A guerra de guerrilha do capitão

Jair Bolsonaro segue um modelo de política de segurança pública que se coaduna com o seu temperamento belicista e projetos de armar o maior número possível de pessoas no intuito de um dia elas lhe servirem de guarda pretoriana. Vale quantificar o quanto aumentou armamento em mãos dos brasileiros: em 2020 o acréscimo de armas entre civis foi 97% maior em relação a 2019. Mais: entre 2019 e 2020, a utilização de armas de fogos em assassinatos subiu de 72% para 78%. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e mostram que, após o País atravessar dois anos vendo cair o número de homicídios, assite-se novamente à elevação de indicadores da violência. No cálculo total, no ano passado houve o registro de cinquenta mil e trinta e três homicídios (pode-se dizer que equivale a um assassinato a cada dez minutos), o que corresponde a 4,8% a mais em cotejamento com 2019.

Bolsonaro almeja ter pessoas armadas ao seu lado em uma eventual movimentação de rua. Valem milícias e valem policiais rebelados

Junte-se a essa política nefasta de proliferação de armas de fogo os atritos entre diversos blocos da PM com seus respectivos governos estaduais. Policiais matam mais pessoas em confrontos, o que às vezes traz a intenção de desestabilizar governos. Em meio à desestabilização vê-se consideráveis altas nos índices de homicídio. Funcionam como exemplos: Maranhão (30,2%), Piauí (20,1%), Alagoas (13,8%). A Polícia Militar de cada estado é subordinada ao governador, e desentendimentos entre as partes acabam beneficiando o governo federal, que almeja, de forma autoritária e golpista, ter tropas armadas ao seu lado em uma eventual movimentação de rua para se manter no poder. Valem as milícias, valem os PMs que por acaso venham a se rebelar contra seus comandantes.

Também pela fissura entre a corporação e governos se movem com maior facilidade o crime organizado e suas facções pela disputa de poder. Em primeiro lugar, porque passa a existir um desprestígio público em relação ao Estado, que legitimamente pode deter o monopólio da violência; em segundo, coloca-se a questão de arrefecimento no combate aos grupos criminosos — o que gera insegurança na população, que passa a reivindicar, iludidamente, regimes de exceção. Para quem, enquanto candidato, afirmava que a segurança pública seria uma das prioridades de seu governo, Jair Bolsonaro, ao promover o radicalismo político e ideológico no seio da instituição policial (como o fez com diversas outras instituições), demonstra que todas as sua palavras não passavam de mero populismo — e não há governante populista, com olhos na ditadura, que não saia ganhando politicamente com o medo da população causado pela escalada da violência. É a guerra de guerrilha do capitão do Planalto.


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