalidar o discurso. A minha conversa sobre legalização começou em 1993 e era muito sobre violência. Não sou cientista, médico, mas estamos vendo o mundo inteiro legalizando. E o Brasil está caminhando mais para o Irã e para a China do que o próprio EUA, que legalizou em 15 estados. A cannabis é uma planta muito forte e a ignorância é o melhor caminho para a criação de mitos. Legalizada, ela afeta a produção medicinal, têxtil e do próprio álcool. A ideia de que as drogas causam violência é um diamante da política de controle de massa. Essa mistura de drogas, religião e ciência só temos em países como o Brasil, de terceiro mundo.

Terminar seu novo álbum, “Assim tocam os meus tambores”, te transformou em um novo Marcelo?
Um amigo meu fala que não acabamos um disco, entregamos. Eu me valho dessa frase. Se deixar comigo fico mexendo pelo resto da vida. Foi um momento para descobrir que posso viver de maneira mais simples. Minhas contas eram altíssimas e de repente eu estava me vendo lavando banheiro e cozinhando, coisas que não fazia há muito tempo – e amo arrumar minha casa. Acho que nunca chorei tanto fazendo um disco na minha vida.

Como foi produzir um trabalho tão grande durante a quarentena?
Foi após o convite da Twitch, de formar um time de músicos. Resolvi tentar esse universo online. Depois da primeira live deitei na cama e parecia que eu tinha voltado do bar. Foi um sentimento de comunidade, de troca. Só que isso não me bastava e um dia me veio a ideia de fazer um disco via live streaming. Saí daquele lugar da raiva e ódio que estava no Twitter e transformei em empatia e amor. Luiza, minha esposa, que produziu o álbum comigo, diz que eu estava em pé, do lado da cama e, quando ela abriu o olho, eu falei: “tive uma ideia”. Na mesma hora ela entendeu que eu não tinha dormido a noite toda e foi, dali, que o álbum começou a nascer. Foi um baita trabalho em família.

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