Comportamento

A fé está no Ar

Com o isolamento social, as religiões se reinventam, promovem cerimônias online para alimentar a espiritualidade dos fiéis e conseguem ampliar sua audiência

Crédito: Marco Ankosqui

RENOVAÇÃO Igreja Católica viu aumentar a popularidade com os jovens graças às missas virtuais: tecnologia para aumentar o rebanho (Crédito: Marco Ankosqui)

AUDIÊNCIA Pastor Edson Nunes: “número de fiéis cresceu de 300 para 5 mil com as mídias sociais” (Crédito:Marco Ankosqui)

O refrão “andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”, da música de Gilberto Gil, resume o conforto que as pessoas buscaram durante a pandemia. Religiões das gêneses mais diversas tiveram de se reinventar para poder manter e atender a seus fiéis. Chama atenção o crescimento no cuidado com a espiritualidade e a inserção dos jovens. Acostumadas a prezar pela tradição, as atividades religiosas se viram obrigadas a utilizar os recursos do mundo virtual. Mídias sociais e plataformas online viraram alternativas e superaram as expectativas. Hoje, os líderes religiosos que se adequaram à nova realidade se surpreendem com a adesão. Foi um caminho natural para preservar o principal dogma que converge nas mais diversas religiões: a fé em Deus e na vida.

Na igreja protestante dos Adventistas do Sétimo Dia Nova Semente a audiência subiu de uma média de 300 pessoas nos cultos presenciais para 1.500 nas transmissões ao vivo pela internet. O pastor e doutor em Bíblia Hebraica, Edson Nunes, conta que seria impossível chegar a tantas pessoas com a estrutura física da igreja: o prédio comporta apenas 400 fiéis. “Além dos espectadores ao vivo, temos muitos outros que assistem aos cultos gravados. Ao todo, são cerca de 5 mil pessoas por culto”, disse o pastor. Nunes credita aos jovens esse fenômeno, especialmente porque há muitos que preferem a madrugada para exercitar a espiritualidade. A motivação em fazer os cultos online foi simples. “Queremos preservar vidas, ignorar a ciência foi um dos grandes erros da igreja cristã na história”, afirma.
A vontade de sair e de viver intensamente é algo natural do ser humano. Mas o diretor da pastoral do Instituto Dom Bosco, Magno Fonzar Albuquerque, diz que “o cuidado com uma vida em abundância é a principal tarefa de um representante de Cristo”. O diácono disse que a paróquia também recorreu à tecnologia para chegar dentro da casa dos católicos. A aproximação com os jovens foi outro ganho, uma vez que o domínio das ferramentas virtuais abriu mais espaço para eles. O diácono pensa que “a fé aumentou depois que a pandemia deu um chacoalhão nas pessoas”. A igreja está aberta, mas as funções litúrgicas estão suspensas conforme as orientações das autoridades e cientistas – além das recomendações do arcebispo.

CANDOMBLÉ Olhar para a natureza e exercício de espiritualidade (Crédito:Divulgação)

Com uma dinâmica bem diferente das religiões tradicionais, o candomblé exige uma interação constante. Ivanir dos Santos, babalaô e doutor em História, explica que são necessárias a festa, a roda, a dança, todas expressões públicas da religião. Outro elemento importante é o segredo. Durante a pandemia, o contato entre o seguidor e o babalaô ocorreu por meio da consulta online. Santos disse que o candomblé é uma “religião iniciática” que tem como princípio as forças da natureza. “Quando ocorre algo como a pandemia é porque o universo não está bem”, diz. Por enquanto, as atividades presenciais foram suspensas. O babalaô garante que é possível exercitar a religiosidade em casa. “O templo é apenas o espaço onde se reverencia as forças da religião”, explicou. Ele condena quem ignora a Covid: “Quem não respeita a vida não é um bom religioso”.

O improviso deu a tônica da relação entre os fiéis e o Centro Budista de Meditação Kadampa. A monja Gen Mudita fechou o templo por dois meses e não sabia o que fazer sem a possibilidade de presença nas aulas. “Pensei que a pandemia ia durar pouco tempo”, disse. Seu primeiro contato com a tecnologia se deu por meio de áudios gravados, mas isso não foi suficiente: a demanda por uma linguagem mais interativa a levou a ingressar no popular mundo das lives.

BUDISMO As aulas online serão mantidas após a pandemia (Crédito:Divulgação)

Transmissões pela internet

O centro comporta apenas 120 pessoas, mas a audiência em apenas uma aula chega a mais de 4 mil pessoas. Gen Mudita afirma que o budismo também é uma ciência, e que isso foi determinante para as pessoas terem consciência e manterem o isolamento. Segundo ela, há uma transição no modo de acompanhar as atividades religiosas. “Na pós-pandemia haverá um modelo híbrido entre o presencial e o online. As transmissões pela internet vieram para ficar e a gente vai ter que se adaptar.” Qualquer contestação de líder religioso contra a necessidade do isolamento social durante a pandemia escancara um desvio de princípios. Quem valoriza a vida não coloca os objetivos econômicos em primeiro plano. Felizmente, há inúmeros bons exemplos – a presença da fé está no ar.