Cultura

A força de ‘Star Wars’ é o público

Há 45 anos, estreava nos Estados Unidos Star Wars, um épico que se transformaria em um dos maiores sucessos do cinema mundial. A história criada por George Lucas “em uma galáxia muito muito distante”, custou cerca de US$ 11 milhões e faturou perto de US$ 775 milhões. Nasceu como uma aposta do diretor e roteirista um tanto desacreditada pelos estúdios de Hollywood. Os anos passaram e comprovaram que ele estava certo. Atualmente, a franquia atrai milhões de fãs e dólares.

Ao todo, são 9 longas, divididos em três trilogias, três séries live-action, cinco séries animadas, todas disponíveis na Disney+. Também dá para encontrar livros e histórias em quadrinhos, além de inúmeros produtos vendidos no mundo inteiro, desde roupa a brinquedos, estátuas e action figures, que são peças colecionáveis, e ainda itens como capacetes, bonecos, réplicas de naves, robôs. Um universo de objetos que os fãs adoram consumir.


AMOR DE INFÂNCIA

Se tem algo que Star Wars consegue manter fiel desde os primeiros filmes, lançados nas décadas de 1970 e 1980, são os fãs. A paixão pela saga é grande. Há quem incorpora a paixão no nome, como o youtuber João Jedi, que resolveu assumir o título da ordem dos guardiões da paz e da justiça, que lutam no “lado da luz e da força”.

A relação do redator e roteirista João Marcelo Cunha, 29, com a saga nasceu quando ele ainda era criança, ao assistir, pela primeira vez, aos filmes na TV. Era a época do lançamento de Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma (1999) e a história era muito comentada. Era um tempo em que a internet não tinha alcance e o YouTube sequer tinha sido criado, ou seja, era mais difícil de conseguir informações.

João conta que uma pontinha de interesse na saga apareceu naquele instante até que, em 2002, estreou Star Wars: Episódio 2 – Ataque dos Clones. Aos nove anos, ele foi ver o filme no cinema acompanhado pela mãe. “Quando vi que ia lançar, a empolgação aumentou, porque era a continuação daquele filme que eu já tinha visto. Então assisti aos clássicos e comecei a amar”, lembra. João conta que entendeu a força do sentimento de fã quando ouviu um trecho da Marcha Imperial, trilha sonora clássica da saga, criada por John Williams e executada no final do filme. “Sempre fui muito ligado em efeitos sonoros e trilha e foi nessa hora que dei um grito no cinema”, lembra.

Desde então, começou a acompanhar lançamentos de filmes, comprar HQs, livros e revistas sobre esse universo, além de se unir a grupos e fóruns de discussão sobre Star Wars. E passou a fazer cosplay. O primeiro deles foi justamente de Jedi, que originou seu apelido. Cosplay é um termo em inglês formado pela união das palavras costume (fantasia) e roleplay (encenação), quando uma pessoa se veste imitando seu personagem preferido de alguma obra, muito comum na cultura pop.

Depois de assistir aos filmes, ler e conversar com amigos sobre a saga, João viu que, em Salvador, onde nasceu e vive, algumas pessoas se vestiam como seus personagens favoritos. Ele resolveu, então, que se vestiria de Jedi em um evento na cidade que reunia cosplays de diversas inspirações. “Durante meses, economizei o dinheiro do almoço da escola para comprar meu primeiro sabre de luz e mandei fazer uma roupa”, recorda. João foi o padawan, uma espécie de aprendiz de Jedi, de um outro cosplay em Salvador.

PAIXÃO ANTIGA

João é de um tempo em que as informações sobre Star Wars já eram mais disseminadas. Já o analista de licitações Marcelo “Chewie” Forchin, 50, teve um pouco mais de dificuldade. Ele também começou a gostar da saga ainda criança, por volta dos sete anos. No entanto, no seu caso, novidades sobre Guerra nas Estrelas, como era chamada a história no Brasil, chegavam com lentidão. Ele recorria aos álbuns de figurinhas.

“Meu pai assistia aos filmes e me trazia os álbuns”, conta Marcelo, conhecido como Chewie entre os amigos por já ter feito cosplay de Chewbacca, personagem que compartilha o mesmo apelido, um alienígena que também é copiloto da Millennium Falcon, famosa nave espacial da saga. Quando criança, Marcelo via os filmes pela TV, só mais velho é que foi assistir às reapresentações no cinema, antes do lançamento da segunda trilogia, no final dos anos 1990.

Foi justamente nesta época que Marcelo descobriu, pela internet, outros fãs de Star Wars. E resolveu se juntar a eles. “A primeira coisa que pesquisei para testar a internet no trabalho foi o termo Guerra nas Estrelas e encontrei um site chamado Nova República, que reunia os Conselhos Jedi de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro”, lembra.

Conselho Jedi é como se chamam os fãs-clubes da saga. No Brasil, ele está divido em Estados, chegando a 16 deles. Todos são responsáveis por organizar encontros e as Jedicon, convenções nas quais os fãs se encontram para conversar sobre a saga, discutir novidades, falar sobre os personagens do universo Star Wars.

LEVADA A SÉRIO

A saga Star Wars traz uma trama que agita o coração de quem é apaixonado pela história. “Para mim, não é ficção, é realidade”, declara a estudante Ana Paula Azevedo, 35, mas também pode chamar de Phasma, como é conhecida por conselheiros (membros do Conselho Jedi), já que costuma fazer cosplay da Capitã Phasma, comandante da força de stormtroopers (espécie de soldados do Império Galáctico) da Primeira Ordem.

“Star Wars significa crescimento, acolhimento, união, é o meu mundo, no qual posso amadurecer, aprender como pessoa, refletir sobre a vida, ter esperança de um mundo melhor, me ensinou a respeitar as pessoas, a entendê-las”, diz. Ana Paula, assim como João e Marcelo, também descobriu a história ainda criança, mas a paixão só veio depois de adulta. “Percebi que eu tinha me tornado uma fã de verdade no momento em que comecei a comprar colecionáveis e a me ver resolvendo problemas do cotidiano usando lições aprendidas nos filmes e com os personagens no dia a dia.”

ORGULHO

E se antes algumas pessoas tinham vergonha de se afirmar fã da saga para não ser chamado de nerd, atualmente, como frisa Marcelo, “o nerd controla o que é lançado no mercado”. E ele está certo. Basta ver os números de lançamentos mais recentes nos cinemas, sempre altos para produções da Marvel, que costumam reunir nerds, geeks e fãs de cultura pop. Se tornaram tão importantes para a indústria que ganharam até dia especial, celebrado nesta quarta-feira, 25, mesmo dia que o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado, há 45 anos, nos EUA – no Brasil, estreou em janeiro de 1978.

MERCADO

Além do amor incondicional dos fãs, é importante destacar o papel do mercado de entretenimento. É uma retroalimentação. Se há busca por informações sobre a saga, também tem oferta de produtos. E não apenas de novos lançamentos, como o que vai acontecer nesta sexta-feira, 27, quando estreia na Disney + a série Obi-Wan Kenobi, sobre o mestre Jedi, interpretado por Ewan McGregor.

Segundo dados da NPD Group, empresa americana de pesquisa de mercado, vendas dos brinquedos com a licença Star Wars cresceram 14% em 2021, em comparação a 2020, em 13 países monitorados, incluindo o Brasil. Aqui, os brinquedos licenciados com a marca tiveram desempenho melhor, com faturamento 24% a mais em 2021, comparado com o ano anterior. O volume de vendas no Brasil foi de R$ 22 milhões, R$ 5 milhões apenas para as action figures. Nos 13 países monitorados pelo grupo, a receita passou de US$ 1 bilhão. Action figures renderam US$ 85 milhões em 2021.

Não à toa, João resolveu transformar sua paixão em trabalho. Para além da demanda sempre presente por material sobre a saga, ele queria ter um espaço para falar sobre Star Wars com mais liberdade. O youtuber, que chegou a ser presidente do Conselho Jedi Bahia, criou o canal Diário Rebelde em 2019, sobre o universo Star Wars no País, acumulando mais de 56 mil inscritos, com vídeos que chegam a mais de meio milhão de visualizações – é o caso do documentário A História Completa de Darth Vader”.

Agora, o canal se prepara para voos mais altos. João foi aos EUA para participar da Star Wars Celebration, maior evento para fãs da saga no mundo, que acontece a partir desta quinta-feira, 26. Para ele, é a realização de um sonho: participar do evento produzindo conteúdo para o canal.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.