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‘A medalha em Barcelona começou com o Bebeto de Freitas’, diz Giovane Gávio

Os grandes nomes do vôlei brasileiros estão de luto por causa da morte de Bebeto de Freitas. Técnicos consagrados, jogadores, clubes e entidades prestaram homenagens ao comandante que levou o Brasil à medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Foi ele quem, com trabalho e visão de gestor, mostrou ao mundo o talento dos brasileiros na modalidade.

Giovane Gávio, técnico do time masculino do Sesc RJ e bicampeão olímpico nos Jogos de Barcelona, em 1992, e Atenas, em 2004, teve contato com Bebeto de Freitas no início de sua carreira. Após o Mundial juvenil, em 1989, ele foi convocado para uma excursão com a seleção adulta para os Estados Unidos e ficou no grupo para a disputa do Campeonato Mundial em 1990, no Brasil. Bebeto de Freitas era o técnico da seleção que ficou em quarto lugar.

“Eu trabalhei com o Bebeto no comecinho da minha carreira, me ensinou muito. Foi um cara muito importante para minha geração, principalmente. Nem vou falar da geração anterior porque sem dúvida ele transformou o voleibol, e acho que a medalha em Barcelona começou com ele. É uma perda grande para o vôlei e para o esporte brasileiro. Ele sempre lutou pelos atletas, pela limpeza do esporte contra corrupção, e sempre foi um técnico muito aguerrido, pois era assim como jogador”, disse.

Para Bernardinho, técnico do time feminino do Sesc RJ e que foi medalha de prata nos Jogos de 1984 sob o comando de Bebeto, é uma perda irreparável para o esporte. “Tive uma parceria, uma amizade de 43 anos com o Bebeto de Freitas. Tive com ele a minha primeira conquista nacional como jogador, que foi a primeira dele como treinador também. Ali nasceu essa amizade, essa parceria. Ele foi meu ídolo, minha referência como jogador, acreditou em mim e me fez seu capitão”, comentou.

O treinador aponta Bebeto de Freitas como um dos principais pilares da modalidade no País. “Ele foi o divisor de águas do vôlei brasileiro, o mentor da geração de prata, que fez do nosso vôlei um esporte popular e respeitado mundialmente! Foi ainda mais triste ele ter terminado sua vida longe do vôlei, esporte que ele tanto amava, em luta permanente contra dirigentes que se utilizavam do esporte”, continuou.

Para José Roberto Guimarães, técnico da seleção brasileira feminina de vôlei e do Hinode Barueri, Bebeto era um profissional que fez evoluir a modalidade. “Foi ele que me deu oportunidade. Foi um técnico à frente do seu tempo, que sempre pensou muito em como treinar pessoas, cada jogador, evoluir na parte tática e técnica, e era um estrategista da melhor qualidade, um dos melhores técnicos que conheci na vida”, explicou.

Sua maior lamentação é que Bebeto decidiu trocar o vôlei pelo futebol em determinado momento da carreira, pois sua família era bastante envolvida nesta modalidade – Bebeto era primo de Heleno de Freitas e sobrinho de João Saldanha. “Fiquei muito triste quando ele resolveu ir para o futebol, mas aquilo já estava meio incutido na cabeça dele. Era um sonho porque ele era apaixonado pelo Botafogo. Eu sabia que o Brasil e o mundo estavam perdendo um dos melhores treinadores do mundo. Agora, a gente fica mais órfão ainda com o seu passar”, lamentou.

Outra marca característica de Bebeto de Freitas foi lembrada pelo ex-jogador Xandó, que conquistou a prata na Olimpíada de 1984 sob o comando do treinador. Ele citou a bronca com o ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Carlos Arthur Nuzman. “É uma perda para mim como amigo, mas é uma perda também para o esporte de uma forma geral. É muito triste, é um da nossa geração que se vai. Foi um grupo que revolucionou o esporte e ele era um combatente leal pra caramba, que sempre bateu de frente. Perdi um grande parceiro nesse combate.”

Ele explicou que Bebeto chegou com uma visão diferenciada em 1981, quando se tornou técnico da seleção brasileira de vôlei, e implantou uma mentalidade diferente, pois já tinha essa vontade de fazer algo mais moderno. “A gente treinava pouco, duas ou três vezes por semana, mas ele veio com a visão de seleção permanente. Apareceu patrocínio, convenceu muita gente de que era importante investir e modificou a história do vôlei e do esporte no Brasil. Isso foi um divisor de águas do esporte brasileiro, que dali para frente passou a ser outra coisa. As confederações se modernizaram, logo na sequência veio judô, natação… O Nuzman apostou nisso, mas depois os dois viraram inimigos”, concluiu.