A insustentável (re)construção do mito

A cada dia que passa, Bolsonaro vê a sua base derreter feito sorvete. Entre empresários, evangélicos e até no círculo dos gamers, as fileiras dos que vêm abandonando o barco governista engrossam a cada dia. Durante a campanha e no início do mandato, Bolsonaro era só afagos e atenção aos jogadores que hoje vê um dos maiores streamers de games do mundo, o brasileiro Alexandre Borba, o Gaules, afirmar: “Se fizer campanha, vai tomar um ban”. Borba mudou de lado.

Mas, ainda sim, Bolsonaro tenta se manter, mobilizando o discurso delirante de sempre, só que agora sem hipnotizar, tal como o flautista de Hamelin, fatias expressivas da sociedade. Voto impresso auditável, novo remédio contra a covid-19 (proxalutamida) e os reiterados absurdos permanecem no radar do presidente. Entre as exorbitâncias das falas do comandante do País, não devemos menosprezar os modos com os quais ele explora suas fragilidades corpóreas. O corpo frágil, doente, do presidente converteu-se em símbolo poderoso para catapultar a ideia de mito, desde a campanha de 2018. Para tanto, o presidente se expõe, pornográfica e obscenamente: imagens escatológicas de Bolsonaro no leito de hospital de forma nada apropriada para um chefe de uma Nação contrariam a etiqueta protocolar para casos dessa natureza, uma vez que autoridades públicas não expõem (pelo menos não deveriam) sua vulnerabilidade física.

Bolsonaro tenta se manter, mobilizando o discurso delirante de sempre, só que agora sem hipnotizar, tal como o flautista de Hamelin

Vem dos tempos absolutistas análises que põem sob exame o corpo do governante. Para o pensador Ernest Kantorowicz, especialista em teologia política, o rei tem dois corpos: o corpo visível, material, frágil e o corpo jurídico, místico, invisível. O primeiro corpo corresponde ao rei como homem e o segundo ao rei como função. A ascensão dos estados modernos desincorporou o poder, ou seja, o corpo deixa de ser um componente para a legitimidade do governante. O pensador Claude Lefort é taxativo: “nada de poder ligado ao corpo”.

Ao divulgar à larga suas imagens na cama de hospital, Bolsonaro tenta recompor a figura do mito em frangalhos. Com esses movimentos, sinaliza, em forma de promessa, que, assim como em 2018, pode vencer a morte e os inimigos para, em nome dos desígnios divinos, retomar o projeto de destruir, ops, de construir o País. Só resta esclarecer de que Deus está falando.


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