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A gaveta e o espanador

Correm no País comentários depreciativos sobre as Forças Armadas em relação ao seu desempenho no combate à violência no Rio de Janeiro. O Brasil se tornou uma Torre de Babel, e não tem sido diferente quanto à essa questão — muita gente falando muito, muita gente entendendo pouco. É necessário que se coloquem as ideias no lugar, cada ideia em sua respectiva gaveta — sim, sociedades são como pessoas: gaveteiro que deve ser mantido em ordem ou, caso contrário, chega-se ao dia no qual já não se encontra sequer o fundo. O Rio de Janeiro chegou a tal mistifório.

Primeira gaveta: os comandantes militares sempre declararam que a utilização das Forças Armadas no combate ao crime organizado as desvia de suas funções constitucionais.

Segunda gaveta: os militares só estão no Rio de Janeiro porque tiveram de obedecer as ordens do comandante em chefe, Michel Temer, que decretou a intervenção. Tanto é assim, que os comandantes disseram “não” diante da proposta do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, de prolongar a jornada após a expiração do decreto.

Terceira gaveta: a administração pública e setores da sociedade civil não se integraram às Forças Armadas. Trataram-nas, injustamente, como intrusas. Os traficantes mataram três soldados e um cabo. Não se viu movimento de direitos humanos lamentando o fato.

Quarta gaveta: estamos nos aproximando do sexto mês das execuções da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Assim que houve o crime, as investigações ficaram por conta da polícia civil, mas os militares são criticados pela não elucidação dos assassinatos. Quem não chegou a lugar algum é a polícia, e quando fala que não dá informações para não prejudicar o seu trabalho, a verdade é que ela não tem sequer par de sete nas mãos. Não são os militares que estão investigando o caso, logo não é sobre eles que tem de chover crítica. É sobre a polícia.

Colocadas em ordem as gavetas, olhemos agora o móvel inteiro. É preciso desempoeirá-lo:Primeiro espanador: os militares poderiam, para extinguir o risco de o caso Marielle morrer sem resposta, assumir as investigações. Em 1954 houve o atentado da Rua Toneleros no qual Carlos Lacerda levou um tiro no pé e o major da FAB Rubens Vaz morreu. No aeroporto do Galeão, a Aeronáutica montou o gabinete de investigação (“República do Galeão”). Logo descobriram que Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, fora o mandante do crime.

Segundo espanador: não caiu bem a fala do ministro Jungmann ao creditar a demora na descoberta do assassino à hipótese de envolvimento de agentes do Estado e de políticos. O ministro falou o que todos nós sabemos desde os estampidos dos tiros que levaram Marielle ao cemitério São Francisco Xavier.

O ministro falou o que todos nós sabemos desde os estampidos dos tiros que levaram Marielle ao cemitério São Francisco Xavier


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