Cultura

A herança sinistra de Michael Jackson

“Deixando Neverland” estreia no Brasil com relatos de pedofilia por parte do Rei do Pop. Eles prejudicam o legado do músico e sua obra está sendo banida, apesar da defesa de fãs e parentes

Crédito: Jim Ruyman-Pool/Getty Images

AÇÕES O músico americano Michael Jackson em 2002, quando respondia a uma segunda acusação de abuso sexual, da qual foi absolvido: “Tenho os melhores advogados do mundo” (Crédito: Jim Ruyman-Pool/Getty Images)

“Parecia um conto de fadas”, diz Joy Robson, mãe de Wade, um dos meninos que o cantor e compositor americano Michael Jackson (1958-2009) levou com a família para o seu rancho Neverland, nos anos 1990. O documentário “Deixando Neverland” (Leaving Neverland) trata de pôr abaixo o cenário a Terra do Nunca, onde Jackson pontificava como benemérito universal das crianças. Na realidade, segundo o diretor inglês Dan Reed, ele usava a propriedade para fazer sexo com dezenas de meninos e ludibriar as famílias, muitas delas destroçadas ao longo do processo. “Eu considerava Michael um filho meu”, diz no documentário Stephanie, mãe de James Safechuck , que se disse abusado na infância pelo músico. “Ele parecia adorável. Mas era pedófilo. Dancei e festejei quando ele morreu.”

Joias por sexo

A primeira parte do documentário de 240 minutos estreia no Brasil pela HBO dia 16, às 20h, e segue na noite seguinte. Ele compreende longas sessões de depoimentos de dois homens que dizem terem sido abusados na infância por Michael Jackson. São eles o coreógrafo Wade Robson, de 36 anos, e o cineasta James Safechuck, 40. Parentes e esposas também dão testemunhos. As falas são entremeadas de sequências inéditas em Neverland, programas e cenas de tribunal. Entre 1993 e 2005, Michael enfrentou dois processos por pedofilia. Pagou à família de Jordan Chandler US$ 25 milhões para encerrar o processo e US$ 10 milhões à de Gavin Arvizo, seu último caso tornado público, e foi inocentado.

Robson e Safechuck deram depoimentos em favor do artista. A família deste último ganhou uma casa e o menino, dezenas de joias, em troca de favores sexuais, diz ele. Robson e a mãe, australianos, obtiveram vistos de permanência e moradia nos EUA por intermédio de Jackson. Hoje, dizem que Jackson os pressionou a comparecer aos tribunais. Os dois mudaram de ideia quando não conseguiram mais conter o trauma do abuso na infância depois de se tornarem pais. Em 2013, reabriram o caso e pediram indenização, mas os juízes indeferiram os pedidos por falta de provas.

Safechuck e Robson contam suas histórias em detalhe. O primeiro não era fã, mas, aos 9 anos, encontrou Michael em gravações de comerciais. “Virou meu deus”, diz. “Não vi maldade no que fazíamos. Ele me ensinou a me masturbar e a fazer sexo, como se fosse o resultado natural do nosso amor. Ele me deixava de quatro na cama, olhando para o meu ânus, enquanto se masturbava até ejacular. Enquanto isso, eu pregava o olho na réplica tridimensional de Peter Pan que ele tinha no quarto.” Michael se infiltrava na família e prometia orientar o garoto para convertê-lo no “novo Spielberg”.

ASSÉDIO Mensagens e desenhos amorosos enviados via fax ao menino Wade Robson por Michael Jackson em 1990: “Sinto falta de você, Baixinho. Traga agora sua cabeça de maçã”

Bênção de Deus

Robson tinha 5 anos em Melbourne quando começou a dançar como o ídolo. De passagem pela Austrália, o músico se encantou pelo menino e o convidou a visitar Neverland com a mãe, Joy, e a irmã, Chantal. Elas aceitaram o convite. Joy acreditava que Wade tornou-se protegido da pessoa mais famosa do mundo. Enquando a duas eram levadas de limusine para a Disneylândia e o Grand Canyon, Wade insistia em ficar em Neverland. Em vez de aulas de dança, era iniciado no sexo. “Michael e eu fazíamos sexo por todo o rancho”, conta Robson. “A gente se beijava na língua e se roçava. Depois, ele praticava sexo oral em mim e me fazia apertar seus mamilos. Aí ejaculava. Um dia eu me vi diante de seu pênis adulto e o chupei. Eu só tinha 7 anos. Dizia que nossa relação era bênção de Deus. Minha mãe estava no quarto ao lado e não notava nada.”

Michael orientava as crianças a manter segredo e a desconfiar das mulheres. À medida que alcançavam a puberdade, davam-se conta de que eram substituídos por mais jovens. “Era um padrão”, diz Safechuck. Robson diz que ficou com ciúmes de Macaulay Culkin quando se viu suplantado pelo ator mirim. Como outros antes, ele foi expulso de Neverland.

Os dois decidiram contar tudo como gesto de reparação a outras vítimas e alerta aos pais. “Os nossos erraram”, diz Robson. Safechuck se diz até hoje apaixonado por Jackson e perturbado pelo que ocorreu. “Revelar tudo foi redentor”, afirma. “Mesmo assim, ainda trabalho para me resolver.”

O filme causou escândalo ao estrear em 25 de janeiro no Sundance Film Festival. A família de Jackson convocou advogados para processar os acusadores e os produtores, HBO e Channel 4. Os fãs promovem protestos, com denúncias contra Robson e Safechuck pelas redes sociais. “Deixem o homem descansar em paz”, disse Jermaine Jackson, irmão do artista.

Michael Jackson, porém, não tem mais a eternidade para descansar. Em tempos de #MeToo, o estrago à reputação do Rei do Pop se estende ao legado artístico. Emissoras de rádio, como a BBC 2 de Londres, retiraram suas canções da programação. Até a apresentadora Oprah Winfrey, que defendeu o músico no passado, assistiu ao filme e concluiu que ele não passava de um vilão e não consegue mais ouvir suas músicas. “Acreditei que Michael era vítima de maus-tratos”, disse Oprah. “Mas me enganei.”

Meninos abusados

No sentido horário: Michael Jackson com Wade Robson, 7 anos, em 1989; com James Safechuck, 9 anos, em 1987; o coreógrafo Wade Robson, de 36 anos, o diretor do documentário Dan Reed, e o cineasta James Safechuck, de 40 anos: depoimentos sobre pedofilia

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