Comportamento

Lucro e morte na pesca ilegal do pirarucu

Peixe amazônico movimenta enorme economia paralela na região. Pesca ilegal em território indígena está ligada ao tráfico de cocaína na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru e tem relação com o desaparecimento de indigenista e de jornalista britânico

Crédito: Ricardo Oliveira

MANEJO Pescador carrega pirarucu em reserva sustentável no Amazonas: peixe atinge altos preços (Crédito: Ricardo Oliveira)

Conhecido como Bacalhau da Amazônia, o pirarucu é um peixe de carne abundante e saborosa, com pouquíssimos espinhos. Exportado para vários países, é o pescado mais valioso do mercado local: um pirarucu adulto de 150kg chega a custar mais de R$ 2 mil na floresta. Sua pesca é controlada, já que a exploração comercial das últimas décadas o levou à categoria de espécie sob risco de extinção. Mas o peixe amazônico também movimenta uma enorme economia paralela na região – e sua pesca ilegal em território indígena está diretamente relacionada com o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips no Amazonas. Bruno atirou no que viu – seu trabalho no Vale do Javari vinha resultando em inúmeras apreensões do pescado da região – mas pode ter acertado no que não viu: atingiu diretamente os interesses de cartéis de drogas que atuam na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, no Alto Solimões.

A pesca ilegal do pirarucu é peça importante de um imbricado esquema de atividades criminosas que se espalha pela região, como tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro, entre outros. Envolve rios, florestas e cidades da tríplice fronteira. Pelos mesmos afluentes do Alto Solimões em que se pesca o pirarucu navegam também cocaína, armas e o ouro resultante da mineração ilegal em terras indígenas. A tranquilidade para a livre circulação é garantida por ribeirinhos e pescadores cooptados pelos traficantes. Por sua vez, comerciantes de cidades da região emprestam seus negócios para lavar o dinheiro do tráfico. Foi em um desses afluentes do Solimões, o Rio Javari, que a embarcação de Pereira e Phillips foi vista pela última vez, no dia 5. O principal suspeito pelo desaparecimento dos dois, Amarildo da Costa de Oliveira, 41 anos, conhecido como Pelado, atuava como uma espécie de líder na região. Na terça-feira a polícia prendeu um segundo suspeito, Oseney da Costa de Oliveira, estranhamente conhecido por Dos Santos, e irmão de Pelado. Os dois são da comunidade ribeirinha de São Gabriel, no município amazonense de Atalaia do Norte.

DESCONTROLE Policia apreende peixes no Amazonas(abaixo), pesca regular em Carauari (Crédito:Bruno Kelly)

A vastidão da floresta dificulta muito o trabalho de fiscalização na região. Apesar disso, Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio), sempre foi um empenhado defensor das terras indígenas. O órgão, no entanto, vem passando por um processo de desmonte – com poucos recursos, pouca gente e uma realidade resultante de uma política governamental em que servidores comprometidos com sua missão institucional são colocados de escanteio ou punidos com exonerações. O próprio Bruno foi exonerado ainda no início do governo Bolsonaro do cargo de chefia que ocupava. Diante da ausência do Estado, vinha atuando como consultor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja): treinou a Equipe de Vigilância Indígena da Unijava (EVU) para que eles próprios mapeassem as irregularidades na área e denunciassem os invasores à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal (MFF), e seu trabalho foi o responsável por inúmeras apreensões de embarcações que levavam toneladas do pescado.

Divulgação

Em dezembro do ano passado, Bruno já havia apontado a gravidade da situação. Disse que, de acordo com relatos dos locais, a quantidade de invasões é comparável ao período anterior à demarcação das terras demarcadas. “Por isso é necessário que os indígenas busquem suas formas de organização, montando um esquema de monitoramento capaz de frear conflitos violentos”, defendeu. Em maio deste ano, ele falou sobre manejo do pirarucu na região e mencionou que pescadores do Javari estavam atirando contra as bases e a equipe de vigilância da Unijava. Na quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse que o indigenista e o jornalista “resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança, e aconteceu o problema”. Especificamente sobre Dom Phillips, que viajava a trabalho, disse que ele “era malvisto na região” porque “fazia muitas matérias contra garimpeiros, questão ambiental”. “Se mataram os dois, espero que não, eles estão dentro d’água e pouca coisa vai sobrar, peixe come, não sei se tem piranha lá no Javari”.

Para o pesquisador associado do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) Paulo Barreto, para além do desmantelamento de órgãos de fiscalização como a Funai há ainda um ambiente político no País, durante o governo Bolsonaro, que encoraja os criminosos que atuam na região. Servidores públicos que executam corretamente seu trabalho são perseguidos, como aconteceu com o próprio Bruno, exonerado ainda em 2019 por pressão do garimpo ilegal, e novas demarcações de terras indígenas estão paralisadas pelo governo. “A Funai se transformou em um órgão anti-indígena”, diz Manoel Chorimpa, da Unijava. “A gente percebe o abandono do Estado e se sente impotente.”