PANDEMIA * 2020

A fé resiste

A religião agora passa pelo streaming e pelas redes sociais. Por meio delas, as igrejas estão pregando suas crenças, e atuando de maneira racional para proteger seu rebanho das ameaças do coronavírus. A partir do isolamento obrigatório e da proibição das aglomerações, os grupos religiosos intensificaram um processo de digitalização e atendimento remoto que tornam cada vez mais dispensável a presença física para a realização de muitos rituais e cultos, e também para doações e oferta de dízimos. De pastores a babalorixás, de padres a xeques islâmicos, de rabinos a xamãs – todos os líderes religiosos estão se especializando em cerimônias e atendimentos online.

Crédito: SAMER ABDALLAH

SEGURANÇA Muçulmanos com máscaras mantêm distância de três metros para rezar em mesquita na Síria: veto a aglomerações durante o Ramadã (Crédito: SAMER ABDALLAH)

IMPACTO SIMBÓLICO Padre celebra missa online com fotos de fieis na igreja Nossa Senhora dos Navegantes, em Belém (PA) (Crédito:TARSO SARRAF)

Na outra ponta, gente dos mais diversos credos está buscando, para manter suas rotinas de fé, esses canais de comunicação em busca de um momento de reza e reflexão ou de conversas remotas com seu guia. Há uma demanda crescente por aconselhamento espiritual à distância. “A pandemia causou uma reestruturação completa da pastoral, tanto na parte administrativa como nas rotinas religiosas”, afirma o padre Carlos André da Silva Câmara, da Paróquia São Pedro Apóstolo, no bairro paulistano da Lapa. “Sacramentos como o casamento e a primeira comunhão foram suspensos, mas as missas estão acontecendo normalmente”. Carlos André vê essa compulsória migração para a Internet como algo necessário e acha que pode trazer mais ganhos do que perdas. Para ele, a palavra de Deus está chegando aos fiéis da mesma forma e a paróquia está em comunhão sem que as pessoas estejam presentes. “Nós somos uma Igreja unida, mesmo com cada fiel dentro de sua casa. É o momento de valorizar a Igreja doméstica. Pedi para as pessoas montarem um cantinho de oração para nossos encontros diários”, diz. Outro serviço espiritual que o padre Carlos está impulsionando são as lives de louvor para levar alegria aos fieis. A primeira experiência foi feita em abril e a próxima está programada para o dia 31 de maio. As confissões individuais estão mantidas, sem versão remota, mas com máscaras e distanciamento.

“Posso dizer que a vida espiritual na paróquia até se intensificou” Carlos André da Silva Câmara, padre

REDES SOCIAIS O padre Carlos André, da paróquia São Pedro Apóstolo, celebra missas diárias pelo Facebook

Liberação papal

Em março, diante do avanço exponencial do coronavírus, o Vaticano, através da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, publicou dois decretos em que reconhece a validade das missas online nestes tempos de isolamento social. O próprio Papa Francisco celebrou a missa de Páscoa com a Basílica de São Pedro totalmente vazia. E pediu, por streaming, que os fieis se unam espiritualmente e não fisicamente durante o tempo da calamidade sanitária. O Papa destacou que se trata de uma medida excepcional, apenas “para sair do túnel” da difícil situação atual. Mas deu um excelente exemplo de que o principal sacramento da Igreja, a celebração eucarística, em que pão e vinho se transubstanciam no corpo e sangue de Jesus Cristo por meio das palavras pronunciadas pelo padre, pode ser vivenciado à distância, sem materialidade, nada que a impressão 3D não possa resolver nos próximos anos.
Há um efeito inesperado e positivo da pandemia. De um modo geral, os padres estão percebendo um aumento da participação dos fieis nas missas virtuais, em comparação com o número de pessoas que normalmente participavam das celebrações presenciais. As próprias missas do Papa, transmitidas por streaming, estão tendo uma audiência recorde.

“As pessoas estão conseguindo exercitar sua fé à distância” Rodney William, babalorixá

ROTINAS William realiza jogo de búzios pelo Zoom e WhatsApp e permite que os ebós sejam acompanhados pelos filhos de santo (Crédito:GABRIEL REIS)

Na sua pequena paróquia, o padre Carlos André verifica isso claramente. “Posso dizer que a vida espiritual na paróquia até se intensificou”, afirma. Nas missas presenciais diárias, a igreja recebia, em média, cerca de 30 pessoas, e, agora, na cerimônia remota, esse número chega a 50. “A freqüência aumentou até pela maior facilidade de acesso”, explica o padre. “Hoje, nossa audiência inclui gente que mora em outras cidades ou que sofre de algum problema de saúde e não pode sair de casa”.

Ebós e Ramadã

Para outras religiões, o efeito tem sido parecido. Por causa das restrições de mobilidade, o terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, localizado na região da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo, suspendeu todos seus trabalhos presenciais e não está recebendo seus filhos de santo. Mesmo assim, o antropólogo e babalorixá, Rodney William, que comanda o centro, tem conseguido manter a maior parte de suas atividades à distância. “Tem alguns ebós, como nos rituais de iniciação e renovação de votos, que foram suspensos porque dependem da presença dos fiéis”, diz. “Mas muitas práticas cotidianas do terreiro, como o jogo de búzios e os ebós mais simples estão mantidas”. Os ebós ou despachos são as oferendas feitas aos santos como agradecimento ou como convocação. O jogo de búzios tem sido realizado online pelo Zoom ou pelo Whatsapp e, no momento das oferendas, o babalorixá entra em contato com o filho de santo para que ele acompanhe o ritual. “Pessoas que atendo há anos eram reticentes às consultas on line, mas agora estão satisfeitas”, afirma William. “Elas estão precisando e conseguindo exercer sua fé à distância”. Como acontece com os padres católicos, o babalorixá tem trabalhado muito mais nestes tempos de pandemia. A procura pelo atendimento via Internet tem aumentado.

Diante da necessidade de isolamento, igrejas se rendem ao poder das redes sociais e apostam em rituais remotos e em cultos drive in

SERVIÇOS RELIGIOSOS Padre improvisa confessionário drive thru na porta da igreja em São Francisco do Sul (SC) (Crédito:Diocese de Joinville)

Em pleno mês do Ramadã, iniciado no dia 24 de abril, os muçulmanos também reforçaram seus cuidados para enfrentar a pandemia. Regras foram estabelecidas pelos líderes religiosos para forçar as mesquitas a fecharem suas portas. O “iftar”, um intervalo de jejum ao anoitecer em que se realiza uma refeição festiva e familiar se tornou mais discreto e menos alegre. Os populares bazares de Ramadã, onde se compram doces para comer nesses intervalos do jejum, foram suspensos em vários países. Na maior nação muçulmana, a Indonésia, a recomendação geral é para que os fieis fiquem em casa.

Na Malásia, a principal autoridade islâmica do conservador estado de Kelantan, determinou o cancelamento das orações públicas e das refeições em família. Em alguns países, as mesquitas foram abertas, mas se exige que as pessoas mantenham uma distância segura umas das outras durante as rezas e usem máscaras. No Brasil, líderes islâmicos transmitem suas orações noturnas, as Tarawih, em lives pela Internet e as doações de alimentos no Ramadã, normalmente destinados para os banquetes nas mesquitas, foram convertidas em cestas básicas que estão sendo entregues para famílias pobres.

Dízimo eletrônico

Entre os evangélicos, a adesão aos cultos online também tem sido ampliada, mas há várias denominações resistentes a suspender as cerimônias presenciais e que negam a letalidade do vírus. Igrejas como a Universal, Mundial e Renascer mantêm as portas de seus templos abertas, mas restringiram a ocupação a 30%, por determinação legal e passaram a exigir o uso de máscaras e a oferecer álcool gel na entrada dos cultos. A Renascer, inclusive, que já teve vários de pastores contaminados pela Covid-19, mede a febre dos fieis na porta dos templos. Diante da necessidade imperiosa de manter a distância entre as pessoas, outra nova modalidade ritualística que ganha força é a celebração “drive in”, em que os fieis ouvem a missa de dentro de seus carros e tocam buzinas para fazer suas louvações ao senhor. Há também o serviço “drive thru”, em que os fieis passam de carro em frente ao templo e recebem a benção de pastores e padres. Igrejas de vários pontos do país adotaram o sistema, como a DNA, de Itu (SP), a Igreja Evangélica Batista de Vitória (ES), que realizou sua primeira celebração “drive in” no início deste mês, e a Verbo da Vida, de Campina Grande (PB). Mesmo nesses casos, os cultos são transmitidos pelas redes sociais.

Outra questão premente para o funcionamento das igrejas é o pagamento de dízimos e realização de doações. E para viabilizá-los diversas iniciativas estão sendo tomadas. O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, por exemplo, mandou colocar um QR Code nas transmissões de seus cultos por redes sociais para que os fieis façam suas doações. O Templo de Salomão, sede da Universal, tem recebido entre 2 mil e 3 mil pessoas nos seus cultos de fim de semana. Na paróquia de São Pedro, as doações de roupas e alimentos continuam chegando e de 15 em 15 dias e o padre passa um número de conta bancária para receber o dizimo e manter sua obra. A partir da próxima semana, a paróquia vai disponibilizar um aplicativo de doações para que os fieis se cadastrem e dêem suas contribuições regulares. De alguma forma, todas as igrejas estão se adaptando aos novos tempos de rituais remotos. É preciso proteger os fieis e, definitivamente, não há qualquer tipo de imunidade divina ao vírus da Covid-19.