Quem ouve falar da “força das narrativas” pode crer que se trata de um fenômeno das redes sociais ou alguma forma recente de manipulação. Nada disso: ao longo dos séculos, as nações e seus governantes sempre se valeram dessa estratégia para impor versões e reescrever os fatos de acordo com suas realidades políticas. Basta lembrar a famosa frase do autor inglês George Orwell, que dizia que “a história é escrita pelos vencedores”. Um incrível episódio do império britânico reforça essa ideia. É contado em Os Náufragos do Wager — Uma História de Motim e Assassinato, do jornalista David Grann. A obra narra a saga do HMS Wager, um dos navios de guerra da frota inglesa usados para saquear as embarcações espanholas que deixavam a América do Sul carregadas de ouro. Esses atos de “pirataria oficial” eram comuns no século 18 e terminavam, geralmente, em ações bem sucedidas. Não foi o caso do Wager.

Em 1740, um esquadrão da Marinha Real partiu do porto de Portsmouth, liderado pelo Comodoro George Anson. Cruzaria o Oceano Atlântico e contornaria o Cabo Horn, antes de atacar os espanhóis. Ao se aproximar da Passagem de Drake, no extremo sul do Chile, um dos pontos mais perigosos do planeta, o Wager perdeu o controle e chocou-se contra rochas. Conseguiu chegar à Patagônia, onde, oito meses depois de deixar a Inglaterra, naufragou.

Os sobreviventes chegaram a uma ilha montanhosa ­— chamada hoje de Wager — e passaram a viver sob novas regras, bem distantes da rígida hierarquia inglesa. Depararam-se com um desafio: como manter os códigos sociais em uma situação tão extrema? O enredo então se envereda por uma versão de Senhor das Moscas protagonizada por adultos. O que se viu a partir dali não foi uma luta de classes, mas uma guerra pela sobrevivência, onde os traços tão notórios da civilização britânica foram completamente esquecidos. Dois grupos se formaram, houve casos de assassinatos, degradação e até canibalismo.

A guerra de narrativas que envolve um naufrágio da ‘pirataria oficial’ inglesa
David Grann: autor se especializou em relatos inspirados na vida real (Crédito:Divulgação )

Um dos grupos decidiu tentar a sorte e, com um barco improvisado, se jogou ao mar. Três meses depois de viajarem quase cinco mil quilômetros, chegaram à costa brasileira, em uma praia no Rio Grande do Sul. Os trinta homens, maltrapilhos e semimortos, foram tratados como heróis, aclamados por sua coragem e bravura.

Seis meses depois, outro barco chegou à costa sudoeste do Chile. Dessa vez era apenas uma canoa, com três homens, igualmente subnutridos e sofridos. Após voltarem à Inglaterra, porém, fizeram uma denúncia: o primeiro grupo, que chegara ao Brasil, não tinha nada de heróis: eram amotinados.

Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio estarão juntos novamente na adaptação da saga marítima para as telas

Começou então uma troca de acusações, uma “guerra de narrativas” que colocava, de um lado, os oficiais, do outro, a tripulação. Quem falava a verdade? A pergunta não era importante apenas para saber quem falava a verdade. Quem estivesse mentindo ou não fosse convincente seria enforcado, após ser julgado por uma corte marcial. Era uma questão de vida ou morte.

Filme no Brasil

Os Náufragos de Wager é mais uma obra espetacular de Grann, assim como seu trabalho anterior. Os Assassinos da Lua das Flores, também inspirado na vida real, tratava da exploração dos indígenas em Oklahoma, nos EUA, pelos fazendeiros brancos. O relato ficou conhecido após ser adaptado pelo cinema por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio e Robert De Niro.

A tragédia do Wager também vai parar nas telas: Scorsese e DiCaprio retomarão a parceria para o novo projeto. O diretor, inclusive, já anunciou que a produção será filmada no Brasil.

Espera-se que não se repita o que aconteceu em 1941, quando outro norte-americano, Orson Welles, veio ao País para registrar uma cena no mar em seu filme It’s All True. O diretor queria recriar a história real de quatro marujos que saíram de jangada do Ceará com destino ao Rio de Janeiro, para exigir melhores condições de vida ao ditador Getúlio Vargas. Durante a filmagem, um dos marinheiros, conhecido como Jacaré, desapareceu em meio às ondas — sua morte, indiscutível, não deixaria margem para nenhuma outra narrativa.