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Entrevista

Marcelo Freixo, deputado estadual (PSOL/RJ)

A intervenção no Rio foi uma jogada eleitoral

Orestes Locatel

A intervenção no Rio foi uma jogada eleitoral

Eliane Lobato
Edição 23/03/2018 - nº 2518

“Essa é a minha irmã, que te adora mas está envergonhada de falar com você”. Assim, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) conheceu Marielle França, então com 18 anos, apresentada pela irmã, Anielle, que era aluna dele. Voltou a encontrá-la em grupos de jovens no Complexo da Maré, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro onde ela nasceu e morava. Mari, como ele a chama, acabou trabalhando onze anos em seu gabinete de deputado estadual, até candidatar-se a vereadora e ser a quinta mais votada em 2016. A história dessa mulher que lutava corajosamente contra as desigualdades sociais, de raça e de gênero, acabou na noite de quarta-feira 14, em uma emboscada que tirou sua vida e também a do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, ambos executados a tiros. “Nossa ligação era familiar, me sentia pai dela. Todos os dias eu falava com quatro pessoas: minha mulher, meus dois filhos e a Marielle”, disse. Nessa entrevista à ISTOÉ, o deputado condena o uso político desse crime e diz que o episódio coloca o Brasil entre “a democracia e a barbárie.”

Por que o mundo está chorando por uma Marielle que não conhecia?

Acho que choram de saudade do que gostariam de ter conhecido e do futuro que poderia ter sido. Em 2018, a Marielle poderia representar uma das poucas coisas que a gente conseguiu concretizar das manifestações de 2013, aquela crise gigantesca de representatividade. Ela era uma das poucas coisas concretas que conseguimos colher de lá. Ela estava ao meu lado naquelas e em todas as passeatas que fui, exceto essas últimas no Rio.

O que fica do assassinato dela?

A morte da Mari cria uma linha divisória entre democracia e barbárie. As falas da desembargadora, de juizes, que circulam na internet matando novamente a Marielle — depois do físico, tentam matar a história — não são por acaso. Há setores de direita que não aceitam que ela seja tão fortemente respeitada porque era mulher, negra, oriunda de uma favela. E viola qualquer condição ética mínima de respeito à dor. Então, quando se diz que ela era de uma facção, é de uma violência indescritível. O lugar em que ela teve mais votos foi no Jardim Botânico; o segundo foi a Barra da Tijuca; o terceiro, Copacabana (todos bairros nobres do Rio). Eu não sabia que essas facções estavam nesses bairros. Mas o mais repugnante foi a declaração do Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann.

O que ele disse?

Quero aqui dizer, publicamente, que é lamentável e não vou admitir que ele se utilize do corpo da Marielle. Ele deu uma entrevista dizendo que a morte dela é o maior exemplo de que a intervenção era necessária no Rio de Janeiro. É desrespeitoso, inaceitável, oportunismo barato. Ela virou um símbolo e não foi nós que fizemos, foi ela própria. Ninguém pode fazer uso político-eleitoral disso. É dor que provoca na gente, não dá para transformar em bandeira, não vamos deixar. Que o ministro tenha respeito pela dor alheia e não tente fazer a sordidez de usar do corpo dela como espaço político. Ela era contra a intervenção por achar que não funciona, que é eleitoreira e que pode gerar violência ainda maior nas áreas pobres. Quando a investigação for concluída, vamos entender quem fez e qual foi a motivação do crime. Antes disso, por favor, cale a boca.

A desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, escreveu em rede social que a vereadora era “engajada com bandidos” e a associou ao Comando Vermelho.

A desembargadora não é fake news. A infâmia não veio de um robô, veio de uma pessoa pública que ganha salário pago por nós todos. Ela alimenta o ódio e o preconceito, e tem responsabilidade pelas consequências de suas palavras. É muito grave. Entramos com representações contra ela, e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) está abrindo procedimento para averiguar. Esse é o grande debate que temos que fazer agora: a pobreza de raciocínio de ligar defensores de direitos humanos à defesa de bandido — associação enraizada na lógica da produção do medo, que por sua vez, alimenta a intolerância.

As investigações do assassinato estão andando a contento?

Disseram, na Delegacia de Homicídios que investiga o crime, que este é caso mais complexo que já pegaram. Foi coisa muito profissional. Os assassinos ficaram duas horas dentro de um carro sem sair para não serem filmados, deixaram para atirar em um trecho sem câmeras, atiraram de dentro de um carro em movimento, os tiros são todos lineares e compactos. É uma vingança sem nenhum vestígio e ameaça. A velocidade da investigação não pode ter o tempo da nossa angústia, por mais difícil que seja para nós. Precisa ser desvendado. O Rio nunca mais funcionará se isso não acontecer. Estamos acompanhando de perto, constituindo criminalistas, advogados.

Alguma vez pensou por que escolheram matar a Marielle, ainda em primeiro mandato, e não o senhor, que já confrontou a milícia de frente?

A mãe da Mari me falou no dia do ato ecumênico: “A minha preocupação sempre foi com você…” Minha segurança é preocupação de todos em volta. Mas sobre ela, não havia motivo para pensar que corria perigo, não havia qualquer ameaça, diferentemente de mim, que já recebi muitas, já soubemos de valores para me matar, planos. Eu ando com seguranças há 10 anos, desde que conduzi a CPI da Milícias, em 2008. Enfrentei a milícia que está na política. Mas estava pensando nos últimos tempos em dispensar a segurança. Agora sei que não é possível. Isso me dá desespero.

O assassinato da Marielle significa risco para todas as lideranças e ativistas?

Não tenham dúvida. Tivemos, ano passado, 66 assassinatos de defensores de direitos humanos no Brasil. A democracia não se consolida sobre esses corpos. Isso é muito grave. Caminha para o que há de pior no mundo: a barbárie. O que tem de liderança jovem negra ameaçada se sentindo vulnerável é enorme. O menino do Complexo do Alemão que está na rádio comunitária vê isso e pensa: posso ser executado amanhã. Por isso, também, a elucidação e punição dos culpados é a única alternativa para estes crimes.

Ela seria candidata nas eleições deste ano? A irmã será?

A Mari seria vice do Tarcisio Motta (pré-candidato ao governo estadual pelo PSOL) mas o meu projeto é que ela fosse senadora. A Anielle, irmã dela, não será candidata, isso foi uma publicação irresponsável, desrespeitosa. Sequer ligaram para o partido para confirmar, simplesmente publicaram uma mentira.

Por que a segurança pública no Rio parece insolúvel?

Vou falar das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), para dar um exemplo muito carioca desse debate. Nunca foi um projeto de segurança pública ou calcado nessa ideia. Todas as favelas da zona sul do Rio têm UPPs. Evidentemente, não são esses os lugares mais violentos. Mas a ideia era tornar uma parte da cidade viável para grandes acontecimentos e negócios. Isso não dá certo porque se ampara na desigualdade e mantém o matar ou morrer. O Rio tem um policial morto a cada dois dias e três pessoas mortas por dia pela polícia, centrado, fundamentalmente, na região metropolitana. Essa conta não existe nem em guerra civil declarada. O Rio tem seis mil desaparecidos por ano, nem na época da ditadura tinha isso. Quem está desaparecendo? Os números mostram que os caminhos da segurança pública estão equivocados.

O que domina mais o Rio, a milícia ou o tráfico?

Eu presidi duas CPIs aqui, das milícias, em 2008, e do tráfico e munições em 2011. Fizemos várias propostas, mas não foram executadas pelo governo. Na das milícias, fizemos um mapa mostrando de onde vieram, quem eram, como funcionavam, o braço político e o econômico. Trabalhamos em parceria com o Ministério Público (MP) e com a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais ) e conseguimos a prisão de todos os líderes milicianos. Mas não tiraram deles o braço econômico e o territorial. Resultado: hoje, 10 anos depois, está tudo pior. Milícia é máfia, é o único grupo criminoso que transforma domínio territorial em domínio eleitoral. O tráfico nunca elegeu ninguém, a milícia elege. A milícia não pode ser alvo das mesmas ações contra o varejo do tráfico de drogas. É preciso tirar o poder econômico que está no mercado imobiliário, nas taxas cobradas de vans, gás etc. Milícia não é estado paralelo, é estado leiloado. Os territórios dominados pela milícia, hoje, são maiores que os dominados pelo tráfico.

Como atacar esses problemas?

No tráfico de armas e munições, por exemplo, você pega tanto o tráfico de drogas quanto a milícia. As munições são feitas aqui dentro do Brasil, é um engano, cortina de fumaça, dizer que o problema está nas fronteiras. Em 82% dos homicídios cometidos dentro do Brasil com armas de fogo as munições e as armas são produzidas aqui dentro. É verdade que entra arma na fronteira mas não é verdade que o elemento decisivo seja esse. Não é que faltem ideias, propostas. Há quantidade enorme de estudos sobre isso. O que falta é vontade política. A manutenção da desigualdade interessa determinado setor da política. Interessa manter a região metropolitana violenta, com alianças políticas com os senhores da violência, que elegem prefeitos, vereadores, governadores etc. Os senhores da guerra fazem circular muito dinheiro no mercado financeiro. Os criminosos não escondem dinheiro debaixo do colchão.

A intervenção Federal ainda pode trazer algo positivo?

Não. E minha crítica nada tem a ver com os militares, que foram tão surpreendidos quanto eu. Temos várias propostas que gostaríamos que fossem encaminhadas, mas o problema é que o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) é um ex-governador em exercício. Não temos, portanto, com quem conversar. O que precisaria aqui não é de intervenção e, sim, de integração: militares, Polícia Federal, Marinha, todos que pudessem ajudar a somar. Mas, sem planejamento, não vai dar em nada, como não está dando. A decisão por uma intervenção no Rio, que está em décimo lugar no ranking dos estados mais violentos do Brasil, foi uma jogada eleitoral.

Por quê?

Porque o Rio é caixa de ressonância. Marielle era contra a intervenção, nós também. Não estou dizendo que não haja violência na favela, que o tráfico não seja violento — é muito violento. Mas todos os lugares do mundo em que segurança pública trouxe resultados foram projetos com respeito aos direitos humanos. Aqui, achamos que vamos resolver com tronco e chibatada. Entrar numa favela, matar 50 e ir embora foi o que fizemos a vida inteira e não resolveu nada. Existem outros caminhos que não matar e morrer.

 

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