A fome é uma estatística zumbi

Crédito: José Manuel Diogo

(Crédito: José Manuel Diogo)

A firma-se frequentemente que a maior parte da comida do mundo é produzida por pequenos agricultores. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura — a FAO — afirmou mesmo que entre 70% e 80% de todos os alimentos tem essa origem. Mas isso é mentira. Estudos recentes sugerem que este número é irrealista e demasiado elevado. A verdade é que os pequenos agricultores produzem apenas cerca de um terço dos alimentos mundiais o que é menos de metadeda realidade anunciada oficialmente. A razão deste equívoco é uma simplificação exagerada que distorce os fatos. Certamente na tentativa de tornar compreensível uma realidade complexa, as autoridades oficiais utilizam os termos “explorações familiares” e “pequenas explorações agrícolas” como se fossem sinónimos e isso não é verdade.

A maioria (84%) dos 570 milhões de fazendas do mundo são pequenas propriedades; ou seja, fazendas com menos de dois hectares são, na sua imensa maioria, exploradas por pequenos fazendeiros em modo de subsistência. Eles são simultaneamente as pessoas mais pobres do mundo e quem, tragicamente — e de certa forma paradoxalmente — também passa fome com maior frequência. Trágica é também a forma como essa crença se generalizou, porque tem sido um elemento central na definição de políticas agrícolas e de desenvolvimento erradas. E como são erradas, ao invés de combaterem a pobreza a ampliam.

A verdade é que os pequenos agricultores produzem um terço dos alimentos mundiais

A FAO, ao afirmar em seus relatórios que “os pequenos agricultores produzem mais de 70% das necessidades alimentares do mundo” ou “as pequenas fazendas e as fazendas produzem 70-80% dos alimentos do mundo”, romantiza perigosamente a ideia de um futuro onde a maioria das pessoas ainda passa o seu tempo a trabalhar nos campos para apenas subsistir de pequenos retornos. Mas esse é o futuro onde centenas de milhões de pessoas continuam a viver na pobreza, passando fome.

É verdade que as pequenas fazendas produzem quase todos os alimentos “consumidos” do mundo, mas não a quantidade de alimentos “necessários”. É fácil entender que dois hectares trabalhados por uma numerosa família de agricultores em um país de África produzem infinitamente menos que outros — ou até os mesmos — hectares explorados pela última tecnologia de irrigação israelense assistida por computador. Este erro — com origem em uma falsa boa ideia — se transformou numa estatística zumbi, que, sendo repetida por muitas outras organizações, apesar de nenhuma evidência que a sustente, é uma das principais responsáveis por desigualdade e pobreza no mundo.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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