A mídia mudou?

Nesse novo tempo de pandemia, de confusão, polarização e pós-verdade de toda natureza, as redes sociais tem cumprido papel extraordinário de vocalização e amplificação das mais diferentes vozes sociais, além de democratizar e igualizar o acesso de variados grupos e temas de toda natureza. Dentre os destaques, salta à vista a amplificação da voz, historicidade e do protagonismo negro. O talento e a habilidade e a crescente audiência, tem resultado no aumento da visibilidade e do debate sobre infindáveis camadas dessa agenda, e, principalmente, na consolidação de milhares de influenciadores negros com seus milhares e milhões de seguidores. O fato ganha relevância frente ao histórico dos negros na mídia. Mesmo quando os interesses mais diversos falaram mais alto, a parte negra da nossa diversidade racial precisou ser escamoteada, fosse com pó de arroz como os primeiros jogadores negros de futebol, fosse com embraquecimento da pele como aconteceu, por exemplo, com nosso icônico Machado de Assis. Da mesma forma, o lugar tradicional do negro na mídia em geral, por muito tempo foi o de serviçais, malandros, marginais, mulatas sexualizadas e as paginas policiais. Sem esquecer o blackface que campeou impunemente no teatro e televisão brasileira.

Juntamente com a democratização das redes os reflexos da luta antirracistas começam a movimentar as preguiçosas engrenagens da comunicação formal, Resultado: ascensão de jornalistas negros na apresentação de telejornais, reportagens, programas musicais e de variedades. A chegada dos negros nas propagandas e a incipiente presença de articulistas e comentaristas negros em importantes veículos escritos e televisados parece indicar o nascimento de um novo normal na relação do negro e da mídia no brasil.

Parece que definitivamente os negros saíram das páginas policiais para engrossarem o caldo dos espaços nobres e cadernos especiais

Parece que definitivamente os negros saíram das páginas policiais do passado para engrossarem o caldo dos espaços nobres, cadernos especiais e matérias de capa do presente, assim como, participar de espaços sensíveis e de poder nos veículos escritos como foi a chegada da filósofa negra Suely Carneiro e do professor negro de Direito Thiago Amparo no Conselho Editorial da Folha de São Paulo. Nunca antes na história do País a agenda e a presença negra haviam chegado tão longe no núcleo duro da mídia brasileira.

O acontecimento por si só tem um componente histórico e simbólico de grande relevância: a eugenia perdeu. Há grande potência para estabelecer um novo paradigma, que poderá ajudar tornar pagina virada, o racismo estrutural e o apagamento da estética negra na comunicação social brasileira.


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