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A fuga das cidades

O êxodo urbano, a saída em massa das metrópoles, virou uma tendência mundial e é verificado em muitas grandes cidades neste momento. Impelidas pela pandemia, as pessoas estão, simplesmente, abandonando áreas mais densas e se mudando para o interior, comprando e alugando casas ou aproveitando muito melhor as que já tinham. Com a disseminação do home office, quem pode e tem essa opção está indo para o campo ou para as praias, em busca de tranquilidade para trabalhar e, principalmente, de qualidade de vida e segurança sanitária.

Crédito: Felipe Gabriel

PROTEÇÃO O empresário Danilo decidiu passar mais tempo com a mulher Roseli e a filha Marina num condomínio no litoral de São Paulo (Crédito: Felipe Gabriel)

Poder respirar na natureza, ficar à vontade num quintal que seja, ou à beira da piscina, se tornou muito mais interessante do que permanecer isolado num apartamento. O isolamento social deixou o ar livre ainda mais precioso e cobiçado. E todos querem se afastar do epicentro da doença para diminuir os riscos de contágio. De um modo geral, o coronavírus vem fazendo muitas pessoas repensarem onde querem viver por medo, questões de sobrevivência ou mesmo por projeto pessoal. Não se trata apenas de um retiro emergencial, mas de uma preparação para uma saída definitiva da cidade grande. A possibilidade de trabalho remoto abre um campo vasto de opções para a moradia. Essa é uma tendência que se percebe principalmente no topo da pirâmide social, onde as pessoas têm dinheiro para realizar seus projetos de curto prazo, mas que, também, avança forte pela classe média. Há, por exemplo, uma procura crescente, nos últimos meses, por casas em condomínios de luxo no interior e litoral de São Paulo. Em alguns locais privilegiados, a procura por imóveis multiplicou por seis em relação ao ano passado.

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“Eu não aguentava mais o trânsito infernal e a falta de espaço. Por isso abandonei a capital e a vida de executivo” Alessandro, ex-diretor financeiro e empresário

É o mesmo fenômeno que acontece em torno de outras grandes cidades, como Nova York e Londres. Em Nova York há uma intensificação das compras e da busca por oportunidades imobiliárias no subúrbio. No norte de Manhattan, em Long Island, constata-se uma corrida pós-pandemia por casas mais espaçosas e com jardins, assim como nos condados de Bergen, Rockland e Westchester. Pesquisa recente realizada pela corretora Redfin mostrou que 50% dos entrevistados de Nova York, Boston e São Francisco consideram seriamente uma mudança definitiva para fora da cidade se o trabalho remoto se tornar permanente. Em Londres, um levantamento realizado pela Totaljobs, revelou que um quarto dos habitantes pretende continuar trabalhando à distância, fora da capital, mesmo quando acabar a quarentena. Um terço da população londrina declara que tem planos de viver em áreas rurais em breve ou nos próximos anos e que essa vontade aumentou depois da Covid-19. Em São Paulo, a situação é parecida.

LIBERDADE Sem suportar o confinamento em São Paulo, o ex-executivo Alessandro se mudou para uma casa de campo em Limeira (Crédito:GABRIEL REIS)

“A procura por locação de imóveis de luxo no interior cresceu no início da pandemia porque as pessoas se viram aprisionadas e isso acontece bem numa época em que a taxa Selic está baixa, o que favorece as compras e financiamentos”, destaca Maria Marchetti, corretora da Bossa Nova Sotheby’s, imobiliária que atua no segmento de alto padrão. “Tenho clientes querendo comprar casas em condomínios como Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, mas não conseguem porque os terrenos estão quase todos vendidos. A média de preço de uma casa lá ultrapassa os R$ 4 milhões e, mesmo assim, estão sobrando interessados”, afirma. Segundo Maria, a demanda por casas de campo aumentou bastante durante a pandemia, em comparação com o ano passado. Entre janeiro e julho, o volume de vendas da Bossa Nova cresceu 28% se comparado ao mesmo período de 2019.

OPORTUNIDADE Operando com home office no interior,
o corretor Guilherme Belluzzo conseguiu ampliar suas vendas (Crédito:GABRIEL REIS)

Dinheiro no bolso

Com dinheiro no bolso e a certeza de que não quer mais viver em São Paulo, Alessandro, ex-diretor financeiro de uma multinacional, fez suas malas e rumou para o interior de São Paulo, onde mora seu pai, Paulo. O destino? Um condomínio de luxo no interior com ar puro, natureza e lazer para aproveitar com a família. Após árduos 25 anos na capital, ele relata que não suportava mais o “confinamento” dentro de seu apartamento, ainda que morasse em Higienópolis, área nobre da cidade. “Eu não aguentava mais o trânsito infernal e a falta de espaço, por isso abandonei a vida de executivo”, afirma. “Eu era aquele menino do interior que queria usar terno e gravata, estudar na FGV, fechar grandes negócios, mas para mim deu, cansei de São Paulo. A qualidade de vida no interior é bem melhor”, destaca. Casado com uma médica e pai do menino Heitor, o ex-executivo ressalta que a escola de seu filho era perto de casa e sua esposa também levava pouco tempo para chegar ao trabalho. Por isso, eles demoraram a mudar de ares. “Aqui tenho ar puro e deixo meu filho brincar solto no quintal, o que é incrível. Viver aqui me fez iniciar um negócio com meu irmão, iremos investir na construção de moradias populares – acredito que muitas pessoas estão migrando para o interior por conta desse conforto”, conclui.

NEGÓCIOS Segundo a corretora Renata Firpo, houve um crescimento entre 25% e 35% na demanda por imóveis de alto padrão (Crédito: GABRIEL REIS)

Prevendo essa mudança de estilo de vida há anos, condomínios como Fazenda Boa Vista, Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista,e Terras de São José, em Itu, localizados a 1h30 de São Paulo, foram projetados para pessoas que, assim como Alessandro, queriam espaço, mas sem abandonar os confortos da capital. “Teve aluguel que triplicou de R$ 50 mil para R$ 150 mil e mesmo assim os clientes alugaram em peso. Esgotou tudo em praticamente todos os condomínios de luxo”, afirma Guilherme Belluzzo, diretor da Agulha no Celeiro Imóveis Especiais. Especializado no ramo, Belluzzo ressalta que o estilo de vida nos três destinos acima podem ser casas de campo para os fins de semana ou moradia primária, visto que o morador não leva mais do que duas horas pra chegar lá vindo de São Paulo. “A estrutura desses lugares é padrão europeu, tem tudo do bom e do melhor”, afirma.

Segundo vários corretores de imóveis de luxo ouvidos pela ISTOÉ, o relato número um dos clientes procurando casas é: “Preciso de espaço.” Os paulistanos começaram a enxergar que há vida fora da bolha metropolitana chamada São Paulo – e como há. “A procura intensa gerou aumento no valor de imóveis em condomínios no interior e litoral, além de despertar atenção de quem não frequentava muito suas casas de campo. Essas pessoas estão utilizando mais seus imóveis”, afirma José Roberto Graiche Junior, presidente da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC).

É o exemplo do empresário Danilo, da mulher Roseli e da filha Marina, paulistanos que utilizam sua segunda casa no litoral sul como nunca antes. Por conta das restrições da pandemia, que fechou o comércio e os espaços culturais, a família, que desfrutava das vantagens da cidade grande, viu suas opções de lazer diminuirem drasticamente. Mas há males que vêm para o bem. No momento em que se viram cercados pelo coronavírus, redescobriram a alegria da vida longe da metrópole, ainda que não possam migrar imediatamente por conta de algumas rotinas de trabalho. “Com a pandemia, repensamos os valores da vida e como é essencial estar perto da família e da natureza. Sentia falta de ficar com os pés na grama, respirar ar puro e observar o céu azul”, destaca Roseli.

A casa de Danilo tem piscina, área verde, varanda com espaço para almoço, entre outros cômodos. “Quando estamos aqui, meu marido faz questão de jantar na mesa com todos presentes, desfrutar os momentos, algo que em São Paulo é difícil de acontecer porque cada um tem uma rotina diferente”, afirma. Acenando positivamente após o comentário da esposa, Danilo exalta a proximidade da natureza com uma paixão de longa data: a jardinagem. “Amo plantas, quando estou aqui eu coloco as mãos na terra, planto uma coisa aqui e outra ali, ando descalço. Isso me faz muito bem. Dependendo do horário do dia, vejo até animais como esquilos e tucanos nas árvores pela manhã”, ressalta.

Para se ter uma ideia, especialistas no setor imobiliário apontam o crescimento entre 25% e 35% na procura por esses imóveis de alto padrão desde o início da pandemia, em março, e existe a tendência de aumento da demanda. Mesmo com vasta experiência no mercado, Renata Firpo, corretora da imobiliária Coelho da Fonseca, se surpreende com os valores pagos em aluguéis na Fazenda Boa Vista, destino da elite paulistana, construída a 1h30 da capital. “A média de aluguéis lá é de R$ 35 mil e teve gente que aceitou pagar mais de R$ 70 mil para não ficar sem casa”, destaca. Com mais de 200 residências distribuídas em mais de 12 milhões de m2, a Boa Vista caminha para se tornar uma “mini cidade”, extrapolando a ideia da segunda casa, que está virando a primeira. O condomínio concentra campos de golfe, quadras de tênis, spa, trilhas, fazendinha com animais, além do Hotel Fasano, empreendimento com cerca de 39 apartamentos – sendo 12 suítes. Isso explica a disputa por uma vaguinha na propriedade. “Se a pessoa trabalha na capital e leva duas horas pra chegar em casa do serviço, morando em um apartamento, por quê não morar aqui?”, pergunta. “Tudo isso perto da capital e você tem conforto, lazer, natureza. Isso é o futuro, aliás, o presente”.

Conforto milionário

A coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Gisele Catarine, relata que o isolamento forçado desencadeou atitudes extremamente emocionais e desesperadas, além de estreitar as relações sociais, o que pode explicar a incessante demanda por uma casa de campo. Há um estresse e uma sensação de perigo, que se torna sufocante para algumas pessoas e deixa a vida urbana cada vez menos atraente. “O conforto psicológico e emocional foi abalado pela perda do controle da situação, reflexo da Covid-19. Quem tem dinheiro, compra ou aluga uma casa espaçosa na ilusão de fugir da doença, mas o vírus ainda está lá fora e não escolhe sua vítima com base na conta bancária”, afirma a psicóloga. Seja como for, o distanciamento de locais com alta contaminação, como são as grandes cidades, é confortante e faz pensar que uma vida mais tranquila, em um ambiente bucólico, é possível.

Foi exatamente nisso que Roberto e Rosana Miranda pensaram quando decidiram deixar São Paulo. O casal, que possuía uma casa de campo em Mairiporã, a 40 quilômetros da capital, decidiu mudar de vez pra lá, mesmo que a ideia não estivesse nos seus planos de curto prazo. “Isso era um objetivo para daqui uns três anos, mas no início da pandemia viemos pra cá, ficamos mais tempo que o habitual e deu certo. Temos liberdade, ar fresco e os cachorros brincam no jardim. É uma verdadeira paz”, afirma Rosana. A vida frenética em São Paulo criou um estigma de que enquanto a pessoa não se aposentou, o campo serve apenas como retiro de férias, mas até os mais jovens perceberam as maravilhas de viver sem o estresse cotidiano da metrópole. Roberto e seus filhos, Danilo e Vitor, são engenheiros civis e contam com a expertise administrativa de Rosana para conduzir a empresa da família. “Estamos construindo um escritório aqui e remodelando tudo. Não precisamos estar na capital para atuar em alto nível”, diz Rosana. “Meu pai e eu funcionamos bem daqui, quando precisarmos fazer as visitas, teremos que sair, mas fora isso, não tem do que reclamar”, completa Danilo.

TRANQUILIDADE A família Miranda deixou a capital e mudou para sua casa de campo em Mairiporã: “verdadeira paz” (Crédito:GABRIEL REIS)

A frase “Conhece-te a ti mesmo”, máxima atribuída ao filósofo grego Sócrates, praticamente forjou as bases da filosofia e milênios depois, nos ajuda a entender o comportamento do ser humano. Para o professor de Filosofia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), José Marcos, a vida no campo, que se torna um objetivo de cada vez mais brasileiros, tem a ver com o contraste entre o bem-estar pessoal e a finitude da vida. “Quem tem dinheiro precisou apenas de um motivo mais forte para migrar rumo ao interior. Talvez, antes da pandemia, o motivo fosse vencido pela necessidade de trabalhar na capital”, destaca. Com o home office, essa necessidade diminuiu. Partindo do pressuposto que o vírus ceifou milhares de vidas, refletir sobre quão rápido a existência passa despertou a vontade de colocar a felicidade na frente de tudo. “A qualidade de vida contou muito. O cuidado com o bem-estar fez muitas pessoas descobrirem os prazeres da vida, conhecer mais de si mesmas e se libertar de paradigmas sociais das cidades grandes”, diz.

Historicamente, as epidemias têm sido um fator de impulsão do êxodo urbano. A debandada de milhares de famílias paulistanas para o interior e o litoral obedece a uma lógica de guerra. Todos querem se afastar do perigo, dos locais em que a crise é mais evidente, ainda que esse afastamento seja mais imaginário do que real. O fato é que o medo de contrair a Covid-19 reforçou a sensação de aprisionamento dentro das casas e apartamentos na metrópole e levou as pessoas a repensarem onde e como querem viver. O isolamento, ainda sem data de término definida, mexeu com as estruturas sociais de tal forma que muitos se viram sufocados em seu próprio ambiente de paz, o lar. Agora, com a rotina de home office adotada por milhares de empresas, a modalidade de trabalho à distância está passando por um teste decisivo e mostrando que uma outra vida é possível. Não é por acaso que quem tem opção busca uma casa no campo. De uma hora para outra, as grandes cidades ficaram mais chatas e arriscadas para se viver.

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