Brasil

A força da caserna

Desde a redemocratização, os militares nunca haviam influído tanto na corrida eleitoral. Agora, todo presidenciável inclui na agenda um encontro obrigatório com o comandante do Exército. Sabatinados, os candidatos recebem uma extensa pauta de reivindicações, que eles esperam que seja cumprida

Crédito: Michel Filho

AMÉM Militares rechaçam intervenção. Para eles, a única possível é por meio do voto (Crédito: Michel Filho)

Um a um, os candidatos à Presidência da República se curvam ao comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. O general sofre de esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa que de forma gradativa limita a sua capacidade neuromotora. Ele anda de cadeira de rodas. Nada disso, porém, parece impedir o general de manter intensa atividade no comando do Exército. Atividade que, nas últimas semanas, inclui extensas sabatinas com os presidenciáveis. Desde a redemocratização, é a primeira vez que a rotina dos candidatos inclui conversas com o principal chefe do segmento militar. E nenhum dos candidatos vem se negando a elas. Curvar-se a ele, assim, passa a ser a essa altura muito mais que mera necessidade ao cumprimentá-lo, por conta de sua condição.

Até o momento, Villas Bôas já esteve com Álvaro Dias (Podemos), Rodrigo Maia (DEM), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Marina Silva (Rede), Paulo Rabello de Castro (PSC), Aldo Rebelo (Solidariedade) e Ciro Gomes (PDT). Na quarta-feira 20, encontrou-se no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, com o ex-prefeito Fernando Haddad, como representante do PT. A todos, Villas Bôas entregou um caderno com reivindicações do segmento e temas referentes à discussão sobre Defesa Nacional. “A ideia é ressaltar a importância da adoção de políticas que garantam o avanço indispensável dos programas estratégicos da Força, bem como a estabilidade orçamentária, a recuperação remuneratória e a manutenção da operacionalidade. É importante que a sociedade discuta os temas Defesa e Segurança para que, no futuro, sejam tomadas as melhores decisões”, explicou o comandante a ISTOÉ.

“Vivemos um momento ímpar em que a sociedade discute mudanças. O segmento militar quer participar desse debate” Tenente Nogueira

Aparentemente, o comandante do Exército cumpre, assim, uma agenda meramente corporativa. Mas, dado o ineditismo de tais reuniões, fica evidente o maior destaque que o segmento militar ganhou no debate político. Que se soma ao fato de se espalharem pelo país pelo menos 70 candidaturas de pessoas que se declaram militares a cargos políticos, além do capitão Jair Bolsonaro, que disputa a Presidência pelo PSL. “Trata-se de um gesto ousado do comandante do Exército, que mostra como o segmento militar ganhou relevância”, observa o cientista político Leonardo Barreto, analista da Factual Informação e Análise. Barreto observa que desde a Assembleia Nacional Constituinte os militares criaram assessorias parlamentares para tratar dos seus interesses corporativos. “Já não é de agora que os militares estão organizados para o jogo político. O que há de novo é o desejo da sociedade civil de recorrer a eles”, avalia.

BEIJA MÃO Comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, já recebeu nove presidenciáveis, entre eles Marina Silva, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad. Segundo Villas Bôas, a ideia é ressaltar a importância da adoção de políticas que garantam o avanço de programas estratégicos da Força

Fala, comandante

A iniciativa do comandante do Exército de chamar para conversa os candidatos faz parte de uma série de outras estratégias que Villas Bôas vem adotando para aproximar a caserna da sociedade civil. O general usa ativamente as redes sociais. Criou um quadro no Youtube, intitulado “Fala, comandante”, em que trata de diversos assuntos ligados ao segmento militar. Em alguns momentos, suas falas chegam a assustar e gerar receio de alguma interferência indevida. Villas Bôas rechaça essa interpretação. Segundo ele, não há hoje nada semelhante ao quadro que levou ao golpe militar em 1964. “A força pensa que o Brasil tem que virar essa página e olhar para frente, para o futuro”, afirma. “O que deve prevalecer neste momento é um espírito de conciliação entre todos”. “Intervenção só as que forem ordenadas pelo presidente da República, que é o chefe das Forças Armadas. Como essa que acontece agora no Rio”, diz ele. “Vivemos um momento ímpar em que a sociedade discute mudanças necessárias. O segmento militar quer participar desse debate”, faz coro o tenente Rômulo Nogueira, presidente da Associação dos Oficiais de Reserva do Exército do DF. Leonardo Barreto considera que não parece haver mesmo espaço para algo que alguns eufemisticamente chamam de “intervenção militar”. A intervenção que o militar quer, hoje, é por meio do voto. Que assim seja.