Cultura

Magia do cinema volta a Cannes, com Top Gun

Com as estrelas brilhando no tapete vermelho e a melhor seleção de filmes em anos, o festival mais importante do mundo celebra seu 75o aniversário com uma edição histórica

Crédito: Pascal le segretain

BLOCKBUSTER Top Gun: Maverick, com Tom Cruise, teve estreia na cidade francesa: ovacionado (Crédito: Pascal le segretain)

MISSÃO CANNES Estande Creative SP levou dez players do Brasil ao evento (Crédito:Divulgação)

“Deixamos as trevas em direção à luz”, anunciou a atriz Virginie Efira, apresentadora da cerimônia de abertura da 75ª edição do Festival de Cannes, na França. A transição do escuro da sessão para o palco iluminado é uma metáfora perfeita para o espírito que domina o evento em 2022: com a presença de grandes estrelas de Hollywood e uma incrível coleção de filmes concorrendo à Palma de Ouro, Cannes recupera o prestígio e volta a ser a maior vitrine do cinema mundial.

Enquanto astros como Julianne Moore e Forest Whitaker brilharam no tapete vermelho – Tom Cruise chegou no dia seguinte para a première mundial de “Top Gun: Maverick” –, a estrela da festa de abertura foi um político: o presidente Volodomyr Zelensky entrou ao vivo direto da Ucrânia.
“Vocês devem olhar para o que aconteceu com o teatro de Mariupol”, afirmou o líder ucraniano, referindo-se ao prédio destruído pelos bombardeios russos. “Ele era parecido com o local onde vocês estão reunidos hoje. Temos, mais uma vez, um ditador. E temos, mais uma vez, uma guerra pela liberdade”, disse. Ao citar o ano de fundação do festival, 1946, um ano após a vitória dos aliados na Segunda Guerra, lembrou o filme “O Grande Ditador”, sátira de Charles Chaplin ao líder alemão Adolph Hitler. “Precisamos de um novo Chaplin para nos lembrar que o cinema não é mudo.” Seu discurso foi aplaudido de pé e logo deu lugar à sessão de abertura, “Coupez”, do francês Michel Hazanavicius.

A escolha do júri do festival revela como a diversidade se tornou um dos grandes temas desse ano em Cannes. Presidido pelo ator francês Vincent Lindon, a comissão julgadora é formada pelas atrizes Jasmine Trinca (Itália), Noomi Rapace (Suécia), Rebecca Hall (EUA), Deepika Padukone (Índia), e os diretores Joachim Trier (Noruega), Ladj Lly (francês de origem africana), Jeff Nichols (EUA) e Ashgahar Farhadi (Irã). Com representantes de gêneros e origens diversas, o festival, que já foi acusado de machismo – até pouco tempo era exigido que as mulheres usassem salto alto no tapete vermelho –, tenta mostrar equilíbrio e adequação aos dias de hoje. A igualdade chegou, inclusive, até sua mais alta liderança: no ano que vem, Pierre Lescure, presidente do Festival desde 2014, cede seu lugar para Iris Knobloch, ex-diretora da Warner na Europa.

A disputa pela Palma de Ouro em Cannes tem reflexo no cinema em todo o mundo. Basta lembrar que “Parasita”, do sul-coreano Bong Joon Ho, levou o prêmio de melhor filme em 2019 antes de vencer o Oscar, uma surpreendente vitória para uma produção falada em outro idioma que não o inglês. Em 2021, “Mais uma Rodada”, do dinamarquês Thomas Vinterberg, também foi indicado a diversas estatuetas da Academia, assim como “A Pior Pessoa do Mundo”, de Joachim Trier, e “Drive My Car”, do japonês Ryusuke Hamaguchi, todos filmes lançados em Cannes.

Essa retomada é importante não apenas para elevar a qualidade de uma indústria que se tornou refém das produções de super-heróis, como acontece nos EUA, mas também para ampliar a globalização de títulos e a expansão de mercados cada vez mais pulverizados como consequência da popularização do streaming.

CINEMA, DE NOVO Exibido em 1964, em Cannes, o longa de Glauber Rocha foi restaurado pela Cinemateca Brasileira (Crédito:Divulgação)

Cannes mostra, porém, que a tecnologia e a modernização não são inimigas: um dos principais patrocinadores desta 75a. edição, com uma audiência de mais um bilhão de pessoas, é o aplicativo chinês TikTok, cuja marca se espalha pelas ruas da Croisette, a avenida onde acontece o evento. “Seria uma loucura ignorar esse meio de comunicação”, afirmou Pierre Lescure, presidente do festival. Entre os 21 filmes competindo pela Palma de Ouro, os favoritos são “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, “Stars at Noon”, de Claire Denis, “Armageddon Time”, de James Gray, “Triangle of Sadness”, de Ruben Östlund, e “Decision to Leave”, de Park Chan-Wook.

O Brasil não concorre diretamente a nenhum dos principais prêmios, mas também marca sua presença no festival. A RT Features, de Rodrigo Teixeira, é co-produtora de “Armageddon Time”, estrelado por Anthony Hopkins, Anne Hathaway, Oscar Isaacson e Jeremy Strong. O País também está representado no Mercado do Festival por meio do estande Creative SP, parceria entre o programa Cinema do Brasil, a secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e a agência Investe SP.

O Cinema do Brasil é um programa de promoção comercial do cinema brasileiro no mercado internacional, que tem como objetivo estimular a coprodução e a distribuição de filmes nacionais em outros países. O CEO André Sturm explica que, depois de dois anos parado, a parceria entre diversos players do mercado nacional é essencial para a retomada do setor. “Estamos felizes de juntar os esforços e voltar a Cannes nesse estande que acabou se tornando uma embaixada do Brasil. É nossa vitrine para mais de 30 mil profissionais da indústria. Aqui, além do glamour do tapete vermelho, há muitos negócios a serem feitos”, afirma. “Nosso objetivo é aproximar produtores brasileiros e internacionais, principalmente para futuras coproduções. Quando um filme tem dois ou mais países envolvidos, tem mais chance de conquistar espaço no mercado internacional. Isso, por outro lado, também ajuda a levar produções estrangeiras para serem realizadas no Brasil.”

Para o secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Sergio Sá Leitão, o CreativeSP é um programa inovador porque combina a capacitação das empresas, a participação em eventos estratégicos e o acompanhamento dos resultados posteriores. “Estamos também criando uma comunidade de empresas criativas de São Paulo que atuam ou querem atuar no mercado internacional. O contato entre elas permanece após as missões, com troca de experiências e de conhecimento”, afirma Sá Leitão. “A economia criativa gera 3,9% do PIB de São Paulo e 1,5 milhões de empregos. O potencial de crescimento é imenso, e isso passa necessariamente pela ampliação da presença das nossas empresas criativas no mercado internacional.”

Julia Saluh, Gerente-Executiva do CreativeSP na InvestSP, afirma que o fomento do audiovisual é parte da estratégia de promoção de negócios internacionais do Estado de São Paulo. “A InvestSP está expandindo sua atuação global desde 2019, começando pela abertura dos quatro escritórios internacionais (Xangai, Dubai, Munique e Nova York). Passo natural subsequente foi começar a participar de eventos, conferências e festivais internacionais mais representativos para o mercado”, afirma. “A economia criativa ganhou mais relevância ainda com a parceria com a Secretaria de Cultura, que gerou o CreativeSP. Estamos juntos unindo forças para atrair mais investimentos e mais empregos para São Paulo em um dos setores que mais cresce na última década, sobretudo no comércio internacional.”

O CreativeSP já começa a dar resultados ainda nos primeiros dias do festival. Karen Castanho, cofundadora da Biônica, veio ao festival para negociar a distribuição dos filmes “A Viagem de Pedro”, estrelado por Cauã Reymond, e “Bem-Vinda, Violeta”, dirigido por Fernando Fraiha, filme falado em espanhol e voltado para o mercado latino. “Busco agora uma empresa para realizar a coprodução de “Filho de Mil Homens”, baseado no romance de Valter Hugo Mãe. O projeto é da Biônica e Barry Company, mas gostaria de contar com uma produtora francesa ou de outro país europeu para que o filme chegue a outros mercados”, afirma Erika.

Outra empresária que já colhe os frutos da participação é Ana Arruda, CEO da Sétima Cinema. Com uma proposta voltada mais para a área da tecnologia imersiva, sua produtora cria metaversos e conteúdo em realidade virtual. Junto com a produtora Estúdio Admoni, de Amir Admoni, e o diretor Fabito Rychter, ela está ajudando a promover o único filme 100% brasileiro concorrendo no festival, “Lavrynthos”, que disputa o prêmio na categoria Cannes XR Award. “O Brasil é um líder criativo em realidade estendida. Vim atrás de possíveis clientes para meus produtos, mas também para comprar conteúdo de produtoras estrangeiras”, afirma Ana. No segundo dia do festival, ela já havia fechado a exibição de curtas-metragens de sua produtora em um festival em Paris, além de uma coprodução com uma empresa de Nice, cidade vizinha de Cannes. Além de glamour, o Festival de Cannes é um ótimo negócio.

SE ENTREGA, CORISCO!
Deus e o Diabo de novo na França

Em 2022, o grande destaque do cinema brasileiro em Cannes não foi um lançamento, mas um longa de quase 60 anos: Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ele volta a Cannes 58 anos depois de sua primeira exibição no festival, em 1964. Parte da mostra Cannes Classics, que reúne patrimônios cinematográficos, a nova versão foi restaurada em 4K pela Cinemateca Brasileira sob
direção de Paloma Rocha, filha de Glauber, e produção de Lino Meireles. A saga estrelada por Othon Bastos e Yoná Magalhães lotou a Sala Buñuel e fascinou a plateia de mais de 300 pessoas, entre brasileiros e jovens franceses. A estudante Corinne Levin, 17 anos, ficou surpresa com o cenário árido do sertão. “Não imaginava que no Brasil havia deserto”, afirmou. Antes da sessão, Paloma subiu ao palco e abriu o cartaz original de Rogério Duarte. A filha de Glauber aproveitou para alfinetar o governo Bolsonaro: “É simbólico resgatar esse filme aqui, enquanto a cultura está sendo destruída no Brasil”, afirmou, em meio a gritos de “fora, Bolsonaro”. “Assistir a esse filme novamente em Cannes é como um sonho realizado”, disse Meireles. “Viva Glauber, Viva o cinema brasileiro”, completou ele.