Comportamento

A farsa de uma excomunhão

Setenta e cinco anos após banir da Igreja o bispo brasileiro Duarte Costa, o Vaticano reconhece que ele foi falsamente acusado de comunista. Sua punição se deu porque criticou a omissão do papa Pio XII diante do nazismo

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DENÚNCIA Duarte Costa afirmava que a Operação Odessa era uma farsa: cortina para encobrir o ingresso de padres nazistas no Brasil (Crédito: Divulgação)

Se os arquivos que compõem o acervo secreto do Vaticano fossem colocados em uma única linha reta, eles teriam cerca de noventa quilômetros de extensão. Em meio a todo esse material mantido no mais rigoroso sigilo, abrangendo doze séculos da história da Igreja Católica Apostólica Romana, está a documentação que embasou a excomunhão do bispo brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, dom Carlos Duarte Costa. Ele foi excomungado em agosto de 1945 pelo papa Pio XII, a quem acusava de omissão diante do genocídio promovido pelo nazismo ao longo da Segunda Guerra Mundial, iniciada seis anos antes. Mais que isso, Duarte Costa afirmava publicamente que padres alemães estariam ingressando no Brasil sob o pretexto de dedicação ao trabalho missionário, na chamada Operação Odessa, escamoteando o real motivo da imigração. Segundo o bispo, tais religiosos vinham simplesmente fugindo da Alemanha no final do conflito pelo temor de serem presos com a derrota do ditador nazista Adolf Hitler.

Teologia da libertação

Quando foi excomungado pelo Vaticano, Duarte Costa exercia a função de bispo da Diocese da cidade paulista de Botucatu. “Documentos mostram que ele foi muito vigiado”, explica o pesquisador Anderson José Guisolphi, que se tornou membro da Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada por Duarte Costa após seu banimento pelas autoridades eclesiásticas de Roma. Fato curioso é que o pesquisador Guisolphi chegou à certeza de que os arquivos do Vaticano escondem a história do religioso brasileiro não por uma afirmação, mas, isso sim, por meio de uma negativa. Quando requisitou ao Vaticano autorização para ter acesso à documentação, a resposta que recebeu disse-lhe tudo: acesso vedado porque o bispo fora um “herético excomungado”.

Dono de um espírito independente, o bispo carioca pregava que o celibato não deveria ser obrigatório

Duarte Costa, falecido em 1961, aos 73 anos, sempre manteve posições independentes dentro da Igreja, algumas delas se chocando com dogmas e regras oficiais das encíclicas. Esteve longe, no entanto, de ser adepto do comunismo como quis fazer crer o Vaticano, simplesmente porque ele dava ênfase às questões sociais e à pastoral junto aos desvalidos, podendo-se dizer que foi um precursor da Teologia da Libertação que nasceria no papado de João XXIII, no Concílio Vaticano II, no qual a igreja fixou “a opção preferencial pelos pobres”.

O bispo propunha também que o celibato não fosse obrigatório e que o clero aceitasse o divórcio. Para que não ficasse escancarada que a sua punição teve origem nas críticas ao silêncio de Pio XII diante do nazismo, as opiniões progressistas do bispo brasileiro foram rotuladas na época como um endosso de sua pessoa aos princípios comunistas que, na verdade, ele abominava — as acusações se tornaram mais duras depois de ter prefaciado o livro “Poder Soviético”, escrito pelo arcebispo da Igreja da Inglaterra, Hewlett Johnson. A sua sentença de excomunhão foi selada quando fundou no Brasil o Partido Socialista Cristão (nada tem a ver com a legenda homônima da atualidade). Deixe-se claro, então, que Carlos Duarte Costa foi punido por ser um espírito independente e pelas críticas à Igreja conservadora e tradicionalista. Ele quebrou o dogma da infalibilidade papal. Foi bem mais fácil aos seus perseguidores chamá-lo daquilo que ele nunca foi: comunista.

Queimados e excomungados