PANDEMIA * 2020

A logística da peste

O isolamento social prejudica a circulação de passageiros, mas impulsiona negócios de entregas rápidas de alimentos e de todo tipo de mercadorias

Crédito: /Jeenah Moon ORG XMIT

QUARENTENA Movimento no Uber e em outros aplicativos de transporte de passageiros cai 60% em março: cidades vazias (Crédito: /Jeenah Moon ORG XMIT)

Cidades vazias, lojas fechadas, população isolada. Assim como muitas atividades econômicas, a logística nunca mais será como antes da pandemia de coronavírus. Enquanto o transporte de pessoas sofreu um baque com o distanciamento social, derrubando o movimento de empresas como Uber, Cabify e 99 em 60% em média, na outra ponta a entrega de mercadorias se desenvolve de vento em popa, com expansão de deliveries de comida, farmácias e de compras online em até 60%. Se os carros estão sem passageiros, as motocicletas aceleram para cumprir a entrega de pedidos que não param de chegar. O caso da Rappi, uma das maiores empresas de delivery do mercado, é exemplar. A expansão de seus negócios tem sido consistente, principalmente nos segmentos de farmácia, supermercado e restaurante. “O aumento reflete o fato das pessoas seguirem a recomendação de ficar em casa e podemos ser um grande aliado nesse momento”, disse em nota. Para isso, a Rappi reduziu o prazo de pagamento aos restaurantes de 14 para 7 dias, fechou parcerias com associações para reduzir taxas de intermediação e ofereceu frete grátis para as pessoas acima de 65 anos..Já o iFood, líder em entrega de comida, registrou um aumento de 105% no cadastro de novos entregadores em março, elevando sua força de trabalho de 85 mil para 175 mil profissionais.

Do lado dos motoristas de aplicativo a situação é oposta. O motorista Marcelo de Paula, por exemplo, enfrenta dificuldades por causa da queda do mercado, que ele calcula em quase 80%. De Paula diz que, diante da atual situação, não teve mais como manter o carro que alugava por R$ 78 por dia. Antes ele chegava a faturar R$ 400 e agora sua receita diária não passa de R$ 60. “Fui obrigado a devolvê-lo para a locadora”, afirmou. “E agora estou usando meu próprio carro para fazer uma ou outra corrida”. Já o motorista Raphael Martins Gonçalves conseguiu o adiamento do pagamento das parcelas do financiamento do carro por dois meses, o que lhe dará fôlego para superar a fase de quarentena. “Até parei de trabalhar com receio da doença por causa dos meus pais idosos. Mas, como fui autorizado a fazer entregas pelo Uber Eats, que me garante em torno de R$ 17 por viagem, vou voltar porque preciso de dinheiro”, disse. Em vez de transportar passageiros, muitos motoristas de aplicativos estão concentrando seus esforços na entrega de comida.

RAPIDEZ Delivery de comida, remédios e outros produtos prospera e compensa parte da queda das vendas nos estabelecimentos (Crédito:João Carlos Gomes)

Novas oportunidades

Para Priscila Miguel, coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da Faculdade Getulio Vargas (FGV), a crise sanitária abriu uma grande oportunidade. “Muitos mercadinhos e restaurantes estão descobrindo na entrega uma forma de sobreviver nesse período, o que pode ser uma grande oportunidade se a empresa souber aproveitar”, afirma. Segundo ela, haverá uma queda na renda das pessoas, especialmente com a desaceleração de atividades como do Uber, que ajudavam muitas famílias a complementar suas receitas. Por outro lado, o aumento dos pedidos para Ifood, Rappi e outros sistemas de entrega ajudam a manter a distribuição das mercadorias que antes era feita diretamente pelos estabelecimentos. “É preciso que todos tenham consciência de que nada será como antes. Claro que os grandes continuarão comandando as operações, mas a entrada dos pequenos e a mudança na forma de atuação devem levar muitos empresários a repensar sua forma de trabalhar”, disse. A queda nas corridas da Uber levou o presidente executivo da empresa, Dara Khosrowshahi, a ter de se explicar com o mercado financeiro. Segundo ele, o negócio de transporte de pessoas chegou a cair 70% em algumas cidades. No Brasil, o grupo anunciou um programa de suporte aos mais de um milhão de motoristas, oferecendo descontos em consultas médicas na rede de atendimento privada. Enquanto a pandemia não cessa, cada um faz o que pode para sobreviver.

Negócio interrompido

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Arquivo pessoal

O motorista de aplicativo Marcelo De Paula viu o volume de passageiros no Uber cair quase 80%. Ele faturava R$ 400 por dia e atualmente sua receita diária não passa de R$ 60. Por causa disso, ele devolveu o carro que alugava para a locadora. Muitos outros motoristas estão fazendo o mesmo que Marcelo.

 

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