Comportamento

A herança maldita de Abdelmassih

Condenado a 181 anos, ex-médico sofre nova derrota na Justiça em ação por danos morais movida pelo filho adotivo e vê a família abandonar seu sobrenome

A herança maldita de Abdelmassih
ESQUECIMENTO Abdelmassih (alto da página) a caminho da prisão domiciliar; Vicente e Soraya (acima) agora só usam o nome materno (Crédito:Editora Globo / Agência O Globo)

O ex-médico Roger Abdelmassih deixou uma herança maldita para sua família. Seu nome virou um estorvo. Condenado a 181 anos de prisão pelo estupro de 37 pacientes e atualmente cumprindo prisão domiciliar por problemas de saúde, ele acaba de sofrer mais uma derrota na Justiça: seu filho adotivo, o médico Vicente Ghilardi, ganhou uma ação contra o pai por danos morais, que lhe renderá uma indenização de R$ 30 mil. Na decisão a favor de Vicente, a desembargadora Fernanda Gomes Camacho, do Tribunal de Justiça de São Paulo, disse que ele sofreu constrangimento no âmbito profissional, familiar e pessoal pelo escândalo envolvendo o nome Abdelmassih. Durante 15 anos, Vicente trabalhou na clínica de reprodução assistida do pai e tinha 1% de participação no negócio. Depois que Abdelmassih foi condenado e preso, ele continuou trabalhando com reprodução assistida e sofreu prejuízos profissionais e tentativas de penhora dos bens pessoais.

“Eles têm o mesmo ramo de atividade, o mesmo sobrenome e isso acabou afugentando grande parte da clientela de Vicente”, diz o advogado Marcelo Giraldes. “O principal não é o valor da ação, mas a decisão ter dissociado o filho médico do pai. Ele espera não ser lembrado mais como um Abdelmassih.” Vicente atende hoje na Clínica Embryo Fetus, do especialista em medicina fetal Sang Cha, junto com a irmã, a embriologista Soraya Ghilardi. Os dois são filhos adotivos do ex-médico e ambos abandonaram o nome Abdelmassih, passando a utilizar apenas o sobrenome da mãe. Pelo menos dois netos de Abdelmassih fizeram pedidos judiciais para mudar de nome. Atualmente, o médico cumpre sua pena num luxuoso apartamento em São Paulo. Sua defesa alega que ele precisa de tratamento permanente por conta de uma insuficiência cardíaca crônica.

ACONCHEGO Alegando problemas de saúde, o ex-médico deixou a cadeia e vive em um apartamento de luxo (Crédito:Claudio Gatti)

“A gente sabe que dificilmente encontrará bens do Roger e a clínica tem muitos credores”, diz Giraldes. “Eu não sei se ele perdeu tudo, mas os credores não conseguem localizar seus bens”. O pedido inicial de indenização era de R$ 100 mil, mas foi reduzido para R$ 30 mil. Enquanto exerceu a profissão, Abdelmassih fez fortuna. A riqueza do médico era estimada em cerca de R$ 100 milhões em casas, carros, joias, obras de arte e fazendas de laranja — ele era um dos grandes produtores da fruta no estado. Roger gastou muito com advogados, mas as condenações criminais não tiveram repercussão na área cível. Apesar de ter atacado e prejudicado dezenas de mulheres, ele nunca foi processado por danos morais por suas vítimas de estupro, que não quiseram obter vantagens financeiras do caso. Nos tempos áureos, a clínica de Abdelmassih, na Avenida Brasil, faturava mais de R$ 2 milhões por mês, até ir sumariamente à falência em novembro de 2009, quando recebeu ordem de despejo.

Tempos áureos
Dinheiro nunca foi problema para Abdelmassih*

Fortuna estimada
R$ 100 milhões

Valor da casa da família
R$ 18 milhões

Faturamento da clínica
R$ 2 milhões por mês

*Dados de 2009