Internacional

A fronteira desafia Biden

Nova onda de imigrantes vindos do México vira um problema para o presidente americano, que tenta reverter a estratégia linha-dura de Trump

Crédito: Andressa Latif

ALFÂNDEGA A policia tem evitado separar menores dos pais, desde 21 de janeiro (Crédito: Andressa Latif)

A onda de imigrantes na fronteira fez os EUA se fecharam para estrangeiros nos últimos anos. Donald Trump explorou esse drama com uma política linha-dura e tentou inclusive erguer uma muralha entre o país e o México. Agora, a abordagem do governo começa a mudar com Joe Biden, que foi eleito com um discurso pró-imigrantes. O democrata pretende legalizar 11 milhões de clandestinos que vivem nos EUA. Mas essa questão já virou uma das primeiras crises do novo governo. As boas intenções de Biden já são colocadas à prova por milhares de imigrantes centro-americanos e mexicanos, que interpretaram a mudança de atitude como um convite imediato para imigrar. Isso alarmou a nova administração. “Posso dizer claramente: não venham. Não deixem as suas cidades”, declarou Biden no último dia 16.

J. Scott Applewhite

No governo Trump, os EUA endureceram a política de imigração, com a detenção sistemática até de crianças que atravessavam a fronteira mexicana. A Guarda Costeira interceptou centenas de embarcações que tentavam desembarcar imigrantes no litoral da Califórnia, apreendendo até submarinos artesanais — o negócio dos “coiotes” é lucrativo para os violentos cartéis mexicanos. Apenas no 1º bimestre deste ano, mais de 113 mil pessoas foram detidas ou expulsas na fronteira com o México, segundo o Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) do governo americano. Desse total, mais de 9 mil eram crianças que, a partir de 21 de janeiro, não foram mais expulsas, mas levadas a um centro de detenção no Texas. É uma escalada em relação ao ano passado, quando foram expulsas ou detidas 400 mil — uma queda atribuída à pandemia. E indica uma retomada da onda de 2019, quando os EUA expulsaram mais de 851 mil na fronteira mexicana.

“Houve uma clara mudança do ponto de vista dos EUA. Com Biden, a imigração é vista sob o aspecto sócio-econômico e humanitário, e não de segurança. Em um primeiro momento, ele tenta legalizar os ‘dreamers’ e os trabalhadores agrícolas. Essa foi uma promessa de campanha”, diz Denilde Hlzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM em São Paulo. “A segunda etapa do plano envolve negociações com os governos do México e dos três países da América Central de onde vêm a maioria dos imigrantes: Guatemala, Honduras e El Salvador. Biden planeja um pacote de investimentos nos três países para reduzir a imigração”, afirma Denilde. Segunda ela, esta etapa só deve começar após o arrefecimento da pandemia, no final de 2021. Existe uma pressão dos grupos de direitos humanos e de dentro do próprio Partido Democrata para que Biden desmantele logo os centros de detenção. Ele está fazendo isso, mas não na velocidade desejada pelos grupos.

Um passo importante na política pró-imigração foi dado no dia 19 de março. A Câmara aprovou dois projetos de lei para legalizar 4 milhões de estrangeiros que vivem clandestinamente no país. Desses, 2,5 milhões são os chamados “dreamers”, adultos e adolescentes que chegaram aos EUA quando eram crianças e até bebês, e não receberam a cidadania. “A lei acaba com o medo e a incerteza na vida dos dreamers”, diz a deputada Lucille Royball-Allard, propositora do texto. Com o endurecimento das leis nos anos Trump, chegaram a ser deportados ao México, país do qual nada conheciam. A possível legalização dos clandestinos é apenas uma das inciativas de Joe Biden para melhorar as relações com o México, estremecidas por anos de mútua desconfiança e de uma conturbada cooperação no combate ao narcotráfico. Biden também anunciou que Washington doará 2,5 milhões de doses da vacina AstraZeneca ao México.

“É um fracasso moral e vergonha nacional quando crianças são trancadas em centros de detenção” Joe Biden presidente dos EUA (Crédito:Patrick Semansky)

Limite feroz

Biden é pressionado a agir à medida que cresce a tensão na fronteira. No começo de março, a polícia mexicana encontrou os corpos de 19 pessoas na caçamba de uma picape no Estado de Tamaulipas, perto da fronteira com o Texas. Todos tinham marcas de tiros e foram queimados. Pelo menos 12 eram imigrantes da Guatemala e do mesmo povoado, Comitancillo. Os restos mortais das vítimas foram repatriados e sepultados em cerimônia que foi transmitida pela televisão nacional e contou com o presidente guatemalteco Alejandro Gianmattei. A polícia federal mexicana deteve 12 policiais de Tamaulipas, suspeitos de terem participado da matança. No Texas, pelo menos 4.500 crianças e adolescentes estão atualmente sob a custódia do governo americano no centro de detenção de Donna. O governo Biden pediu às autoridades que transfiram os menores a instalações mais “humanas”, mas recusa-se a classificar a situação como uma emergência. É uma situação delicada para o democrata. Em diversas áreas, o novo presidente está conseguindo mudar a agenda do país para “enterrar” a era Trump. Na delicada questão dos imigrantes, essa tarefa será mais difícil.