PANDEMIA * 2020

A força do Congresso

Fernando Henrique Cardoso afirma que Jair Bolsonaro está ficando isolado e prevê que, sem o apoio do Congresso, ele perderá de vez as condições de governabilidade

Crédito: Aneto Herculano

ESTADISTA Com a autoridade de quem comandou o País por oito anos e superou diversas crises, Fernado Henrique diz que Bolsonaro não sabe governar (Crédito: Aneto Herculano)

Entrevista exclusiva

Aos 88 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vê o atual momento da pandemia do coronavírus com apreensão. Não apenas pelo temor de contrair o vírus, pois vem se mantendo trancado em seu apartamento tendo apenas a companhia da mulher, Patrícia, e respeitando todas as recomendações do isolamento total propostas pelas autoridades sanitárias. O que o está deixando intranquilo é a insistência de Jair Bolsonaro em demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na tentativa de forçá-lo a relaxar a quarentena. Segundo FHC, isso seria temerário: “Não se tira da linha de frente o general que está comandando a guerra”. Mas o que mais o está preocupando, a ponto de abandonar sua postura normalmente moderada, é o futuro político do Brasil. Nessa entrevista exclusiva à ISTOÉ, ele subiu o tom contra Bolsonaro, diz que ele não sabe governar e que está ficando sozinho, sem apoio do Congresso, do Judiciário, da mídia e da sociedade: “O Brasil está à deriva”. FHC lembrou que “todos os presidentes que desprezaram o Congresso acabaram caindo”.

O que o senhor achou do episódio da fritura do ministro da Saúde?
Achei temerário o que o presidente fez. Nesse momento, tirar da linha de frente o general que está comandando a guerra, me parece perigoso. Nós tínhamos um sistema de presidencialismo de coalizão. Isso já foi. Agora, tem que ser um presidencialismo compartilhado, com a sociedade, com a mídia, com o Congresso, com o Judiciário, com os governadores. E Bolsonaro ainda não entendeu isso. E esse é o problema maior.

Ficou claro que a maioria da sociedade apóia de fato o ministro Mandetta. Ele saiu fortalecido dessa crise política?
Certamente. Mandetta tem uma virtude que falta ao presidente, que é falar de uma maneira simples, dizendo aquilo que as pessoas querem saber. Ele explica de uma maneira direta, humana.

Nesse episódio, a população bateu panelas a favor de Mandetta e contra Bolsonaro. O senhor acha que ele se transformou em uma espécie de herói nacional?
É cedo para prever o futuro político de Mandetta, mas também não acredito que seja útil para ele alimentar essa possibilidade, pois vai entrar em choque direto com o presidente. Ele está indo bem na área dele e fazendo o que se espera de um ministro.

Bolsonaro saiu menor dessa crise?
Não tenho dúvida alguma, porque está faltando a ele o que é mais importante para um presidente: apelar à coesão nacional em um momento de dificuldades. Ele não faz nada disso. Só tem sido agressivo e não é isso que o povo quer.

O presidente está demonstrando falta de liderança?
Exatamente. Dá a impressão que ele está um pouco desorientado. Neste momento, um presidente precisa ter calma. Mal comparando, porque a situação era outra, mas eu enfrentei um problema sério com as crises cambiais no meu segundo mandato. Foi uma situação terrível. Bom, se o próprio presidente perde o equilíbrio naquela hora, vai embora, porque os que estão ali na linha de frente da batalha têm mais dificuldades no dia a dia para gerir a crise. O presidente tem de conseguir sempre levar o País adiante.

O Brasil está sem rumo?
A sensação que temos é que o Brasil está à deriva. O povo se sente assim. Se sente inseguro. Já temos um motivo forte de insegurança que é o coronavírus, a possibilidade de uma crise econômica que virá em conseqüência, e, ainda por cima, temos um presidente que não sabe mandar. Isso é preocupante. Está faltando sabedoria ao presidente para governar. Falta-lhe capacidade para entender a função presidencial na crise e fora dela também. Ele tem que entender que não adianta agredir. Isso não resolve. Quem tem autoridade, não precisa falar. Ele tem que entender que no nosso presidencialismo compartilhado, você não pode ficar entrando em choque com todo mundo, porque quem perde é você. Por mais forte que seja um presidente, quando ele despreza as outras forças, o Congresso em especial, e a mídia também, ele acaba desesperado, sozinho. Assim, vai perdendo o bom senso, a serenidade e a coerência. Ao perder tudo isso com frequência, perde apoio para governar.

O senhor vê Bolsonaro isolado?
Ele está se apoiando nos setores mais fanáticos. E ninguém governa um País, a não ser no totalitarismo — e isso é impensável hoje em dia —, apenas com um grupo de fanáticos apoiando.
Dessa forma é impossível.

O ministro chegou a estar fora do governo e até limpou gavetas, mas os militares alertaram o presidente para o erro que ele estava cometendo. O senhor acha que os militares estão tutelando o presidente?
Os militares têm uma grande consciência de um projeto de Nação. Os militares hoje não representam mais aquela história de ver fantasmas e ver inimigos em todo lado, de ver subversão, a esquerda. Não! Eles sabem que os nossos problemas são a pobreza, a miséria, a desigualdade, a falta de tecnologia, o crescimento da economia, o acesso aos mercados. Eles são mais objetivos.

Nesse cenário, surge a liderança do general Braga Netto (ministro da Casa Civil), como o homem forte do governo, o que tem levado políticos em Brasília a afirmarem que Bolsonaro pode virar uma figura decorativa.
Acho que isso não seria bom. O nosso sistema requer a condução do presidente. Quando uma situação dessas acontece é um tapa buraco, não resolve a questão. Bolsonaro até pode virar uma rainha da Inglaterra, mas aqui o presidente tem um papel institucional importante e não acho que integrantes das Forças Armadas possam substituir o presidente.

Além dos militares, o presidente também teria sido pressionado pela classe política, como Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, que advertiram-no que a demissão de Mandetta poderia levar a retaliações no Congresso. O que o senhor achou disso?
Se é verdade que o presidente queria substituir o ministro Mandetta, como parece que é, o Congresso fez bem em alertá-lo. Vou repetir o que disse no início. É preciso que o presidente entenda a força do Congresso. Os partidos parecem frágeis, mas o Congresso é forte. Quando o presidente não entende essa contradição, esse paradoxo, ele pisa em falso. Por que caiu a presidente Dilma? Ou o presidente Collor, embora sejam diferentes. Mas nenhum deles entendeu o Congresso, como Bolsonaro não está entendendo agora. Ou você impõe sua liderança e exerce alguma influência para compreender o que corresponde a você como presidente e o que corresponde ao Congresso, ou você acaba isolado. E no isolamento acaba ficando fácil ser derrubado.

O senhor acha possível o presidente sofrer processo de impeachment?
Não acho que deve se colocar em pauta isso hoje. O impeachment ocorre quando o presidente transgride algum regulamento constitucional. Segundo, quando há interesse popular no afastamento do presidente. Terceiro, quando o presidente deixa de governar. Essas condições ainda não se dão, mas é ruim imaginar que isso venha a ocorrer porque para o País vai ser traumático.

Acredita que o presidente vem perdendo a governabilidade?
Se perder a governabilidade e não der a atenção necessária às forças políticas, ao Congresso e ao povo, aí vai se fazer
o quê? Mas acho que não se deve deliberar nessa direção. Criar condições para isso eu acho que não seria bom institucionalmente.

O ministro Gilmar Mendes, do STF, disse que o tribunal não aceitará medidas do governo que modifiquem a política de isolamento. Se Bolsonaro insistir nessa posição erratica, há risco de uma crise institucional?
Espero que isso não aconteça, mas vai depender do comportamento do Executivo. O que aconteceu com o nosso presidencialismo compartilhado? O Congresso expandiu seu poder e o Judiciário também. O Supremo passou a ter uma utilidade política muito grande. Então, temos pesos e contrapesos. Nós temos uma democracia complexa. Hoje, o Supremo toma decisões para equilibrar eventuais excessos presidenciais.

As divergências entre eles continuam por conta da política de isolamento. O senhor acha que o ministro deve continuar contrariando o presidente, que deseja a volta ao normal?
Bolsonaro não tem noção do que é a realidade da vida, não sei como ele enxerga o contágio, a doença, realmente não sei. Pega a Itália, a Lombardia, como exemplo. O prefeito de Milão veio a público se desculpar, dizendo que errou ao defender que tudo funcionasse normalmente. O próprio presidente Trump, que de vez em quando atropela os fatos, não foi a tal ponto de contrariar a ciência. Bolsonaro não tem consciência do erro. Então, não sabe o que está causando.

Informa-se nos bastidores que o presidente ainda não desistiu de demitir o ministro. Bolsonaro quer que as pessoas voltem ao trabalho por estar preocupado com os prejuízos à economia…
Que a economia será prejudicada não há dúvida. Você tem que olhar para a economia também. Mas não há como não se preocupar com a saúde agora. O isolamento social foi usado na China e em outros países que estão conseguindo reduzir a pandemia. Como não existe medicamentos específicos e não há vacina, o que você faz? Isola. A única maneira que aprendemos a lidar com o coronavírus é manter as pessoas mais ou menos isoladas. Claro que nem todos podem se isolar e para alguns isso é mais difícil. Os governos sabem disso. Mas a nossa vantagem é que vivemos em uma federação. E, nela, os municípios e os estados têm relativa autonomia. O governo central precisa entender a diversidade brasileira e respeitá-la.

Como o senhor avalia o papel dos governadores nesse processo?
Os governadores estão se saindo muito bem. Eu vi ontem (segunda-feira, 6) declarações do governador de Goiás, Ronaldo Caiado: sensatas. O governador João Doria (São Paulo) tem tomado medidas firmes. Acabou de prorrogar a quarentena e tem atuado muito bem. Outros governadores estão na mesma linha. Os prefeitos também. Aqui não temos um só lado mandando, o que é bom para a democracia.

O senhor já disse que a crise econômica será profunda. Qual o tamanho que ela terá?
Ela pode ter efeitos devastadores para a economia e pode ser maior do que foi a grande crise de 1929 ou a Segunda Guerra Mundial. Espero que não atinja essas proporções, mas pode acontecer. Vai depender do que nós vamos fazer. Vai atingir todos os países do mundo, com o coronavírus desorganizando a produção. Mas qual será a forma dessa crise? Será U ou V? Se for U, poderá demorar mais tempo e provocar estragos maiores. Se for V, fará estragos menores e vamos ter mais rapidez para recompor a economia. Hoje ainda não dá para saber o tamanho dessa pandemia e até quando vai durar este estado de guerra.

Nesse pós-guerra, vamos precisar de um novo Plano Marshall, como o que foi criado para recuperar a Europa e parte da Ásia após 1945?
Ah vai. Vamos precisar sim. Se há uma coisa que deveríamos começar a preparar desde já é uma ação internacional, envolvendo o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, grandes organizações e aqueles que têm influência, que comandam. Eles precisam se preparar porque o que vem pela frente vai necessitar de apoio forte dessas organizações internacionais. E quem mais pode, vai ter que socorrer os mais fracos. Precisa se aumentar a solidariedade.

Acredita que haverá uma corrida dos países em busca de empréstimos do FMI? No caso do Brasil, o senhor acha que será preciso recorrer ao fundo?
O Brasil tem uma boa reserva cambial. As nossas reservas são razoáveis, mas não há reserva boa em uma crise demorada. Além disso, você vai ter, dentro do Brasil, situações de emergência que precisarão ser atendidas pelos bancos brasileiros e internacionais. E os bancos vão ter que se dispor a fazer empréstimos e o garantidor disso, em última linha, quem é? O Tesouro. Então, o Tesouro vai ter que se preparar, mas também não pode jogar fora o dinheiro. É necessário centrar sua atuação, ver o que é importante, aplicar recursos na Saúde, ter rigidez econômica e fazer que a economia funcione. Geralmente quem paga o custo maior da crise é quem menos possui, que é o povo.

Bolsonaro tem se movido pelo grupo ideológico, liderado sobretudo por seu filho Carlos Bolsonaro. O senhor acredita que os filhos atrapalham o presidente?
O ideal é que a família não esteja no governo. No meu governo, o ajudante de ordem avisava quando um filho meu queria entrar no gabinete. No meu gabinete é só o ajudante de ordens ou eventualmente minha mulher. Mais ninguém. E não é porque eu seja uma pessoa distante e nem antidemocrática, porque não sou, mas é institucional. Não se deve misturar família com poder. No caso de Bolsonaro, os filhos o levam para um caminho errático, opinam fora de hora. É claro que cada um deles tem seu mandato e podem opinar no limite da competência dos seus poderes. Foi para isso que foram eleitos, mas nem por isso devem tratar de questões governamentais.

No caso da China, inclusive, o deputado Bolsonaro criou um incidente diplomático…
O que aconteceu em relação à China é grave. O Brasil tem uma posição internacional que não vem de hoje. Começou no tempo do Rio Branco. Você tem seus vizinhos e precisa se relacionar com eles. Nós pertencemos ao mundo, somos Ocidentais, mas vivemos em um País aberto às diversidades mundiais. Acontece que ao invés de construir pontes, os responsáveis por nossa política externa estão destruindo as pontes. Não tem cabimento.

Essa situação do ministro Abraham Weintraub (Educação) em fazer piada com os chineses, usando o personagem Cebolinha, do Maurício de Souza, provocou uma distanciamento ainda maior com a China?
A China é nosso principal parceiro comercial e é um País com uma cultura diferente da nossa, na qual certos valores e símbolos são muito importantes. Amesquinhar os chineses é uma ofensa inaceitável para eles. É para todo mundo. É um erro injustificável. Até porque a China, geograficamente, está muito longe e nós não temos o potencial militar que têm os EUA ou os países da Europa. Então, não há porque nos preocupar como se fosse haver um conflito amanhã. Nós temos que nos preocupar é com os nossos interesses, que objetivam que nosso povo viva melhor, com crescimento econômico, que haja comércio e que haja um bom relacionamento com a China e com os EUA também.

O senhor acredita que o enfraquecimento político de Bolsonaro poderá colocar o PSDB de volta à disputa presidencial?
O PSDB, com o governador Doria, pode sim ser uma grande opção. O governador do Rio Grande do Sul (Eduardo Leite) é um bom nome também. Mas não vai se tratar de qual partido estará na disputa. Todos estão muito debilitados. O que vai valer é qual líder surgirá. Quem vai ter capacidade de falar ao coração e ao bolso das pessoas.

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