A igreja mundial do liberalismo

Irmãos, arrependam-se! A ignorância é um pecado mortal!

O pastor gritou a plenos pulmões do ponto mais alto da escada cenográfica que decorava o palco, e emendou: “Nenhum pecado é maior do que não se informar sobre seu portfólio!

O Mercado nos deu o livre-arbítrio justamente para tomarmos as rédeas de nossas carteiras! Amém, pessoal?

Amém! Repetiram os fiéis em uníssono. O pastor sorri, vitorioso, e continua num tom mais íntimo:

“Se você, minha amiga, meu amigo, está preso numa posição desfavorável, passando por um momento difícil, pode ter certeza de que Ele não vai abandoná-lo e, num gesto teatral, apontou com os dois braços para o gigante símbolo da Igreja Mundial do Liberalismo, ou IML, no centro do palco.

Em vez da tradicional cruz presente em algumas religiões, o símbolo da Igreja Mundial do Liberalismo são as duas axis x e y de um gráfico, com uma seta verde subindo em diagonal, os fiéis vão à loucura.

– Sim irmãos! Acreditem! O Mercado é soberano e Ele vai nos salvar! Amém, pessoal?

– Amém, Amém, Amém! Ecoava no templo.

– Talvez sua carteira esteja passando por um momento difícil… Talvez você tenha apostado todos os seus recursos numa ação lixo e agora você está aí, descrente… Os fiéis se entreolharam afirmativamente.

– Não tema! Mesmo que você caminhe por um vale de volatilidade, o Mercado, onipresente, virá oferecer a salvação.

– ROE! ROE! ROE! Gritam os fiéis frenéticos. Na Igreja Mundial do Liberalismo é assim, “o Mercado é o Senhor
e nada nos faltará”, diz a faixa na entrada do templo.

Tudo começou num pequeno sobrado próximo à Bolsa de Valores, quando a pandemia do corona derrubou o preço do petróleo e destruiu mercados mundo a fora.

Um punhado de investidores, liderados pelo então ministro da Economia, decidiu que era hora de eternizar as palavras do profeta Milton Friedman e que precisavam manter acesa a chama Capitalista.

O corona, acreditavam, era apenas mais uma provação que teriam que superar e em pouco tempo reuniram multidões. Ai, quando um dos maiores bancos do país quebrou, a IML se apressou em comprar suas agências nas principais cidades, transformando-as em templos sagrados.

Foi um golpe de mestre. As agências-templo eram a tangibilização da crença na mão invisível do Mercado e na Salvação dos Lucros. Não tardou para que os políticos percebessem o crescimento dos fiéis.

A bancada da IML ganhou força no Congresso para atender aos interesses dos seguidores-investidores, o presidente, oportunista, anunciou que havia se convertido e sua popularidade foi catapultada a níveis nunca antes vistos.

Como toda igreja que se preze, a IML também tinha seu anjo negro, vermelho, no caso. Um sujeito barbudo que atendia pelo nome de Lulacífer e que representava a soma de todos os males.

Crianças eram doutrinadas, desde a mais tenra idade.

E aquele, cujo nome não pode ser repetido, estava sempre à espreita, em comícios pagãos, oferecendo propinas pecaminosas e viagens para a Disney.

Aprendiam que cair numa dessas seduções levaria o infeliz à danação eterna, ou pior, ao Socialismo. As almas venezuelanas vão arder pela eternidade.

Com o dízimo de milhões de fiéis, em dólar, a IML cresceu e se espalhou pelo mundo, desbancando religiões milenares.
Hoje, 30 anos depois, o Brasil ainda enfrenta um ou outro problema, é verdade, o desemprego atinge mais da metade da população, o PIB anual continua abaixo de 1% e o dólar bateu B$ 20 Bolsonaros, mas nem tudo está perdido.

Para o delírio dos fiéis, o líder da bancada da IML garantiu: a reforma tributária desse ano não passa, porque o Mercado é Pai! Amém pessoal?


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