A memória e o caderninho

A memória e o caderninho

Maitê Proença Do site Vida Boa Minha memória é um queijo suíço: a consistência tem bom sabor, mas os buracos são muitos. Marquei consulta com um neurologista depois de ouvir de minha filha que, não fosse minha facilidade para decorar textos, era certo que estaria com Alzheimer. Palhaça! Por via das dúvidas, fui ao doutor. Ele disse que estou normal, a vida é que se encheu de frentes dispersando a atenção de todos. É falta de foco, não de memória, quando você se encantar e for absorvida por um assunto, não vai esquecer. Quem disse, cara pálida? E o filme do Woody Allen a que assisti outro dia e já não consigo contar para ninguém? E o livro extraordinário da cabeceira de que não me recordo nem do título? E a piada engraçadíssima cujo final parece ter saído para passear na memória de outro? Quantas histórias repetirei cem vezes nesse teste de paciência que hoje imponho aos amigos? A vantagem é quando estes me recontam casos (sim, porque não vivo sozinha na ilha dos desmemoriados, há outros aqui, todos já tendo virado o Cabo da Boa Esperança, que é o tal onde Vasco da Gama assoprou cinquenta velinhas). Quando os amigos repetem histórias, mesmo aquelas de lascar em que fui protagonista, me farto de rir como se falassem do paquistanês da esquina, não é comigo. Naturalmente há ganhos… essa neblina que envolve o passado e confunde, também lhe confere charme: a vida dura e cruel ganhou contornos heroicos, momentos prosaicos envelheceram espertos, dores de amor viraram livros, desavenças perdoadas transformaram inimigos em irmãos. Pensando bem, ficou até mais bonito o passado. leia o artigo na íntegra