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A inflação mostra as garras

O atual ciclo de alta de preços é o mais nocivo em 30 anos. Ao contrário dos picos de 2002 e 2016, a escalada acontece com um governo que investe contra o equilíbrio fiscal, acelera gastos populistas para as eleições e provoca instabilidade política permanente. As incertezas vão se prolongar até 2023

Crédito: Amanda Perobelli

DESGOVERNO Faixa critica o presidente em São Paulo, em março: com poder de compra menor, a população é obrigada a se adaptar (Crédito: Amanda Perobelli )

Até hoje o fantasma de inflação assusta a sociedade brasileira, habituada ao descontrole nos preços no passado. Desde o Plano Real, apenas durante a crise que antecedeu a primeira eleição de Lula (em 2002) e em meio ao colapso do governo Dilma (em 2016) ocorreram altas semelhantes. Nos dois casos, para recolocar a economia nos trilhos foi necessário um novo governo que controlasse as contas públicas mantendo o tripé econômico em vigor desde os anos 1990 (câmbio livre, responsabilidade fiscal e regime de metas de inflação). Agora, o cenário é outro.

Diante de mais 13 meses de governo Bolsonaro, as dúvidas se multiplicam. A inflação já atingiu os dois dígitos (10,25% em 12 meses), perto da máxima no final do governo Dilma, e o governo Bolsonaro acaba de implodir a “âncora fiscal”, o teto de gastos constitucional que havia sido introduzido exatamente para dar previsibilidade às contas públicas. A medida permitiu o ciclo histórico de baixas nas taxas de juros. Hoje, ao contrário, o presidente anuncia que dará reajustes a todos os funcionários públicos, e as prováveis surpresas com bondades eleitoreiras ainda não são conhecidas a dez meses das eleições. A farra com um fundo de R$ 5 bilhões para os partidos no próximo pleito é apenas o prenúncio de novas gambiarras orçamentárias.

Economistas são unânimes em apontar um cenário difícil para 2022, com inflação ainda elevada e crescimento em queda. No dia a dia da população, essa realidade é sentida de forma profunda. Marlene Felix, 52 anos, feirante há 30 anos, diz em meio a barracas vazias, na zona oeste de São Paulo, que a inflação piorou um quadro que já era duro pela pandemia. Ela conta que, inicialmente, as pessoas começaram a encomendar as frutas por aplicativos e o movimento caiu. A alta dos preços agravou tudo. “As pessoas deixaram de vir cedinho para pegar o melhor produto. Elas vêm no final para pegar a xepa. As vendas caíram muito. Quem tem dinheiro para comprar frutas importadas? Figo? Os clientes hoje só levam o básico como maçã e banana. Os pobres não comem pera”, queixa-se.

Marco Ankosqui

“Os preços estão um absurdo!”, esbraveja a aposentada Sueli Maria, de 74 anos. Com o carrinho cheio de frutas e legumes, já na saída da feira, disse ter gasto R$ 200 reais para uma compra que ela sozinha consome em dez dias. “Se dependesse apenas da minha aposentadoria de R$ 2.300, eu estaria debaixo da ponte. Sou viúva, meu pai me deixou alguma coisa, então eu consigo me virar. Ainda não está como na época da hiperinflação, não tem como comparar, mas cada dia que passa se compra menos.” Nilson de Andrade, de 28 anos, trabalha há nove anos como açougueiro. Consegue comprar as carnes do estabelecimento com desconto “às vezes”. “Nunca tinha visto os preços da carne subirem tanto como agora. Até o frango foi de R$ 7 para R$ 27 o quilo, é demais.” Ele explica que a carne de costela é a mais procurada, pois é muito mais barata que o filé mignon.

Os empreendedores também precisaram se adaptar. Bruna Cardoso, 24 anos, é a principal gestora de uma empresa de turismo, a For Fun Tours, e deixou de alugar escritório próprio para adotar o coworking por causa da alta no aluguel. “Não consegui uma boa negociação com a antiga proprietária. O aluguel estava alto demais. Deveria ter vindo há mais tempo. Aqui não preciso me preocupar com água, luz, internet e a variação que esses serviços sofrem.” A diretora do local (Club Coworking), Patrícia Coelho, diz que ela expandiu um andar no seu endereço da Faria Lima, centro financeiro e de startups. “As empresas foram se acostumando com o conceito já antes da pandemia, mas foi com o modelo híbrido de trabalho que o coworking ganhou peso. Se a empresa precisa demitir muitos funcionários ou crescer rapidamente, com o coworking ela não terá o custo de infraestrutura. O IGP-M na casa dos 30% inviabiliza muitos negócios”, explica.

“A cultura inflacionária se traduz em expectativas. Isso é pior em países com históricos como o Brasil. Mas já temos um certo nível de maturidade” Mauro Rochlin, da FGV

Famílias

A perda de valor do real exige muito jogo de cintura das famílias. É o caso de Luciana Ramos de Leopoldo Assunção, 38 anos, cozinheira, mãe dos gêmeos David e Lucas, de três anos, casada com o empresário Duarte Leopoldo, 31. Ele possui uma empresa de adestramento de cães e atende na casa dos clientes. Já ela faz marmitas, que vende via rede social. Ela também abriu uma cantina ao lado de uma igreja evangélica de Osasco, onde moram. “Como eu trabalho diretamente com alimentos, preciso ficar de olho nos preços. Pego folhetos de mercado, recebo promoções via WhatsApp e vejo sempre o site dos supermercados”, ensina. Ela diz que não vale a pena ir de Uber para o supermercado e assim economizar combustível, pois o preço do serviço por aplicativo também subiu. O combustível, aliás, é o item que mais prejudica a família, já que ela entrega as marmitas e o marido se desloca para atender seus clientes em suas casas. “Estamos há dois meses nessa casa em Osasco (SP). A imobiliária decidiu não negociar o reajuste conosco e então nos mudamos para cá”, diz. O casal consegue uma renda mensal bruta R$ 12 mil, mas precisa descontar os insumos para as refeições e o combustível. “Todo mês colocamos na ponta do lápis”, diz Leopoldo. “Se os alimentos aumentarem muito, não valerá a pena e a Luciana acabará pagando para trabalhar.” Luciana conta que no ano passado já havia repassado um aumento de 50% nas marmitas, estava segurando, mas vai aumentar novamente o valor em 30%.

A família do engenheiro Bruno José Alvez, 31, e da dona de casa Juliana Alvez, 30, também precisou se adaptar. Eles descobriram que em uma rede de supermercado, no bairro do Limão, em São Paulo, o achocolatado favorito de Manuela, de três anos, estava em conta, então levaram seis pacotes e outros itens como frango, peixe e iogurte. O marido é engenheiro civil, mas desde a pandemia trabalha como corretor de seguros. Eles adquiriram a franquia de uma empresa e estão reformando o apartamento próprio, por isso moram de aluguel na Zona Norte de São Paulo. “Buscamos promoções pela internet.” Para comprar roupas para as crianças e fugir dos preços altos, foram pela primeira vez ao Brás, bairro de comércio popular no centro de São Paulo. “Gostamos tanto que fomos três vezes. Nem fomos mais ao shopping”, conta Alvez. Segundo ele, “todo o serviço de construção parou e os preços dos materiais de construção aumentaram muito. O aço, o cimento, tudo. Mas os projetos estão começando a aparecer de novo. Quero conciliar as duas carreiras, em seguros e como engenheiro.”

A inflação se espalhou quando as pessoas imaginavam que a pandemia já estava ficando para trás. Não há previsão de melhora nesse quadro no curto prazo. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê um aumento médio de 21% nas contas de luz em 2022, depois de subir 25% neste ano. A inflação do aluguel (calculada pelo IGP-M) atingiu 36,8% em 12 meses. Neste ano, a gasolina acumula alta de 73%. O gás de botijão, que já ultrapassou R$ 100, subiu 36,4% este ano. E a Petrobras já sinaliza alta para as distribuidoras que pode dobrar o valor do gás em 2022, num efeito multiplicador para a economia.

Marco Ankosqui; Cesar Diniz

Sem crescimento

Com a escalada dos preços, o próprio governo já prevê que esse ano o índice IPCA fechará em 9,70%. Também já reconhece que o crescimento em 2021 e 2022 será menor do que o previsto, ainda que faça projeções consideradas superestimadas. Ao invés de o País crescer 2,1% no próximo ano, como imagina a equipe de Guedes, o mercado prevê alta inferior a 1% (segundo o relatório Focus, do BC). O economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados, acha que esse índice será zero. Grandes bancos já trabalham com um cenário negativo. Para Vale, é até possível que a economia já esteja em recessão técnica neste momento, a depender do índice de crescimento no terceiro trimestre, a ser divulgado no início de dezembro. Para o economista-chefe da MBA, o panorama atual pode não configurar mais uma inflação de demanda, mas uma alta de preços que passa a se retroalimentar. O chamado “índice de difusão” mostra que há um aumento generalizado em todas as áreas. “Isso preocupa. Os preços começam a se disseminar e fica mais difícil produzir o movimento de queda”, alerta o economista Mauro Rochlin, da FGV.

O que a classe média passou a sentir esse ano já era percebido pelos mais pobres no ano passado. Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ressalta que o fenômeno atual é atípico. Foi impulsionado pela pandemia, depois pela alta no câmbio e na energia. No início, a alta se concentrava nos alimentos, mas atualmente a inflação se tornou “mais democrática”, afetando toda a sociedade. Por exemplo, impactando a aquisição de veículos e as despesas pessoais. “A família de renda mais alta tem mecanismos para se defender, possui reservas e pode cortar gastos sem perder a qualidade de vida”, afirma. A avaliação de Moreira bate com a do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo a entidade, a diferença entre a inflação para as famílias mais pobres e as mais ricas deve diminuir no ano que vem. O movimento deve ocorrer à medida que os itens consumidos pelas rendas mais baixas (como alimento) sofrerem um alívio, enquanto os valores de serviços e bens industriais (mais consumidos pelos ricos) devem sofrer mais altas.

Até o momento, ninguém diz que há o risco de hiperinflação, fenômeno que marcou as décadas de 1980 e 1990, quando a inflação chegou a superar 80% ao mês e quase atingiu 500% ao ano. Foram 15 anos de altas mensais acima de dois dígitos. Sucessivos governos passaram a anunciar pacotes econômicos que só agravaram a situação (sete, ao todo). Em 1986, o então presidente José Sarney abriu a trilha com o Plano Cruzado, que congelou preços e salários, o que gerou desabastecimento e ágio em produtos básicos. Era a época de prateleiras vazias, bois escondidos no pasto e dos “fiscais do Sarney”, que chamava a polícia e bradavam contra o comércio que remarcava as etiquetas. Em 1990, a situação foi agravada pela “bala de prata” do governo Collor: o confisco das contas bancárias e da poupança. A estabilização da moeda só veio em 1994, com o Plano Real.

Já se especula se o Brasil atual pode seguir o caminho da Argentina, que tem hoje uma inflação anual na casa de 50%. Mas esse ainda é um cenário pouco provável. Rochlin faz, no entanto, a ressalva de que “a cultura inflacionária se traduz em termos de expectativas. Isso é pior em países com históricos como o Brasil”. A busca de proteção por meios de mecanismos de indexação pode sedimentar o caminho para um novo patamar inflacionário. “Mas já temos um certo nível de maturidade. A política fiscal não vai ser de todo irresponsável”, afirma o economista. Há outro fator que pode frear o avanço dos preços. Por causa da informalidade e da queda na renda haverá um freio para a alta de preços, acredita Moreira. Atualmente, a taxa de desemprego é de 13,2%, com 13,7 milhões de desempregados, segundo o IBGE. “A grande preocupação dos especialistas na minha área é o impacto na população de menor renda. Esse é o grande desafio da atual geração”, afirma. Ele aponta que, mesmo com a provável queda dos índices no próximo ano, a situação será normalizada. “Para a população, os preços não vão cair. Eles vão subir menos do que em 2021 Mas há uma perda acumulada de mais de 20% no poder de compra nos últimos anos”, alerta.

Os especialistas acreditam que a inflação brasileira poderá ser freada pelo ciclo de alta de juros imprimido pelo Banco Central. Após atingir a mínima histórica em agosto de 2020 (2%), a taxa atingiu 7,75% em outubro (alta de 1,5 ponto percentual, a maior desde dezembro de 2002), e deve ter expansão semelhante, ou maior, em dezembro. O problema é que a Selic de dois dígitos encarece o crédito e diminui a atividade econômica. Esse será o preço a pagar para recolocar a inflação nos trilhos. “Vamos ver uma desaceleração muito forte no crescimento com inflação ainda alta. É o que nos espera”, alerta o professor da FGV. É o temido cenário de “estagflação”, a alta nos preços combinada com estagnação na economia. “Esse risco existe. Vivemos isso há pouco”, diz Moreira. Ainda que a inflação esteja em alta no mundo, o fenômeno no Brasil é causado principalmente pelo próprio governo. “Não há gestão crível de política econômica”, critica Vale. Para ele, o governo está perdendo tempo, ao invés de se ajustar à realidade, e o próximo governo precisará ter um compromisso firme com o controle fiscal. “Hoje, não estamos fazendo o que deveria ser feito, e estamos fazendo aquilo que não deveria ser feito”, resume.