Edição nº2585 11/07 Ver edições anteriores

A fixação

Uma característica preocupa neste nosso novo presidente. Uma não, várias. Mas esta em especial frequentemente ganha as páginas dos principais jornais do País e até do mundo.

Passados 120 dias desde que assumiu o cargo máximo de nossa política, Bolsonaro demonstra uma curiosa fixação. Algo que ele expressa em afirmações, tuítes, galhofas, discursos, entrevistas, declarações, enfim. Não importa a situação, ele sempre dá um jeitinho de enfiar (ironia não intencional) o órgão sexual masculino no meio da conversa.

Já notou?

Senão explicitamente, ao menos uma sugestão genérica qualquer à sexualidade.

Nunca, em toda história do País, um presidente se preocupou tanto com o uso do dito cujo de seus cidadãos. Para o chefe do Executivo federal, é importante monitorar seus empregos e intenções de maneira a que não se cometa nenhum desvio, dentro dos rígidos critérios do mandatário.

Como um misto de guarda-costas e porta-voz do apêndice, durante a campanha ele criticava abertamente as minorias LGBT. Ainda que a sigla seja muito ampla, em campanha vale tudo.

Ingenuamente, imaginei que depois de eleito ele iria se preocupar com assuntos menos íntimos, como economia, educação, saúde, em vez de insistir em palpitar nos prazeres alheios.

Não foi o que aconteceu.

Desde que se elegeu, o presidente tem repetidamente lidado com a questão sexual, afunilando suas preocupações mais especificamente com o membro — o que confere uma dose extra de constrangimento às suas declarações.

Os comentários vão do grave ao anedótico. Mas estão sempre lá.

Recentemente, num café da manhã com a imprensa, o presidente afirmou que “se [o turista] quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade.” A frase, compreendida por muitos como um incentivo ao turismo sexual, traz implícito o uso correto, na opinião do presidente, do apenso em questão.

É a fixação do mandatário rompendo fronteiras!

Não satisfeito em monitorar o uso do órgão sexual masculino dos brasileiros, agora sua preocupação ganhou o mundo. Nada de vir aqui fazer sexo com homem porque “o Brasil não pode ser país do mundo gay”.

Em sua solitária cruzada, o presidente chega a se portar como uma criança que se diverte ao falar o que não deve. Sua claque, evidentemente, reage tal como seus colegas de escolinha.

– Nossa! O Pedrinho falou pinto!!

E toca manchete por aí.

Assuntos relevantes ficam revestidos dessa ironia primária, porque não importa se a frase é preconceituosa ou apenas deslocada. O presidente sempre sorri. O assunto a ele diverte e diverge a atenção.

Foi o caso de sua visita ao ministro recém-empossado da Educação, Abraham Weintraub. O ministro disse que acha normal filmar os professores em salas de aula e que almeja tirar filosofia e sociologia dos currículos, entre outras mudanças. São iniciativas que deveriam ser debatidas seriamente com especialistas.

E o que o presidente tem a dizer?

– Certos homens ao ir para o banheiro, eles só ocupavam o banheiro para fazer o número 1 no reservado… Um dado alarmante: mil amputações de pênis por ano no Brasil por falta de água e sabão.

Ele tem razão. O dado é verdadeiro.

Como o golden shower do carnaval também foi um real flagrante de atentado ao pudor. Mas para Bolsonaro não há consequência aparente alguma. O que vale é a oportunidade para tratar de seu assunto preferido.

E já que é assim, fica aqui meu apelo. Presidente, passados três meses, já é hora de focar em outros assuntos, digamos cabeludos. Estou certo que axilas renderão ótimas piadas.

Não importa se é golden shower, amputação de pênis ou turismo sexual. Qualquer momento serve como deixa para o presidente falar do órgão sexual masculino

 

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Mentor Neto

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