A live da morte

Na semana retrasada, o Facebook e o Instagram tomaram medida inédita e acertada em relação a Bolsonaro: derrubaram a live na qual o presidente associou Aids a vacina da Covid. Alguns dias depois desse primeiro revés, foi a vez do Youtube remover a transmissão ao vivo de Jair Bolsonaro dos canais do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) e no programa da Jovem Pan “Os Pingos nos Is”. Esta remoção foi motivada pelo fato de que é proibida a publicação de conteúdos de criadores que estejam sob alguma restrição, como é o caso do presidente.

Mesmo com o canal do Youtube temporariamente suspenso, o que impede Bolsonaro de enviar vídeos com novos conteúdos ou fazer transmissões ao vivo, não há um dispositivo que nos livre dos impropérios diários do presidente, alguns manifestamente dolosos. Eis o poder da autoridade presidencial: o poder da fala, da verborragia danosa, ruinosa, que, mesmo sob suspensão nas plataformas digitais, alcança os ouvidos de todos nós, irradiando de tantos outros canais, com o telegram e o whatsapp à frente, a palavra que fere e sacrifica.

Esse poder torna-se ainda mais nefasto porque o líquido amniótico do qual a performance comunicativa de Bolsonaro se desenvolve é o mesmo que nutre a seiva das fake news, da desinformação, da regressão. Ao aferrar-se a questões pedestres, um chefe de uma Nação rebaixa a inteligência de todos os cidadãos. Mas no caso em tela, há uma questão suplementar: o rebaixamento que Bolsonaro promove não atinge apenas a nossa inteligência, mas também o que outrora se designou de civilidade e, o que é pior, tem efeito letal.

As fake news bolsonaristas alusivas à Covid-19 são testemunho de como a desinformação converteu-se em commodity lucrativa para as big tech

As fake news bolsonaristas alusivas à Covid-19 são testemunho de como a desinformação converteu-se em commodity lucrativa para as big tech (que só as interditam quando ultrapassam todos os limites) e de como o chefe da nação se move ao sabor de escaramuças intermináveis criadas por ele para manter o caos, que ele almeja que seja permanente.

O caos que empobrece, enlouquece e adoece a todos nós. Empobrece, enlouquece e adoece porque o que diz diuturnamente Jair Bolsonaro sanciona práticas violentas, cria um ambiente deserto em direitos e justiça e projeta um horizonte anti-humano em que toda e qualquer tipo de violação é possível.

Parar Bolsonaro deve ser prioridade zero, é tarefa que se assemelha à tese defendida pelo filósofo alemão Theodor Adorno: “a tese que gostaria de discutir é a de que desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia. O problema que se impõe nesta medida é saber se por meio da educação pode-se transformar algo de decisivo em relação à barbárie (…). Considero tão urgente impedir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacionais por esta prioridade”.


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